Café Brasileiro Bate Recorde: Saca Vende Por R$ 134 Mil em Leilão no Japão!


Um Marco Histórico para o Café Brasileiro

Luiz Paulo Dias Pereira Filho, um cafeicultor de Carmo de Minas, Minas Gerais, fez história no mercado internacional de cafés especiais. Na última sexta-feira (16), em um leilão realizado em Tóquio, um lote de 10 quilos da variedade geisha, cultivado na Fazenda Santuário Sul, foi vendido pela impressionante quantia de US$ 200 por libra-peso. Isso equivale a aproximadamente R$ 134.581,67 por saca de 60 quilos de café. Este valor é o mais alto já registrado para um café brasileiro nos leilões organizados pela Alliance for Coffee Excellence (ACE), que atua há 27 anos conectando produtores de cafés especiais a compradores ao redor do mundo.

Reconhecimento Mundial da Qualidade

Para Pereira Filho, esses números significam muito mais do que uma simples transação financeira. “O fato de conseguirmos vender a US$ 200 a libra demonstra que o trabalho do produtor é reconhecido globalmente e coloca o Brasil em uma posição de destaque na qualidade do setor de café especial”, disse ele durante o leilão realizado no Japão. O lance vencedor foi feito pela Snow Beans Coffee, uma empresa japonesa fundada pela executiva Nara Byun, que reuniu 12 produtores de seis países premiados pela ACE em competições internacionais.

Para se ter uma ideia do impacto desse leilão, o valor obtido por Pereira Filho superou o recorde anterior em 40%. Em 2018, um café que havia sido premiado no Cup of Excellence foi vendido a US$ 143 por libra-peso, o que se traduzia em R$ 96,2 mil por saca. O novo preço batido agora ultrapassa essa referência em US$ 57 por libra, embora os leilões de que fazem parte tenham características distintas.

Uma Venda com Propósito

Essa venda tem um componente especial. Os 10 quilos leiloados por Pereira Filho fazem parte de uma iniciativa beneficente, onde todos os produtores doaram seus cafés. De acordo com as diretrizes da ACE, toda a verba arrecadada será dividida igualmente entre projetos sociais nas comunidades produtoras e iniciativas internacionais voltadas à educação cafeeira. No caso do lote brasileiro, isso representa um valor de US$ 4.409,24, equivalentes a R$ 22,4 mil na conversão da época. Portanto, os R$ 134,6 mil se referem a uma equivalência por saca, e não ao total que a fazenda recebeu.

Da Mantiqueira para o Mundo

Carmo de Minas, aos pés da Serra da Mantiqueira, é um local onde a tradição da produção de café é passada de geração em geração. Nos últimos anos, essa região começou a adotar estratégias comerciais focadas na diferenciação por origem, variedade e qualidade sensorial. Pereira Filho não só produz e gerencia propriedades como o Sítio Senhor Niquinho e a Fazenda Santuário Sul, mas também é cofundador da CarmoCoffees, uma exportadora que conecta produtores locais a clientes internacionais.

Localizada a 1.300 metros de altitude, a Fazenda Santuário Sul se destaca pela produção da variedade geisha, que teve sua origem na Etiópia. Este tipo de café é valorizado por suas características sensoriais únicas, que variam conforme as condições de cultivo, maturação e métodos de processamento. O lote de Pereira Filho foi processado de forma natural, onde os frutos permaneceram inteiros durante a secagem, uma abordagem que exige um controle rigoroso para evitar fermentações não desejadas e garantir a preservação das qualidades do café.

Um Prêmio que Fala por Si

O histórico de Pereira Filho em competições é impressionante. Com 23 classificações entre os finalistas do Cup of Excellence, ele se destaca entre os produtores que mais participam das etapas finais do concurso. Essa trajetória lhe rendeu o título de Legend of Excellence em 2025, um reconhecimento para cafeicultores que se destacam em diferentes safras.

Na edição de 2026, o grupo de Legends foi expandido para 12 membros. Dele, seis receberam o reconhecimento neste ano, enquanto os outros já faziam parte da categoria. Brasil é representado por Pereira Filho e pela marca Café Orfeu, da Fazenda Sertãozinho, que apresentou um café da variedade arara, também processado pelo método natural.

Desvendando o Mundo dos Cafés Premiados

A disputa por cafés de origem certificada começou a se estruturar internacionalmente em 1999, quando o Brasil lançou o Cup of Excellence. Esse concurso revolucionou a forma de avaliação sensorial e comercialização de lotes premiados, criando um canal direto entre produtores e compradores dispostos a pagar por qualidade.

Desde então, o modelo foi adotado por outros países produtores, atraindo torrefadores e distribuidores interessados em cafés de safras específicas. Ao contrário do comércio convencional, onde grandes volumes são negociados por preços baseados em classificações, os lotes premiados circulam em quantidades limitadas, destacando a fazenda de origem e a qualidade das avaliações. Nesse nicho, os preços podem ser significativamente superiores às referências comuns do mercado.

Para compradores, essas aquisições não apenas oferecem um produto diferenciado, mas também a possibilidade de contar a história por trás daquela xícara de café — a propriedade, o produtor e a safra correspondente. Para os cafeicultores, os leilões servem como uma vitrine internacional, embora os valores obtidos por pequenos lotes não reflitam necessariamente os preços praticados em sua produção total. O valor registrado pela venda de Pereira Filho, por exemplo, não torna-se uma cotação acessível para outros cafés da região da Mantiqueira.

Rumo ao Futuro

No Brasil, a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) desempenha um papel vital na organização do Cup of Excellence e, em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), desenvolve o projeto Brazil. The Coffee Nation, que visa promover os cafés especiais brasileiros no exterior. “Quero parabenizar e agradecer à BSCA, que nos apoiou sempre, em especial neste evento e ao longo da trajetória do Cup of Excellence”, ressaltou Pereira Filho durante a World Specialty Coffee Conference and Exhibition, evento em que ocorreu o leilão.

A escolha de Tóquio como sede para esse pregão deu visibilidade aos cafés de 12 produtores, diante de representantes do mercado japonês, um dos maiores consumidores de café de origem reconhecida. Antes do leilão, sessões de degustação permitiram que os compradores experimentassem amostras dos lotes oferecidos, cada um consistindo de 10 quilos com um lance inicial de US$ 30 por libra-peso.

Com a arrematação feita pela Snow Beans Coffee, o lote da Fazenda Santuário Sul teve seu preço final registrado em 6,7 vezes superior ao lance de abertura, uma demonstração clara da apreciação por cafés de alta qualidade. A ACE destinará metade da receita obtida para projetos sociais nas comunidades produtoras e a outra metade para programas educacionais no setor cafeeiro. Os detalhes sobre os projetos beneficiados ainda serão divulgados.

A história do café brasileiro continua a surpreender e emocionar. A cada nova conquista, vemos o potencial desse produto tão especial se expandindo globalmente. Que histórias como a de Luiz Paulo nos inspirem a valorizar cada xícara e a reconhecer o trabalho árduo que acontece muito antes de o café chegar à nossa mesa.

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