A Jornada à Longyearbyen: Um Encontro com o Futuro da Agricultura
Você já imaginou como é chegar ao lugar mais ao norte do mundo com habitantes permanentes? Para quem visita Longyearbyen, na Noruega, essa aventura envolve uma escala em Oslo e mais uma hora e quarenta minutos sobre o gelado Oceano Ártico. A temperatura média no verão mal ultrapassa 6 graus Celsius, mas para Silvia Massruhá, presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a viagem do Brasil tropical até este remoto arquipélago valeu cada hora.
Na quarta-feira (10), Silvia fez a entrega pessoal da sexta remessa de sementes brasileiras ao Svalbard Global Seed Vault, o banco de sementes mais significativo do mundo. Localizado a 120 metros abaixo da superfície gélida de uma montanha, o cofre é um verdadeiro tesouro da biodiversidade agrícola, projetado para resistir a adversidades climáticas e geológicas.
Um Legado de Diversidade: O Que Existe Dentro do Cofre
Com essa nova remessa, o acervo brasileiro no cofre atinge impressionantes 8.149 amostras. Entre os novos acessos, estão sementes de:
- Caju: 2 amostras
- Fava: 7 amostras
- Amendoim: 4 amostras
- Mamona: 3 amostras
- Gergelim: 8 amostras
Essas sementes se juntam a outras variedades importantes que já estão armazenadas, como arroz, feijão, milho, trigo, e espécies tradicionais cultivadas por agricultores familiares do Rio Grande do Sul. Cada caixa, lacrada e mantida a -18 graus Celsius, contém cerca de 500 sementes hermeticamente embaladas. O diferencial? A Embrapa é a única instituição com permissão para resgatar suas próprias amostras em caso de necessidade.
A Importância de Preservar a Biodiversidade
Silvia Massruhá destacou em suas redes sociais que essa iniciativa é uma salvaguarda crítica da biodiversidade agrícola mundial. Durante sua missão em Svalbard, ela se reuniu com a Vice-Governadora para discutir temas como cooperação internacional e o papel fundamental da ciência nas mudanças climáticas. “O futuro da agricultura se constrói com preservação, pesquisa e colaboração global”, escreveu ela.
O Svalbard Global Seed Vault: Um Cofre do Futuro
A ideia de um cofre global de sementes não é recente. Em 1984, já existia um armazém de sementes nórdicas na Mina 3 de Svalbard. No entanto, o passo para a construção do cofre internacional começou nos anos 2000, liderado por um grupo de pesquisadores, incluindo Cary Fowler. Eles identificaram Spitsbergen, a maior ilha do arquipélago, como um local ideal devido à sua estabilidade geológica e solo permanentemente congelado.
Inaugurado em fevereiro de 2008, o Svalbard Global Seed Vault, administrado em conjunto pelo Ministério da Agricultura e Alimentação da Noruega e pelo Crop Trust, começou com 278 mil amostras de arroz e trigo. Em menos de um ano, esse número já havia pulado para quase 424 mil, com contribuições de 219 países. Graças a essa organização, o cofre foi considerado pela revista Time como uma das melhores invenções de 2008.
O Crescimento e a Importância do Cofre
Desde então, o número de amostras continua a crescer. O 69º depósito, realizado em fevereiro de 2026, atingiu 1.386.102 amostras, provenientes de mais de cinco mil espécies. Este último envio incluiu sementes de azeitonas, uma novidade trazida por um projeto europeu de conservação.
A robustez estrutural do cofre é impressionante: ele possui três câmaras escavadas a 120 metros na montanha Platåberget, cada uma com capacidade para 1,5 milhão de amostras. O total pode chegar a 2,5 bilhões de sementes! Projetado para suportar terremotos de até 10 na escala Richter, o cofre permanece inabalável, nunca tendo perdido o acesso.
Por Que Guardar Sementes Em Um Lugar Remoto?
Mas você pode se perguntar: por que armazenar sementes no fim do mundo? O fato é que muitos bancos de germoplasma podem ser afetados por coisas simples como falta de recursos, guerras, inundações ou incêndios. O Svalbard Global Seed Vault serve como um seguro para a biodiversidade agrícola mundial.
Um exemplo claro dessa necessidade ocorreu em 2015, quando o International Center for Agricultural Research in the Dry Areas (ICARDA) teve que retirar suas sementes do cofre, após a destruição de suas instalações na Síria. Esse foi o primeiro saque da história do cofre, e mostra como o lugar é vital em tempos de crise.
O Brasil e o Cofre: Uma Parceria de Longa Data
O Brasil começou a sua jornada no Svalbard em 2012, enviando sementes de arroz e milho. Nas remessas seguintes, foram adicionadas variedades de feijão, trigo e até mesmo 2.701 amostras de arroz e feijão, com a colaboração da Associação dos Guardiões de Ibarama. Essa foi a primeira vez que uma associação de agricultores familiares brasileiros enfocou exclusivamente a multiplicação de sementes para um depósito de segurança.
Essas contribuições reforçam a importância econômica e histórica das culturas cultivadas no Nordeste e no Cerrado brasileiro. O gergelim, por exemplo, é uma cultura ancestral trazida ao Brasil no século 16 africanos escravizados, enquanto a mamona é essencial para a produção de biodiesel.
Cooperando para um Futuro Sustentável
A recente entrega de sementes, que começou na segunda-feira (8) e se estendeu até quinta-feira (11), faz parte de uma missão mais ampla à Noruega. Durante a visita, a Embrapa assinou uma Carta de Intenções com o Instituto Norueguês de Pesquisa em Bioeconomia (NIBio). Esse acordo abre portas para novas colaborações em áreas como produção sustentável de alimentos e conservação dos recursos naturais.
Além disso, a comitiva visitou o Instituto Norueguês de Pesquisa em Alimentos (Nofima) e a Universidade Norueguesa de Ciências da Vida, em Ås, para estreitar laços e compartilhar conhecimentos.
Uma Reflexão Final
A journey até o Svalbard Global Seed Vault não é apenas sobre sementes; é uma missão de preservação e um compromisso com a sustentabilidade global. O trabalho da Embrapa e de outras instituições ao redor do mundo é fundamental para garantir que as futuras gerações tenham acesso à biodiversidade que precisa ser protegida.
Portanto, ao refletirmos sobre a importância desse cofre e a colaboração internacional necessária para garantir a segurança alimentar, somos levados a pensar sobre o nosso papel nesse esforço. Como cidadãos do mundo, o que podemos fazer para contribuir com a preservação da biodiversidade? E por que não começar a discutir essas questões com nossos amigos e familiares? O futuro da agricultura pode depender da nossa ação hoje.
Esse é um convite para que cada um de nós comece a agir localmente, em prol de um futuro mais sustentável e inclusivo, não apenas para nós, mas para todas as gerações que virão.
