Por que Deixar a China Entrar Pode Transformar o Futuro Global


A Nova Política Industrial dos EUA: Oportunidades e Desafios

Nos últimos tempos, a política industrial voltou a ser um assunto em alta nos Estados Unidos. Em um cenário de cadeias de suprimento fragilizadas e uma base industrial enfraquecida, o país enfrenta riscos econômicos e de segurança nacional crescentes. Nesse contexto, líderes de diferentes partidos têm adotado esforços significativos para revitalizar a capacidade industrial americana. O marco regulatório mais recente, como o CHIPS and Science Act de 2022, simboliza o compromisso de Washington com o fortalecimento da base de tecnologia e manufatura dos EUA, vital para o sucesso econômico e a defesa nacional. Eu, por minha vez, tive a honra de participar desse processo como diretor do Conselho Econômico Nacional durante a administração do presidente Joe Biden.

A Necessidade de Reforçar a Capacidade Nacional

O investimento em capacidades domésticas é uma resposta necessária a riscos palpáveis. No entanto, há uma crescente resistência entre os líderes americanos em relação aos investimentos estrangeiros. Muitos temem que investidores internacionais possam roubar dados sensíveis ou ganhar influência sobre empresas dos EUA e sua infraestrutura essencial. Essa aversão é mais intensa em relação à China, mas também se estende a aliados e parceiros.

Medidas Restritivas em Relação ao Investimento Estrangeiro

Os temores sobre investimentos estrangeiros têm levado a uma série de propostas que visam restringir ou taxar o capital que entra no país. Por exemplo, Stephen Miran, presidente do Conselho Econômico de Biden, sugeriu a criação de taxas sobre ativos estrangeiros nos EUA, incluindo aqueles pertencentes a aliados. Além disso, senadores como Tammy Baldwin e Josh Hawley propuseram legislações bipartidárias que taxariam diretamente os influxos de capital estrangeiro. No federal, estadual e local, as autoridades têm adotado ações que dificultam a entrada de capital global nos EUA, o que pode minar a capacidade americana de aproveitar inovações em áreas cruciais, como armazenamento de dados e produção de chips.

Um Caminho Autodepreciativo

Essas estratégias, além de preocupantes, podem se revelar autodestrutivas. É indiscutível que o governo dos EUA precisa mitigar os riscos associados ao investimento estrangeiro, mas atualmente seu regime de triagem é excessivamente rigoroso. Ao se fechar para a colaboração internacional, os Estados Unidos colocam em risco sua própria política industrial e as ferramentas necessárias para competir globalmente em setores essenciais.

Abraçando o Investimento Estrangeiro Com Sabedoria

O que o país realmente precisa é de um novo modelo que incentive seletivamente os investimentos estrangeiros a fim de acompanhar suas ambições industriais. A política atual apresenta um aparato elaborado para dizer não a investimentos externos, mas carece de mecanismos para dizer sim. Um sistema aprimorado receberia capital e conhecimento estrangeiro, mantendo a transparência, protegendo dados americanos e garantindo que cidadãos dos EUA tenham o controle sobre empresas em questões críticas.

Histórias de Sucesso com Colaborações Estrangeiras

Historicamente, os EUA sempre se beneficiaram do conhecimento e das tecnologias estrangeiras. Um exemplo marcante ocorreu no início do século XIX, quando o país precisava fortalecer sua indústria de pólvora, anteriormente dependente da Grã-Bretanha. O químico francês Éleuthère Irénée du Pont, com investimentos franceses, trouxe técnicas avançadas de fabricação e fundou a DuPont, que se tornou um importante fornecedor de explosivos.

Avançando para a década de 1980, quando as montadoras americanas lutavam para se manter competitivas frente às japonesas, a General Motors e a Toyota reabriram uma planta da GM em Fremont, na Califórnia. Incorporando sistemas de fabricação japoneses, transformaram uma fábrica em decadência na mais produtiva do país em dois anos, sem alterar significativamente a força de trabalho americana. Essas colaborações são exemplos que a nova legislação CHIPS and Science Act busca emular, especialmente no setor de semicondutores.

O Desafio da China

Entretanto, tratar investimentos da China apresenta desafios únicos. O país se destacou no uso de práticas de governo para obter vantagem competitiva, levando a um sentimento crescente de que os EUA devem manter distância dos investimentos chineses. Nesse contexto, investigadores como Oren Cass alertaram que permitir investimentos chineses nas empresas americanas poderia ser um grande erro.

Porém, para crescer e inovar, os EUA precisam manter uma abertura estratégica para investimentos estrangeiros, inclusive da China. Historicamente, a China trouxe uma rica expertise ao aprender com empresas americanas; agora, o acesso a esse conhecimento é crucial para que os EUA avancem em tecnologias críticas.

A Necessidade de Parcerias Estratégicas

Um exemplo recente é a parceria da Ford, que anunciou uma planta em Marshall, Michigan, para fabricar baterias elétricas com tecnologia da empresa chinesa CATL. Embora a Ford detenha totalmente a instalação, existe um acordo de longo prazo que permite o treinamento de seus funcionários a partir do conhecimento essencial da CATL. Essa abordagem é uma demonstração clara de como podemos construir uma estratégia industrial ambiciosa e eficaz, unindo forças em vez de apartá-las.

Criando um Sistema de Aprovação Mais Eficiente

É evidente que a burocracia pode afetar parcerias produtivas. Reguladores têm utilizado seu poder para bloquear investimentos estrangeiros, temendo enfrentar consequências caso tecnologias sensíveis sejam reveladas. O CFIUS (Comitê para Investimentos Estrangeiros nos EUA) enfrenta um grande acúmulo de casos e se tornou notório por sua abordagem excessivamente cautelosa.

Por outro lado, uma revisão de como o CFIUS opera poderia criar um ambiente mais favorável para investimentos que trazem benefícios. Baixar a carga regulatória para países aliados e examinar investimentos com um olhar mais flexível poderia amplificar as oportunidades, permitindo que empresas americanas se beneficiem de parcerias com o exterior.

Redefinindo a Relação com o Investimento Estrangeiro

O objetivo deve ser abrir a porta para que empresas americanas explorem alianças com o exterior, cuidando para que a segurança nacional seja respeitada. É fundamental que o CFIUS adapte seu critério e não se concentre apenas na nacionalidade dos investidores, mas, sim, em como suas operações podem impactar a segurança dos EUA.

Um Modelo a Ser Seguido

Modelos como o programa FOCI do Departamento de Defesa oferecem um caminho a ser seguido. Esse modelo é eficaz em proteger setores sensíveis, mesmo com participação de capital estrangeiro. Aplicar um sistema semelhante para investimentos em áreas críticas — como semicondutores e softwares avançados — poderia fortalecer a indústria nacional, ao mesmo tempo que traz expertises essenciais para a mesa.

Ao reavaliar e aprimorar os processos que regulam o investimento estrangeiro, os Estados Unidos poderão explorar plenamente seu potencial industrial. A abertura estratégica, quando feita de maneira sensível e cuidadosa, pode revitalizar a base industrial do país.

O Caminho a Seguir

Estabelecer novas rotas para a aprovação de investimentos estrangeiros não será uma tarefa simples. As pressões políticas para bloquear tais transações ainda são fortes. Contudo, ao abordar esses desafios com competência e clareza, os EUA têm a chance de atrair o investimento produtivo que fortaleça sua posição no mundo.

Como podemos aprender com o passado, ao integrar inteligentemente conhecimentos externos, seremos capazes de construir um futuro mais forte. Com um sistema que avalia cuidadosamente riscos e oportunidades, os Estados Unidos podem, uma vez mais, fazer do conhecimento estrangeiro uma parte de seu engrenagem inovador, criando novas oportunidades para crescer e prosperar. Ao final, é uma questão de abraçar o que de melhor o mundo tem a oferecer para impulsionar nossa própria economia.

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