
A Conexão entre Café e Tequila: Agroturismo e Identidade Cultural
“A essência de uma denominação de origem reside na capacidade de criar um produto que simbolize nossa cultura e raízes, algo que nos faça sentir parte de uma identidade maior, seja como país ou comunidade.” Essa observação da mexicana Araceli Ramos, diretora de promoções e relações públicas da Jose Cuervo, ressoa profundamente. Ela fez uma visita ao Rio Grande do Sul, onde se encontrou com Cecília Nakao, da Associação de Produtores de Cafés Especiais do Caparaó (APEC). O encontro ocorreu durante a Connection Terroirs Brasil, um dos maiores eventos sobre indicações geográficas do país, realizada em Gramado, entre 10 e 13 de junho.
Tequila e Café: Histórias de Transformação
Apesar de separadas por mais de 7 mil quilômetros, a tequila e o café do Caparaó compartilham um caminho surpreendente: ambos se transformaram em destinos turísticos. Cecília ressalta que “o Caparaó é um exemplo de pertencimento”, destacando que os produtores se orgulham em afirmar: “Eu sou do Caparaó.” Com 160 associados, a APEC beneficia, em média, quatro pessoas por produtor, mostrando o impacto social que essa cultura pode gerar.
A tequila, primeira denominação de origem do México, é reconhecida em 58 países e é feita exclusivamente do agave tequilana Weber, variedade azul, que leva de 8 a 10 anos para maturar. Araceli explica que “não é apenas uma bebida, mas uma fonte de orgulho para os mexicanos, um símbolo de felicidade.” O verdadeiro valor da tequila está na forma como enriqueceu as comunidades locais antes de atrair os turistas.
A Evolução do Café no Caparaó
No Caparaó, que abrange 16 municípios entre Minas Gerais e Espírito Santo, a jornada foi um pouco menos glamorosa. “Até 15 anos atrás, nossa região era famosa por produzir os piores cafés do Brasil”, revela Cecília. As percepções depreciativas sobre a qualidade do café tornavam a venda difícil; muitos produtores precisavam afirmar que seus grãos eram de outras regiões para conseguir clientes. Contudo, a virada chegou quando um grupo de produtores decidiu focar na qualidade e no turismo simultaneamente. “Gradualmente, percebemos que podíamos também oferecer café de alta qualidade”, complementa.
O reconhecimento da Indicação Geográfica (IG) pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) ganhou vida em 2021, após um pedido realizado em 2014. E isso representa um novo começo para a produção de café na região, permitindo que os produtores se sintam orgulhosos do que oferecem ao mundo.
Crescimento do Agroturismo
O mercado global de agroturismo está em uma trajetória ascendente, estimando-se que atinja entre US$ 9,18 bilhões e US$ 12,91 bilhões em 2025. Projeções apontam que esse valor pode chegar de US$ 28,38 bilhões a US$ 41,55 bilhões na próxima década, com um crescimento anual superior a 12%. A Europa responde por mais de 47% desse mercado, e junto à América do Norte, contabiliza impressionantes 75%. Isso faz com que a América Latina, incluindo Brasil e México, tenha uma participação ainda marginal.
É essencial demonstrar exemplos concretos de como essas regiões superaram desafios e estruturaram projetos de sucesso, como os dos cafés do Caparaó e da tequila.
Agroturismo em Sinergia com a Natureza
Cecília atribui o sucesso atual do Café do Caparaó à proximidade com o Parque Nacional do Caparaó, onde se encontra o Pico da Bandeira, o terceiro ponto mais alto do Brasil. Este parque foi criado em 1961 e abrange 31.800 hectares, dos quais 80% estão no Espírito Santo. “Mantemos um relacionamento simbiótico; os cafezais cercam o parque, que por sua vez proporciona microclimas únicos, ajudando a definir nossa assinatura sensorial”, afirma.
No concurso Coffee of the Year de 2025, promovido pela Semana Internacional do Café (SIC) — uma iniciativa do Sistema Faemg Senar, da Café Editora, do Sebrae e do Governo de Minas —, oito dos dez melhores cafés tiveram origem nessa área, sendo sete deles da APEC. “Quando o resultado foi anunciado, foi uma verdadeira celebração”, conta Cecília emocionada.
Araceli também tem raízes no turismo, tendo trabalhado em um hotel em Guadalajara, onde acolhia grupos da Jose Cuervo. Ela sempre acreditou que a destilaria poderia se transformar em um destino turístico. Sua persistência convenceu o então proprietário da marca, Juan Beckmann, a construir o Mundo Cuervo, inaugurado em 2003 e que já recebeu cerca de 3 milhões de visitantes ao longo de seus 23 anos.
“Para mim, era o meu Disney World, meu Cuervo World. Assim batizamos o Mundo Cuervo”, lembra Araceli.
Sustentabilidade e Desenvolvimento Comunitário
A metamorfose do povoado de Tequila é notável. Araceli conta que antes os habitantes precisavam atravessar a fronteira em busca de trabalho nos Estados Unidos. Hoje, Tequila, que possui 40 mil habitantes, já oferece oportunidades internas e um futuro promissor. Outras destilarias seguiram o exemplo da Jose Cuervo, abrindo-se ao público e criando uma rota de turismo que inclui restaurantes, artesanato e até atividades como rapel e passeios de balão.
Araceli enfatiza que “a concorrência entre destilarias gera inovação e evolução.” Atualmente, as marcas da Becle, incluindo Jose Cuervo, 1800 e Maestro Dobel, são distribuídas em mais de 85 países, mostrando o impacto positivo do turismo na região.
Compartilhando Sonhos e Conquistas
No Caparaó, a mobilização dos produtores seguiu uma lógica semelhante. Aqueles mais engajados começaram a inspirar os outros. Cecilia afirma: “Criamos um ciclo de curiosidade, onde os demais produtores queriam saber o que estava acontecendo com aqueles que participavam ativamente das feiras.” A contribuição do Sebrae foi fundamental. “Sem o Sebrae, estaríamos, sei lá, 50 anos atrasados”, reconhece Cecília. Ela também menciona a determinação dos produtores, que lutaram contra séculos de estigmas negativos e constantemente buscaram melhorias.
Ao se despedir do Brasil, Araceli destacou que “o que une ambas as indicações de origem é a força dos sonhos e do desejo de alcançar objetivos.” Cecília reforçou o convite: “Conheçam o Caparaó, que é um lugar fascinante e de uma beleza única. Mas aviso: uma vez lá, vocês podem não querer ir embora!”