María Nilsa Garzón Díaz, produtora rural de Rosas, no departamento colombiano de Cauca, vendeu um lote de café por US$ 400 a libra-peso em leilão internacional realizado durante a feira Cafés de Colombia Expo 2026, em Bogotá. A venda estabeleceu um recorde no concurso Colombia Tierra de Diversidad e foi resultado de 12 anos de trabalho para aprimorar a qualidade dos grãos.
O café lavado da variedade Castillo foi comprado pela empresa Banexport Café 18. O lote veio do povoado rural de El Sauce, onde Garzón cultiva cerca de 7 mil pés em terras pertencentes à família há aproximadamente 120 anos. A libra-peso, unidade de medida usada na comercialização de café, equivale a cerca de 454 gramas.
Viagem ameaçada por ataque e incêndio
A participação da agricultora no evento esteve em risco por causa da violência na região. Em 12 de outubro, um carro-bomba explodiu no pedágio de El Bordo, no município de Patía, perto da casa de Garzón e ao longo da rodovia Pan-Americana. O ataque deixou três civis feridos e interrompeu o tráfego regional, dificultando o deslocamento até Bogotá.
“A meia hora de distância explodiu a bomba no pedágio, parecia impossível conseguir sair”, relatou Garzón. Ela decidiu seguir viagem para que Cauca fosse reconhecido pela produção agrícola, além de ser associado a episódios de violência armada. “Isso é muito positivo para Cauca, visto que o departamento e o Maciço colombiano são fontes de água e café”, afirmou.
Outro revés ocorreu cerca de 45 dias antes do leilão, quando um incêndio destruiu a residência na propriedade e as reservas de café armazenadas para venda nos meses seguintes. “O fogo consumiu toda a residência no sítio. A única reserva restante era esse café para conseguir seguir adiante”, disse a produtora.
Doze anos de aprimoramento
A variedade Castillo é amplamente cultivada na Colômbia por sua tolerância à ferrugem-do-cafeeiro. Diferentemente de variedades como geisha e bourbon rosado, frequentemente associadas a cafés de alto valor em leilões, o lote de Garzón alcançou preço recorde com uma variedade comum no país.
A agricultora atribui o resultado ao cuidado contínuo com a lavoura e a etapas como a colheita seletiva, o controle da fermentação e a secagem dos grãos. “Trata-se de um lote com notas frutadas, paladar suave e aroma destacado, conduzido sob rigoroso manejo técnico, fruto de trabalho ininterrupto executado por doze anos”, explicou.
Garzón acompanhava há anos os leilões internacionais, especialmente os realizados no Panamá, onde alguns cafés alcançam cotações elevadas. Ela queria que a Colômbia também atingisse um marco semelhante. “Sempre via com admiração as cotações alcançadas no Panamá e em outros mercados. Pensava na possibilidade de a Colômbia vivenciar esse marco e romper recordes de preços que eu tanto almejava”, afirmou.
Leilão reúne 25 lotes
O café de Garzón foi selecionado entre 1.048 lotes inscritos no Concurso Nacional de Qualidade Colombia Tierra de Diversidad, promovido pela Federação Nacional de Cafeicultores. Cinquenta e cinco amostras chegaram à etapa final, e 25 foram incluídas no leilão internacional, que reuniu investidores locais e compradores de outros países.
Os lances somaram US$ 685.539, com preço médio de US$ 68,109 por libra-peso. O lote de Rosas, vendido por US$ 400 a libra-peso, ficou muito acima dessa média. Os valores refletem a comercialização de lotes selecionados por critérios sensoriais rigorosos e não representam o preço recebido pelo agricultor por toda a safra.
Para a produtora, a receita de uma venda especial ajuda, mas não elimina os custos de manutenção da lavoura, compra de insumos e sustento da família até a próxima colheita. A renda também vem da moagem e torrefação artesanal, do artesanato e de outras atividades na propriedade, que produz bananas e frutas e mantém criação de aves.
Reconstrução e continuidade da atividade
Após o incêndio, Garzón decidiu reconstruir a casa no mesmo local. “Em meio aos escombros decidi erguer a cabeça, em razão da confiança no potencial deste café e naquilo que desenvolvemos na nossa localidade”, declarou.
A renda da atividade cafeeira ajudou a financiar a formação acadêmica dos herdeiros da agricultora. Um deles seguiu carreira no barismo, enquanto outros familiares passaram a participar da gestão dos negócios rurais. Garzón quer mostrar que o trabalho no campo pode oferecer retorno e perspectivas às novas gerações, sem que a mudança para os centros urbanos seja a única alternativa.
“Trabalho para despertar o apreço pela cafeicultura e pela vida no campo, transmitindo a ideia de que o cotidiano não se restringe às capitais e que a vida rural guarda perspectivas amplas”, disse. O recorde não resolve os desafios de custos e segurança enfrentados pelos produtores de Cauca, mas concretizou uma meta perseguida por mais de uma década.