A Preservação do Raro Agave e a Exportação de Mezcal: O Legado da Amarás

O mezcal, talvez o destilado mais conectado ao seu terroir, reflete as particularidades das diversas espécies de agave, a influência de microclimas distintos e seu profundo arraigo na cultura mexicana. Nos últimos 20 anos, o mezcal conquistou uma legião de fervorosos admiradores. Embora sua presença ainda seja modesta quando comparada à da tequila, sua popularidade cresce de maneira constante.
Um Mercado em Expansão
Recentemente, a Fortune Business Insights estimou que o mercado global de mezcal atingiu a impressionante cifra de US$ 1,121 bilhão (aproximadamente R$ 5,960 bilhões) em 2024, prevendo um crescimento anual de cerca de 10% na próxima década. Um crescimento promissor, sem dúvida, mas que não vem sem desafios que começam a se tornar preocupantes.
O que torna o mezcal tão especial — sua autenticidade e a escassez do ingrediente principal — está agora ameaçado. O ciclo de crescimento do agave pode levar anos, deixando agricultores vulneráveis a flutuações drásticas de preços e a uma demanda imprevisível.
Os Desafios da Produção
O México abriga nove estados produtores de mezcal, onde várias espécies raras de agave, vitais para a biodiversidade regional, enfrentam risco de extinção. Problemas como coleta de plantas silvestres, diminuição da floração e a redução de morcegos polinizadores comprometem a regeneração natural dessas plantas, deixando-as ainda mais expostas.
Em Oaxaca, que responde por 85% da produção de mezcal, a indústria está sob crescente escrutínio. A expansão do cultivo de agave é apontada como responsável por mais de 60% da recente perda de áreas florestais, com quase 35.000 hectares desaparecidos em três décadas, à medida que ecossistemas diversificados são suprimidos em prol da monocultura.
A Visão de Luis Niño de Rivera
Luis Niño de Rivera, cofundador da Mezcal Amarás, acredita que a sustentabilidade é uma questão essencial. Para ele, a indústria precisa encarar os desafios econômicos de frente, especialmente diante de um cenário onde os preços do agave estão historicamente baixos. A natureza volátil do mercado impede que a oferta acompanhe a demanda, resultando em ciclos de altos e baixos que frequentemente afetam a renda dos produtores e a saúde do solo.
Se os agricultores não puderem contar com uma renda estável, será inviável cultivar variedades de agaves mais lentas ou silvestres, acelerando, assim, a perda de biodiversidade.
O Compromisso da Amarás
A Amarás, fundada em 2010, adota uma abordagem focada em três pilares: comunidade, terroir e respeito à terra. Rivera enfatiza que a empresa está comprometida em gerar prosperidade através da reinvestimento contínuo. Com um modelo que prioriza a biodiversidade, a Amarás já plantou 1,75 milhão de agaves em 700 hectares, introduzindo mais de dezesseis espécies diferentes em Oaxaca, Guerrero e Durango.
Além disso, a Amarás se destaca como a primeira empresa de mezcal a ser neutra em carbono, compensando suas emissões desde 2018. Através de parcerias com o World Wildlife Fund, a empresa investe em projetos de conservação de florestas e gestão de água, exemplificando como um modelo de negócios responsável pode prosperar.
Práticas Sustentáveis e a Coletividade
A Amarás utiliza exclusivamente tratamentos biológicos para o cultivo do agave, evitando pesticidas químicos. Essa abordagem pode resultar em um crescimento mais lento das plantas, mas os agaves cultivados dessa forma tendem a produzir destilados com maior complexidade aromática.
Enquanto o mezcal conquista o paladar global, uma série de pressões sociais emerge. Renda instável para os agricultores, distribuição desigual de lucros e o risco de perder conhecimento tradicional são apenas alguns dos desafios enfrentados.
A Amarás busca mitigar essas questões através de suporte técnico e compartilhamento de conhecimento. A empresa realiza eventos anuais para mestres mezcaleros, proporcionando pesquisa e treinamento em busca de inovações na produção. Um exemplo é a colaboração com comunidades que melhoraram seus métodos de fermentação através do uso de leveduras naturais.
Evitando os Erros do Passado
A realidade da indústria de tequila serve como alerta: muitas espécies de agave que antes floresciam em Jalisco praticamente desapareceram devido à monocultura e práticas insustentáveis. É vital que o mezcal não siga o mesmo caminho, pois o conceito de “comunidade” não pode ser apenas um slogan, mas sim uma prática concreta e mensurável.
O comércio de mezcal é predominantemente voltado para a exportação, com três quartos da produção destinados aos Estados Unidos. O conhecimento sobre a bebida fora do México evoluiu, e há uma crescente popularidade de bares especializados em mezcal ao redor do mundo. Contudo, a demanda desenfreada pode minar os fundamentos culturais e ecológicos que tornam o mezcal único.
Um Futuro Promissor
A Amarás demonstra que é possível construir um negócio de mezcal de forma sustentável, respeitando as tradições e o meio ambiente. O lema de devolver mais do que se retira é um princípio que orienta suas práticas. O futuro do mezcal depende de um compromisso autêntico com a biodiversidade e a comunidade.
Se você se sente inspirado por esta abordagem, considere como cada escolha de consumo pode impactar o futuro do mezcal. Vamos celebrar o legado do mezcal e a dedicação de empresas como a Amarás que trabalham para preservar não apenas uma bebida, mas também um modo de vida e um rico ecossistema.
O poder do mezcal vai além de seu sabor inconfundível; ele é um reflexo da cultura e da natureza que o envolvem. Ao entender a complexidade e os desafios que essa indústria enfrenta, você se torna parte de uma história maior. Aproveite cada gole com a certeza de que, quando consumimos com consciência, ajudamos a manter viva a herança do agave e da cultura mexicana.


