Campanhas da esquerda promovem boicotes a empresas e jornais


A posição atual de setores da esquerda contra boicotes a eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva contrasta com campanhas anteriores de militantes e organizações progressistas contra empresas e veículos associados a Jair Bolsonaro ou a pautas conservadoras. As iniciativas mobilizaram consumidores e pressionaram anunciantes, com o objetivo de restringir receitas de empresas e meios de comunicação.

Marcas foram alvo de mobilização nas redes

Em março de 2020, uma campanha nas redes sociais incentivou consumidores a deixar de comprar de empresas cujos proprietários apoiavam o então presidente Jair Bolsonaro. Entre as marcas citadas estavam Havan, de Luciano Hang, e Riachuelo, de Flávio Rocha. A mobilização também incluiu as redes de restaurantes Madero e Coco Bambu e as academias Smart Fit e Bio Ritmo.

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) publicou uma reportagem sobre a repercussão do boicote nas redes. A iniciativa direcionava a pressão a empresários que defendiam pautas do governo Bolsonaro. Nesse tipo de campanha, a escolha de consumo passa a ser usada como instrumento político: consumidores são convocados a evitar determinadas marcas em razão das posições públicas de seus proprietários.

O episódio é apresentado como parte de uma sequência de ações semelhantes nos últimos anos. A estratégia não se limitou a empresas de varejo, restaurantes e academias. Também alcançou veículos de comunicação, por meio de cobranças públicas para que anunciantes retirassem publicidade.

Pressão sobre anunciantes atingiu veículos

O Sleeping Giants Brasil (SGB) atuou junto a empresas que anunciavam em meios de comunicação de linha editorial conservadora. Em 2020, o grupo direcionou a campanha à Gazeta do Povo e pediu publicamente que anunciantes deixassem de veicular publicidade no jornal. Segundo o relato, a saída de 13 anunciantes ocorreu em um curto período, após o veículo manter o colunista Rodrigo Constantino.

A mesma tática foi usada posteriormente contra a Jovem Pan e a plataforma X, anteriormente chamada Twitter. A pressão sobre os anunciantes buscava reduzir a receita publicitária dos alvos da campanha. Associações de rádio e televisão criticaram a prática e apontaram preocupação com seus efeitos sobre a liberdade econômica.

As campanhas contra marcas e a atuação junto a anunciantes têm mecanismos distintos, mas ambas usam decisões econômicas para manifestar oposição política. No primeiro caso, a mobilização se dirige ao consumidor; no segundo, a empresas que financiam veículos por meio de anúncios. O resultado relatado para a campanha contra a Gazeta do Povo foi a retirada de 13 anunciantes.

Documentos apontam repasses a grupo

Documentos citados no relato indicam que o Sleeping Giants Brasil recebeu cerca de R$ 2,4 milhões entre 2022 e 2023. Os recursos teriam sido repassados pela Ford Foundation e pela Open Society Foundations, instituição criada pelo bilionário George Soros.

As duas fundações são descritas no texto como financiadoras de projetos globais ligados a pautas progressistas, entre elas a descriminalização das drogas, a agenda LGBT e o acesso ao aborto. A origem dos recursos passou a integrar o debate sobre os objetivos políticos e a imparcialidade do grupo. A informação sobre o financiamento, por si só, não detalha como os valores foram distribuídos nem quais projetos específicos receberam os recursos.

Haddad defendeu consumo por posição política

Em 2023, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, manifestou apoio à escolha de produtos com base em convicções ideológicas. Ele afirmou que não compraria “nem mesmo um palito de fósforo” de uma empresa que não tivesse compromisso com questões pessoais e políticas que considerasse importantes.

Haddad também disse que parte dos consumidores brasileiros já adotava esse comportamento e deixava de comprar produtos de companhias que haviam se manifestado publicamente em favor do governo Bolsonaro. A declaração se soma aos episódios de boicote e pressão sobre anunciantes descritos no relato e evidencia a presença do consumo político no debate público.

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