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Desafiando os Gigantes: Como um Investimento de US$ 1 Milhão Revolucionou o Vinho Artesanal ‘Naranjo’

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No competitivo universo dos negócios, os caminhos tradicionais têm se tornado cada vez mais escassos. As histórias de transformação frequentemente aparecem em locais inesperados. Um exemplo disso é a trajetória de Celina Bartolomé, uma comunicadora de 34 anos, natural de Venado Tuerto, Santa Fé, na Argentina. Ela expressa essa realidade ao afirmar: “Quando me perguntam qual é a minha profissão em formulários, fico em dúvida. Não sou uma única coisa, sou um pouco de tudo.” Essa flexibilidade deu origem à Pielihueso, um projeto vitivinícola que começou como um sonho em 2017 e, nove anos depois, tornou-se uma renomada empresa familiar no mercado de vinhos argentino, que passa por um período desafiador de queda no consumo.

Como Nascem as Ideias

A gênese da Pielihueso se inicia com a aposentadoria de Alejandro Bartolomé, pai de Celina e engenheiro agrônomo. Após dedicar sua vida ao cultivo de soja, trigo e milho na região, Alejandro decidiu realizar um sonho de longa data. Ao invés de adquirir um imóvel, optou por comprar 2,5 hectares em Mendoza, onde localiza-se a Casa de Uco.

“Em pouco tempo, nossa proposta evoluiu de uma ideia passiva para a criação de uma marca e uma pequena empresa,” destaca Celina.

Arq.PessoalVinhos premium de Celina custam cerca de R$ 1.500

Uma Trajetória Profissional Múltipla

Enquanto o espaço na terra se transformava, Celina trilhava um caminho profissional variado em Buenos Aires. Formada em Ciências da Comunicação pela UBA, ela atuou em produtoras de vídeo e agências de publicidade, até passar pela Globant. Contudo, sua verdadeira vocação foi se revelando.

Iniciou organizando eventos no terraço de uma loja da irmã, fomentando uma cena de vinhos que atraísse as novas gerações. Nesse período, conheceu Micaela Najmanovich e Nicolás Arcucci, que estavam abrindo o restaurante Anafe. Celina se tornou a primeira funcionária, dedicada ao salão e à curadoria dos vinhos. Após um tempo, decidiu se juntar ao projeto familiar e, em 2020, viajou ao Piemonte, na Itália, para se especializar na produção de vinhos.

Arq.PessoalUma amostra dos vinhos artesanais

Estrutura Familiar e Desempenho

A Pielihueso não é apenas uma vinícola, mas uma operação familiar bem estruturada. Alejandro supervisiona a parte produtiva enquanto Celina, que começou com a estratégia comercial, expandiu suas funções para incluir o design e o planejamento da vinificação, colaborando diretamente com a enóloga Paula La Torre.

A propriedade da Pielihueso se estende por 13 hectares em Los Sauces no Vale de Uco, com 10 hectares cultivados. Além disso, a vinícola possui 2 hectares em Chacayes. O investimento inicial de US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 5,5 milhões) possibilitou a aquisição da propriedade e a construção da vinícola, onde a produção é realizada.

Um Crescimento Sustentável

A primeira safra em 2017 produziu apenas 500 garrafas. Em 2020, esse número subiu para 20.000, atingindo um pico de 55.000 garrafas anuais em 2024. No entanto, a equipe decidiu congelar o crescimento produtivo, uma escolha estratégica diante da instabilidade econômica e das transformações no comportamento do consumidor.

  • “Nos anos de 2020 a 2022, produzíamos menos vinho do que a demanda. Optamos por manter esse volume, o que provou ser uma decisão acertada, já que o consumo caiu drasticamente nos últimos tempos,” explica Celina.
  • Como uma empresa familiar, a flexibilidade permite que se ajustem conforme a demanda, evitando excedentes indesejados.

No mercado, a Pielihueso se posiciona no segmento premium, com um preço médio de 40.000 pesos argentinos (cerca de R$ 1.500) por garrafa, sustentado por uma ética de produção diferenciada.

Em vez de rótulos como “vinho natural” ou “vinho boutique”, Celina opta por descrever sua produção como vitivinicultura artesanal. Isso implica o uso de uvas orgânicas, fermentação espontânea e mínima intervenção, sempre priorizando uma produção que reflete o local.

“Criamos vinhos feitos por pessoas que se importam. A ideia é desenvolver produtos que realmente representem o terroir,” conclui Celina.

Inovação e Criação de Novos Mercados

Um dos marcos significativos na trajetória comercial da Pielihueso foi o registro do vinho laranja sob a categoria “Naranjo” junto ao Instituto Nacional de Vitivinicultura (INV). Este passo inovador aconteceu quando Celina, após uma viagem aos EUA, soube do conceito dos vinhos laranja e decidiu incorporá-lo ao portfólio da vinícola.

Essa abordagem diferentenciada tornou-se um sucesso, já que o “Naranjo” se tornou o carro-chefe da marca, satisfazendo uma demanda crescente por vinhos alternativos e inovadores. Curiosamente, a produção de Pielihueso destoa do padrão nacional: enquanto a maioria das vinícolas foca em tintos, 80% da produção deles é composta de vinhos laranja, rosés e brancos.

  • Para atender a essa demanda, desenvolveram vinhos como Tinto de los Sauces e Claranjo, que combinam técnicas e variedades para criar opções leves e acessíveis.

Expansão e Diversificação

Nos primeiros anos, Celina liderava as vendas diretamente em Buenos Aires, estabelecendo conexões importantes. Com o tempo, a Pielihueso começou a operar através de distribuidoras, mantendo, porém, a essência de uma marca bem-construída.

Atualmente, 60% da produção é voltada ao mercado interno, enquanto 40% é exportada para países como Estados Unidos, Peru, Espanha, Japão e Canadá. O foco local é expandir a presença em cidades como Córdoba, Rosário e Mar del Plata, além de desenvolver parcerias estratégicas com distribuidoras locais.

Um novo projeto que se confirmou foi a abertura do restaurante La Amistad, localizado no coração da propriedade. Essa iniciativa, que exigiu um investimento significativo, visa não apenas a gastronomia, mas também a promoção do turismo enológico.

Arq.PessoalCelina com o pai, Alejandro

“O restaurante oferece experiências únicas, como degustações verticais e formatos não convencionais que atraem diferentes públicos,” conta Celina.

Desafios do Mercado e Futuro da Pielihueso

Enquanto o cenário global enfrenta uma redução significativa do consumo de álcool, Celina reflete sobre a resiliência da marca e a importância de se adaptar.

“Em tempos de crise, só sobrevivem aqueles que se adaptam e gerenciam suas operações com eficácia,” enfatiza. A Pielihueso não é apenas uma vinícola, mas um projeto pensado para criar uma conexão real com seus consumidores.

Essa relação vai além do produto em si, abrangendo a personalidade da marca e a experiência que ela proporciona.

“O vinho pode ser simples, divertido e bonito. Desde o início, escolhemos falar sobre mais do que vinho; queríamos criar uma identidade que ressoasse com nosso público,” finaliza Celina.

Com isso, a Pielihueso se destaca no cenário vitivinícola argentino, mostrando que inovação, identidade e adaptação são as chaves para o sucesso. O futuro parece promissor para essa marca que continua a evoluir e encantar novos consumidores.

Publicada originalmente em Forbes Argentina


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