A Ascensão de Trump e o Papel da Política Externa nas Eleições de 2024
Durante a campanha presidencial dos Estados Unidos em 2024, as vozes do establishment de política externa praticamente se uniram em um coro unânime: Donald Trump não era adequado para comandar as Forças Armadas do país. Mais de 100 líderes de segurança nacional do Partido Republicano, junto a democratas, expressaram apoio a Kamala Harris, denunciando Trump como um aspirante a autocrata que ameaçaria a ordem global criada pelos EUA. Inclusive, diversos oficiais de alto escalão de Trump, como dois ex-secretários de Defesa e dois ex-assessores de Segurança Nacional, alertaram que sua presidência representaria um perigo claro tanto para os interesses americanos no exterior quanto para a democracia interna.
Entretanto, Trump voltou à Casa Branca, e a política externa parece ter desempenhado um papel crucial em sua reeleição. Embora as relações internacionais não sejam a principal preocupação dos eleitores – que geralmente se concentram na economia – pesquisas mostram que questões globais influenciaram o resultado da eleição, favorecendo Trump. Isso se deve, em parte, à sua postura agressiva em relação à imigração, que se tornou o principal tema internacional na mente dos eleitores. Além disso, Trump conseguiu criar a imagem de um líder forte, qualidade que a maior parte da população valoriza quando pensa em quem deve liderar o país.
A Importância das Margens na Eleição
Embora a política externa não tenha sido o foco principal das preocupações dos eleitores no dia da eleição, há razões para acreditar que ela teve seu peso nas margens decisivas. Em um cenário em que vários estados-chave foram decididos por estreitas margens de votos, essa influência fez diferença significativa em favor de Trump.
A questão internacional que mais ressoou na eleição de 2024 foi, sem dúvida, a imigração. Os republicanos a moldaram nos últimos anos como uma ameaça à segurança nacional. Trump descreveu os EUA como um país "ocupado", enfrentando uma “invasão” de imigrantes ilegais, prometendo até utilizar as Forças Armadas para realizar deportações em massa. Essa retórica forte atraiu uma parcela expressiva do eleitorado. De acordo com a pesquisa AP VoteCast, cerca de um em cada cinco americanos considerava a imigração a questão mais urgente para o país, e impressionantes 89% desses eleitores votaram em Trump.
Além disso, muitas pesquisas mostraram que o eleitor confia em Trump para lidar com a política externa de maneira mais geral, o que se refletiu nas votações. Por exemplo, em pesquisas nacionais realizadas um mês antes da eleição, Trump liderava por dez pontos percentuais no quesito "quem faria um melhor trabalho em defesa nacional" e por nove pontos em "quem lidaria melhor com a guerra e o terrorismo". Mesmo em questões mais amplas sobre política externa, ele frequentemente superava Harris por pelo menos cinco pontos.
A Retórica de Força e seu Efeito
Trump soube combinar seu apelo de “líder forte” com uma abordagem que não o fazia parecer bélico. Ele se comparou a Ronald Reagan, enfatizando que seu governo era o primeiro desde Jimmy Carter a não envolver os EUA em um novo conflito armado. Ao mesmo tempo, sua insistência em que Biden estava "destruindo a credibilidade americana" no exterior conquistou a confiança de muitos eleitores.
Um exemplo prático foi a percepção mútua dos eleitores. Quando perguntados sobre quem seria um “líder forte que avança os interesses dos EUA internacionalmente”, 54% escolheram Trump, em comparação com 46% para Harris. Essa imagem de liderança é crucial, pois pesquisas demonstram que, se os candidatos são percebidos como firmes, isso os torna candidatos mais adequados para a posição de comandante em chefe, mesmo que suas posições sobre questões específicas não sejam unanimemente apoiadas.
Desafios à Liderança de Trump
Honorando sua imagem de força, Trump terá que enfrentar enormes desafios em sua nova presidência. Políticas como acabar rapidamente com a guerra na Ucrânia ou implementar tarifas de dois dígitos podem não se concretizar e, se não forem bem-sucedidas, podem levar a um forte descontentamento. A história mostra que, em seu segundo mandato, Trump dará aos democratas muitos motivos para criticá-lo, o que exigirá uma resposta estratégica de Kamala Harris e seu partido.
Para que os democratas possam competir efetivamente em 2028, será imperativo que eles elaborem uma mensagem convincente, apresentando uma visão mais clara sobre como seu partido valoriza o papel dos EUA no cenário global. Já está claro que questões de imigração e as relações dos EUA com a China estarão em destaque.
O Papel de Kamala Harris
A derrota de Harris nas questões de política externa foi particularmente impactante. A vice-presidente requereu os últimos dias de sua campanha para enfatizar os alarmes feitos por conselheiros de segurança nacional de Trump, mas os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio têm moldado a percepção de que o mundo atravessa uma crise sob a administração democrata. Não ajuda que apenas um terço dos americanos se mostre satisfeito com a posição global dos EUA atualmente.
Se Harris tivesse se distanciado mais de Biden, ela poderia ter ganhado apoio em alguns segmentos, especialmente entre eleitores muçulmanos nos EUA, mas as pesquisas mostram que essa mudança de posição não teria gerado grande impacto no resultado das urnas. Seu maior ponto forte seria sobre a mudança climática, uma área onde ela tinha uma considerável vantagem sobre Trump. Entretanto, a prioridade baixa dada à questão pelos eleitores nos estados-chave fez com que esse ponto não fosse suficiente para a tração na eleição.
Reflexões Futuras e Desafios de Trump
À medida que Trump se prepara para assumir a liderança novamente, ele se depara com uma gama complexa de problemas de política externa, que são heranças diretas da administração anterior. A guerra na Ucrânia será um teste decisivo. O desafio é que tentar estabelecer um acordo de paz pode revelar sua falta de habilidade nessa área, ou ele pode forçar um acordo que não seja aceito pela Ucrânia, levando a acusações de traição por parte de seus apoiadores.
No cenário do Oriente Médio, Trump poderá reivindicar um triunfo se Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, alcançar um cessar-fogo em áreas de conflito, mas a dinâmica regional mudou muito desde seu primeiro mandato. Decisões sobre o controle militar de Israel sobre os palestinos e a relação com a Arábia Saudita podem não ser tão fáceis quanto parecem.
Um Novo Rumo para os Democratas
Os democratas têm tempo para se reestruturar e antecipar os desafios de 2028. Eles precisam formular uma mensagem clara sobre como devem ser percebidos no palco internacional. Isso implica promover candidatos com experiências sólidas em segurança nacional e que tenham o carisma e firmeza para se conectarem com os eleitores.
No entanto, esses dois partidos enfrentarão desafios substanciais nos próximos quatro anos, enquanto tentam navegar por um cenário global tumultuado. Com a política externa não subindo ao topo das prioridades eleitorais, não obstante, é evidente que as relações internacionais ainda afetam as escolhas eleitorais de maneira significativa. Portanto, cada partido deve se preparar efetivamente, pois questões de política externa terão um impacto profundo nas disputas por votos nas próximas eleições.
Então, qual é o futuro da política externa dos EUA e como os partidos irão ajustar suas estratégias? As questões permanecem abertas e é essencial que continuemos a discutir, refletir e nos preparar para o que está por vir.


