A instabilidade climática pode reduzir a produtividade da soja e elevar a exposição financeira dos produtores, segundo Talita Cury, empresária e conselheira do Grupo Santa Clara. Em artigo publicado em 2026, ela defende que o manejo seja planejado antes da ocorrência de eventos extremos, diante das previsões para a safra 2026/27 e do impacto histórico das secas sobre a produção nacional.
Um trabalho da Embrapa Soja publicado em 2026 calculou que, ao longo de cinco décadas, as perdas de soja associadas à seca corresponderam a 11,65% da produção brasileira. Aplicado à estimativa de 180,4 milhões de toneladas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra 2025/26, esse percentual representaria cerca de 21 milhões de toneladas.
O risco climático, porém, não se distribui da mesma maneira pelo país. Cury afirma que a safra 2026/27 deve sofrer a influência de um El Niño muito forte. Nesse cenário, o Sul tem maior probabilidade de registrar chuvas acima da média, enquanto grande parte do Centro-Norte pode enfrentar precipitações abaixo da média, temperaturas elevadas e maior risco de falta de água.
Estresse climático afeta o desenvolvimento
Em períodos de calor intenso e déficit hídrico, a planta fecha os estômatos — estruturas que regulam a troca de gases e a perda de água pelas folhas. A resposta é mediada pelo ácido abscísico (ABA), um hormônio vegetal. Ao reduzir a transpiração, a planta conserva água, mas também limita a entrada de dióxido de carbono (CO₂), necessário à fotossíntese.
A queda na transpiração diminui ainda o resfriamento das folhas, que podem aquecer mais. Segundo o artigo, isso favorece o estresse oxidativo e danos ao sistema fotossintético. Com menor produção de compostos usados no crescimento, a planta pode perder parte de seu potencial produtivo.
O excesso de chuva também pode prejudicar a lavoura. Com menos luminosidade, a fotossíntese fica limitada; em solos encharcados, a falta de oxigênio afeta a respiração das raízes e a absorção de nutrientes. Tanto a escassez quanto o excesso de água fazem a planta direcionar recursos para responder ao estresse, em vez de sustentar seu desenvolvimento.
Solo e nutrição entram no manejo
Cury aponta a estrutura do solo como uma das bases para enfrentar variações no regime de chuvas. Um solo que favorece a infiltração e o armazenamento de água pode ampliar o acesso das raízes durante a estiagem. Em períodos de chuva intensa, a infiltração também ajuda a reduzir o escoamento superficial.
A disponibilidade de nutrientes é outro componente do planejamento. Além da quantidade aplicada, o manejo deve considerar se os nutrientes estarão acessíveis quando a planta precisar deles. A nutrição foliar, feita pela aplicação de nutrientes nas folhas, pode complementar esse trabalho e contribuir para a manutenção do metabolismo vegetal.
Entre as práticas e tecnologias que podem compor estratégias de manejo, o artigo cita cultivares adaptadas, plantio direto e, quando houver indicação técnica, microrganismos, indutores de resistência, extratos vegetais, condicionadores de solo e medidas para reduzir o estresse térmico. Essas alternativas não substituem práticas agronômicas fundamentais nem eliminam os riscos associados ao clima.
Estudos avaliam tecnologias complementares
Uma meta-análise global publicada em 2026 pela revista Frontiers in Plant Science revisou 198 artigos sobre o uso de extrato de algas em diferentes cultivos. O levantamento apontou incremento médio de 16,3% na produtividade. O artigo também cita estudos de Santos, de 2024, e Crivellaro, de 2024, segundo os quais o uso de extrato de algas em anos de estresse hídrico esteve associado a um aumento de 27% na produtividade.
Outra revisão, publicada em 2026 pela revista Plant Physiology and Biochemistry, analisou substâncias húmicas e sua relação com a resiliência a estresses abióticos, isto é, condições ambientais adversas. O trabalho, conforme Cury, destaca efeitos positivos na proteção das membranas das células, no transporte de íons, no equilíbrio redox — ligado a reações químicas celulares — e na fotossíntese.
A autora defende que a decisão sobre investimentos considere as condições de cada lavoura e a eficácia comprovada das tecnologias. Reduzir gastos pode parecer uma resposta à incerteza, mas retirar ferramentas de manejo também pode aumentar a vulnerabilidade da produção. Para Cury, a preparação envolve combinar práticas e soluções capazes de preservar o potencial produtivo diante de condições que o produtor não controla.