A Conexão Inesperada entre Tecnologia e Petróleo: Como a IA Está Redefinindo o Setor
Enquanto as grandes empresas de tecnologia buscam fontes de energia sustentáveis para alimentar seus centros de dados, as companhias de petróleo descobriram um modelo de negócio inovador: elas não apenas utilizam inteligência artificial (IA) para otimizar a extração de combustíveis fósseis, mas também se tornam fornecedoras de energia para essas mesmas empresas. Essa abordagem pode, de forma preocupante, prolongar a dependência global do petróleo por várias décadas.
O Ciclo que se Refinou
A estratégia utilizada por essas empresas funciona em duas frentes complementares:
- Aumento de Eficiência: Implementar IA nas operações de extração, o que não só aumenta a produção, mas também reduz custos.
- Venda de Energia: Criar e estruturar infraestrutura que permita a venda direta de eletricidade gerada a partir de gás natural para os centros de dados.
Essa interação entre a eficiência na extração e a geração de energia engendra um ciclo virtuoso: quanto mais eficiente é a IA na extração, maior a produção de gás, o que, por sua vez, alimenta mais data centers.
Exemplos de Sucesso: A ADNOC na Vanguarda
Um dos casos mais emblemáticos é da Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (ADNOC), que já adotou mais de 30 ferramentas de IA. Entre 2022 e 2023, a empresa gerou cerca de US$ 500 milhões em valor e reduziu 1 milhão de toneladas de CO₂. O projeto AiPSO, lançado em novembro de 2025 em parceria com a SLB, já está em oito campos de petróleo, com planos de expansão para 25 até 2027. Esta transição de testes para operações operacionais é um marco significativo.
Além disso, a parceria da ADNOC com a Microsoft e a Masdar cria uma relação simbiótica, onde estão desenvolvendo soluções para data centers, incorporando energia renovável em seu fornecimento. Assim, a ADNOC não apenas fornece energia, mas também se posiciona como um ator importante na economia da IA.
As Gigantes Americanas Entram em Cena
Nos Estados Unidos, empresas como a Chevron estão construindo uma nova usina de gás natural com capacidade inicial de 2,5 GW no Texas, dedicada exclusivamente a um cliente de data center ainda não revelado. A diretora financeira da Chevron, Eimear Bonner, resume a estratégia: “Nós temos o gás”. A empresa possui grandes reservas na Bacia do Permiano e, devido a restrições de gasodutos, pode ser mais lucrativo vender energia diretamente do que descartá-la.
Além disso, projetos “atrás do medidor” permitirão que as usinas forneçam energia diretamente, sem passar pela rede elétrica convencional. Isso não só agiliza o licenciamento, mas também isola essas operações das futuras regulamentações que podem exigir normas mais rígidas de energia limpa.
A ExxonMobil, por sua vez, está dando passos similares, com planos para uma usina de 1,5 GW que não será voltada para suas operações. A empresa também anunciou uma meta de economizar US$ 15 bilhões até 2027 e já vê retornos significativos de suas iniciativas digitais.
Uma Revolução em Progresso: O Papel da Saudi Aramco
A Saudi Aramco está investindo em uma inteligência artificial robusta através do projeto Metabrain, que utiliza 90 anos de dados e visa expandir de 250 bilhões para 1 trilhão de parâmetros. A parceria com a Groq, que visa criar o maior data center de inferência do mundo na Arábia Saudita, destaca como a Aramco está se transformando de uma exportadora de petróleo em uma fornecedora de infraestrutura digital.
Como a Indústria Monetiza Desafios Ambientais
As empresas estão utilizando três estratégias principais que transformam questões ambientais em oportunidades de lucro:
Monetização de Gás “Inutilizado”: O gás que seria queimado em flares agora alimenta data centers localizados. Porém, isso pode incentivar uma produção de petróleo contínua que gera mais gás.
Geração “Atrás do Medidor”: Usinas dedicadas que fornecem energia diretamente para os data centers aceleram processos de licenciamento e evitam a burocracia das redes convencionais.
Integração de Captura de Carbono: A ExxonMobil, por exemplo, acredita que a descarbonização dos data centers pode representar 20% do mercado de captura de carbono até 2050, embora a tecnologia ainda precise ser amplamente adotada.
O Custo Ambiental em Alta
As emissões dos data centers, resultantes do uso de eletricidade, devem aumentar de 180 milhões de toneladas para entre 300 e 500 milhões até 2035. Enquanto isso, os combustíveis fósseis ainda atendem a 60% da demanda de energia desses centros. O cenário de zero emissões proposto pela Agência Internacional de Energia (AIE) almeja eliminar completamente a queima de combustíveis fósseis até 2030; ainda assim, vemos um investimento significativo em infraestrutura que pode estender a economia baseada em petróleo até a década de 2040.
Sinais de uma Coordenação Estratégica
Aqui estão cinco sinais que revelam a estratégia em andamento:
Convergência em 2027: As grandes empresas estão alinhando suas operações para 2027, indicando um fechamento da janela de oportunidade ante uma possível transição para energias renováveis.
Sigilo em Parcerias: O cliente da Chevron e a ambiguidade da Exxon sobre seus compromissos com IA sugerem acordos com megaempresas que preferem evitar associações com combustíveis fósseis.
Maturidade da IA: Enquanto os produtores da região do Golfo implantam IA em larga escala, as empresas ocidentais estão apenas avançando de projetos-piloto para a comercialização, assumindo o papel de fornecedores de energia.
Preempção Reguladora: A construção de infraestrutura fora da rede convencional pode assegurar a operação das plataformas de petróleo a longo prazo, criando uma situação consolidada antes que reguladores imponham padrões mais rígidos.
Paradoxo do Flaring: As empresas alegam que os data centers minimizam a queima de gás, mas a AIE defende que a solução é reduzir a produção de petróleo que gera esse gás.
A Importância Deste Debate
Essa estratégia não é uma mera coincidência: trata-se de uma transformação estrutural na qual a IA justifica a continuidade da exploração de combustíveis fósseis, em vez de acelerar uma transição energética necessária.
As grandes petrolíferas estão se adaptando, utilizando a IA para criar mercados que demandam uma extração constante. Com a infraestrutura sendo construída agora, é provável que continue operando por mais de três décadas. O que está em jogo é a longevidade das operações que dependem da demanda energética da IA, em contrapartida à urgência da descarbonização.
A indústria do petróleo se deu conta de que a crescente necessidade energética da IA pode ser sua salvação, podendo transformar problemas ambientais em novas oportunidades de lucro. Cada avanço em eficiência na extração gera mais capacidade para alimentar os data centers.
Essa dualidade pode representar um dilema: será que conseguiremos alcançar uma transição energética real antes que se consolidem compromissos de longo prazo que tornam a dependência de combustíveis fósseis irreversível?
Quer você concorde ou não, a interação entre tecnologia e petróleo é uma questão que merece atenção. E enquanto navegamos nessa intersecção, as decisões tomadas agora moldarão o futuro da energia e suas implicações para o nosso planeta.




