Início Economia Café Conilon: A Cientista Brasileira que Leva Nossa Bebida ao Pódio Mundial!

Café Conilon: A Cientista Brasileira que Leva Nossa Bebida ao Pódio Mundial!

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Revolução no Mundo do Café: O Conilon em Destaque

No fascinante universo das bebidas, poucas conseguem transcender o simples prazer de consumo e estabelecer uma linguagem própria. O vinho, por exemplo, é conhecido por seus “mapas de aromas” que guiam mercados inteiros desde os anos 1980. O uísque escocês também criou uma identidade e valor por meio de suas notas sensoriais. A cerveja artesanal seguiu essa tendência, desenvolvendo vocabulários que sustentam categorias inteiras de produtos. Agora, é a vez do café conilon, também conhecido como robusta ou canéfora, se consolidar nesse cenário.

O Desafio do Conilon

De acordo com a nutricionista Maísa Mancini, especialista em Ciência de Alimentos, o conilon, por muito tempo, foi avaliado pelos mesmos critérios do arábica, levando a confusões. “A roda sensorial do arábica foi criada pela Associação de Café Especial (SCA), mas todas as referências são norte-americanas. Comparar canéfora com arábica é como comparar bananas e maçãs – são espécies totalmente diferentes!”

Essa comparação errônea não apenas prejudicou o reconhecimento do conilon, uma das principais culturas agrícolas do Brasil, como também distorceu a leitura de sua qualidade. Mas Maísa busca reverter essa situação por meio de uma inovadora roda sensorial dedicada exclusivamente ao café conilon. Ela não apenas organiza os aromas e sabores dessa bebida, mas também a posiciona em um novo patamar, destacando sua identidade e valor.

Um Novo Vocabulario para o Café

Rodas sensoriais são mais do que simples ferramentas; elas são estruturas que organizam a cadeia de valor do café. Criando um vocabulário comum, possibilitam que produtores, compradores e consumidores dialoguem sobre a qualidade, facilitando a precificação adequada do produto.

Até agora, o conilon funcionava sem essa ferramenta, o que gerou consequências diretas ao longo dos anos. Características típicas da espécie eram frequentemente vistas como falhas. “Notas fermentadas ou alcoólicas, indesejáveis no arábica, são bem-vindas no canéfora, resultado de fermentações controladas,” esclarece Maísa.

Nos últimos cinco anos, o cenário começou a mudar. Antes considerado de baixa qualidade, hoje o café conilon especial, oriundo de regiões como Espírito Santo e Rondônia, já se equipara ao arábica em termos de preço e refinamento.

Impacto no Mercado

Essa nova percepção está começando a se refletir na indústria e na dinâmica do mercado. Empresas como Nestlé e Grupo 3 Corações estão investindo em cafés especiais 100% conilon, reservados para um consumidor mais atento à qualidade e à origem do produto.

No exterior, o canéfora fino começa a ser reconhecido como um produto de origem única, não apenas um item complementar em blends com o arábica. Recentemente, os preços dos cafés conilon se aproximaram dos do arábica, mostrando que o que antes era um erro técnico, também pode ser descrito como um ruído econômico.

Crescimento Impressionante

O desempenho do conilon nos últimos anos é notável. Segundo dados do Ministério da Agricultura, o Valor Bruto da Produção (VBP) da cultura saltou de R$ 8,8 bilhões em 2011 para uma estimativa de R$ 23,51 bilhões em 2026, um crescimento impressionante de 244,7%. Nos picos mais recentes, em 2025, alcançou R$ 31,56 bilhões.

Enquanto isso, o café arábica cresceu 115,7% nesse mesmo período. A diferença de ritmo sugere uma transformação significativa na posição do conilon dentro da cadeia produtiva.

Análise de Mercado

Os preços do conilon também seguem essa tendência de valorização. De acordo com uma análise da Cepea, de 2020 a março de 2026, o preço da saca de 60 quilos aumentou de R$ 300 em 2020 para picos de R$ 2.102,12 em janeiro de 2025, atualmente tentando se manter acima de R$ 1.000.

Esse crescimento foi impulsionado por fatores internos e externos, incluindo uma quebra de safra no Vietnã e mudanças na relação entre produtor e torrefador. “Produtores vietnamitas começaram a reter café”, comenta Laleska Rossi Moda, analista de Inteligência de Mercado. “A demanda americana por robusta aumentou significativamente nos últimos anos.”

Um Novo Paradigma

Esse movimento no mercado não está isolado, mas sim ancorado em uma base técnica robusta. Em parceria com a neurocientista Fabiana Carvalho, Maísa desenvolveu uma base de dados internacional que abrange cafés de 13 países, incluindo importantes regiões produtoras. O resultado? Um novo padrão global de avaliação para o canéfora, publicado na revista Nature.

Notas como chocolate, castanhas e caramelo agora são valorizadas, ao lado de atributos como notas alcoólicas e especiarias. Esse novo vocabulário não só destaca as qualidades do conilon, mas também solidifica sua posição no mercado de cafés premium.

A Qualidade Nascendo do Campo

Entretanto, avaliando a qualidade, o manejo adequado na lavoura é crucial. A professora Camila Arcanjo, especialista em análise sensorial de café e docente do Instituto Federal do Espírito Santo, explica: “A qualidade é diretamente proporcional ao manejo da lavoura, colheita e pós-colheita.”

As decisões operacionais, como a temperatura de secagem e a segregação de lotes, são fundamentais. “Um controle inadequado do processo resulta em qualidade inferior na xícara”, reforça.

Do Desvio ao Atributo

A integração entre ciência e práticas de cultivo torna a roda sensorial essencial. Ao diferenciar o que é um defeito e o que é uma característica, ela estabelece uma linguagem que traduz qualidade em valor econômico.

Características que antes eram vistas como falhas, como notas fenólicas ou sabor muito adstringente, agora estão sendo reinterpretadas dentro de seu contexto. “A fumaça, por exemplo, associada a canéforas de baixa qualidade, pode resultar de uma secagem rápida em temperaturas altas, inadequadas para cafés finos. O mapa sensorial valida que certos atributos são características da espécie”, explica Maísa.

O Caminho para o Futuro

A pesquisa e a inovação promovidas por especialistas como Maísa Mancini estão não apenas revolucionando a forma como o conilon é percebido, mas também ajudando a construir um novo espaço no mercado global. Ao priorizar a identidade e a qualidade, o conilon deixa de ser apenas uma comparação com o arábica, tornando-se um protagonista na cena dos cafés especiais.

À medida que mais pessoas começam a explorar as nuances do conilon, a expectativa é que sua valorização continue a crescer. Afinal, um café bem cuidado, com características únicas, merece um lugar de destaque na mesa. Que tal experimentar essa nova tendência e descobrir tudo o que o café conilon tem a oferecer?

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