O Novo Rumo da Cafeicultura: A Revolução do Café Conilon
O Despertar de uma Nova Geração
Fernando Puline, um jovem produtor de 30 anos, cresceu em meio a uma das mais emblemáticas tradições agrícolas do Brasil: as lavouras de café do interior de Minas Gerais. Ao decidir aplicar na propriedades familiar os conhecimentos adquiridos na faculdade de agronomia, ele e sua esposa, Luana Puline, de 26 anos, também engenheira agrônoma, enfrentaram um grande desafio: a resistência de gerações mais velhas, que costumam ser relutantes em aceitar novas abordagens.
“Convencer alguém mais experiente a adotar um novo método não é uma tarefa fácil,” admite Fernando.
Localizada em Aimorés (MG), a Fazenda Puline é composta por 110 hectares, dos quais 10 hectares são dedicados ao cultivo do café conilon. Historicamente considerado uma variedade de menor prestígio em relação ao arábica devido ao seu teor de cafeína e perfil de sabor menos sofisticado, o conilon está passando por uma reavaliação. A nova geração de produtores está determinada a mudar essa percepção, combinando práticas técnicas, manejo preciso e o uso crescente de tecnologia.
O Poder da Tecnologia e da Inovação
A transformação na Fazenda Puline está ocorrendo em etapas, com um compromisso constante de melhoria. O primeiro hectare plantado por Fernando, financiado pela família e por crédito rural, alcançou cerca de 38 sacas na primeira colheita. Esse resultado promissor, mesmo diante de desafios como as variações climáticas e pragas, indica que são possíveis colheitas de qualidade no cultivo do conilon.
“Estamos progredindo passo a passo,” resume Fernando, refletindo a resiliência que os jovens agricultores estão trazendo para o setor.
Esse movimento não se limita a uma única propriedade; representa uma mudança significativa na cafeicultura brasileira, com a participação ativa de jovens produtores que buscam elevar a qualidade do café conilon, que este ano pode gerar R$ 25,6 bilhões, conforme as estimativas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
A Indústria em Alerta: A Sucessão Familiar
A Nestlé, um dos principais compradores de café do mundo, reconhece a importância da renovação geracional no campo. Bárbara Velo, gerente de ESG & Coffee Expertise da empresa, destaca que a média de idade dos produtores parceiros está entre 50 e 60 anos, um dado que acende um alerta sobre o futuro da produção.
“O projeto surgiu de dois desafios: a sucessão familiar no campo e a falta de baristas qualificados nas cidades,” explica.
Esse contexto culminou no programa Fazedores de Café, criado em 2019 para capacitar jovens com idades entre 18 e 29 anos, promovendo conhecimento sobre qualidade, processamento, degustação e comercialização de café. As turmas, geralmente com cerca de 30 participantes, passam por uma imersão que aborda desde práticas agrícolas até análises sensoriais. O objetivo é abrir os olhos dos jovens para o potencial que podem explorar em suas próprias propriedades.
“Muitos não viam a agricultura como um negócio. Quando descobrem a qualidade do que produzem, começam a valorizar ainda mais seus produtos,” afirma Bárbara.
O Futuro na Fazenda Puline
A Fazenda Puline é um exemplo claro de que essa nova abordagem está dando frutos. Fernando e Luana planejam expandir sua área de cultivo, mecanizar parte da produção e até participar de concursos de qualidade. Com um olhar para o futuro, o casal também considera lançar uma marca própria.
“Podemos agregar valor ao que produzimos,” diz Fernando, enquanto Luana complementa: “Não nos vemos fora do café.”
O Valor do Café Conilon
A escolha do café conilon, também conhecido como robusta ou canéfora, não é à toa. Dentro do programa Nescafé Plan, cerca de 65% a 70% dos produtores são dedicados ao conilon, especialmente no Espírito Santo. Rodolfo Clímaco, gerente de agricultura da Nestlé, ressalta que essa variedade traz características agronômicas que a tornam cada vez mais relevante: “O conilon costuma ter produtividade 40% superior ao arábica e apresenta uma resistência maior às variações climáticas.”
Além disso, o conilon é uma parte fundamental na produção de café solúvel e blends industriais. No Brasil, a expectativa é de que a safra de 2026 consista em 66,2 milhões de sacas, com o conilon representando 22,1 milhões.
Uma Nova Mentalidade: Da Commodity ao Café Especial
Nos últimos anos, a mentalidade dos produtores tem evoluído. Cada vez mais jovens, como Thielen Brandão, uma produtora de 34 anos do Espírito Santo, estão fazendo a transição de uma produção convencional de café commodity para cafés de alta qualidade. Thielen e sua família, que cultivam 15 hectares de café conilon, perceberam o potencial de valor agregado em sua produção e decidiram investir na qualidade.
“O produtor que produz e também comercializa consegue agregar mais valor ao seu produto,” afirma Thielen, que está prestes a lançar sua própria marca de café, Grãos de Ana.
Ciência e Tecnologia no Campo
A formação técnica e científica é um fator que está chamando a atenção de muitos jovens. No Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), o professor Raphael Moreira coordena um mestrado voltado para resolver problemas práticos na cafeicultura. As áreas de pesquisa incluem mecanização, uso de drones, nutrição de plantas e manejo fitossanitário, sempre buscando elevar a qualidade do que se produz.
“Quando trabalhamos com jovens do meio rural, mostramos o potencial que existe em suas próprias propriedades,” destaca Raphael.
O Caminho à Frente
Com a crescente participação de jovens no campo, o futuro da cafeicultura brasileira parece promissor. A combinação de tecnologias modernas com práticas regenerativas e uma nova mentalidade em torno da qualidade do café conilon pode trazer tanto valor econômico quanto uma mudança cultural significativa.
Essas iniciativas mostram que a agricultura pode se reinventar, trazendo novas oportunidades e desafiando velhos paradigmas. A revolução do café conilon não se trata apenas de lucro, mas também de dignidade e orgulho, resgatando a identidade de uma tradição que é, antes de tudo, a alma do Brasil.
A pergunta que fica é: como você vê a evolução da cafeicultura em sua localidade? O que pode ser feito para apoiar o novo movimento que está se formando nas lavouras de café?


