O Defeso da Lagosta: Preservação ou Perda de Oportunidades?
A partir deste domingo, 1º de fevereiro, os amantes da gastronomia enfrentarão uma pausa: a lagosta saiu do cardápio dos restaurantes, e isso permanecerá assim pelos próximos três meses. Essa paralisação acontece devido ao segundo período de defeso do crustáceo, uma medida vital para a preservação da vida marinha.
O Que é o Defeso da Lagosta?
O defeso, em termos simples, é um tempo em que a captura de lagostas é proibida. Essa estratégia visa garantir que as populações do crustáceo se reproduzam e se mantenham saudáveis. Angélica Valente, médica veterinária da Frescatto, alerta: “Qualquer captura neste período compromete seriamente o estoque futuro”.
Esse defeso ocorre de novembro a abril, dividido em dois ciclos: o primeiro, de novembro a janeiro, abrange o auge da reprodução, e o segundo, que começa em fevereiro, serve como uma margem de segurança para garantir que a desova ocorra de maneira eficaz. Durante esse intervalo, estão suspensas a captura e a comercialização, exceto para os estoques previamente registrados.
Por Que a Lagosta é Tão Valiosa?
Na alta gastronomia, a lagosta é um dos crustáceos mais nobres. Em restaurantes sofisticados, pratos à la carte em São Paulo e Rio de Janeiro podem custar entre R$ 200 e R$ 450, enquanto experiências gastronômicas em restaurantes estrelados podem ultrapassar R$ 1.000 por pessoa. Para quem faz a compra em casa, o preço da lagosta inteira varia de R$ 150 a R$ 220 o quilo, enquanto a cauda, devido ao seu teor de carne, pode alcançar entre R$ 280 e R$ 400 o quilo.
Resumo dos Preços:
- Restaurantes: R$ 200 a R$ 450
- Menus degustação: > R$ 1.000
- Lagosta inteira: R$ 150 a R$ 220/kg
- Cauda: R$ 280 a R$ 400/kg
Um Panorama da Produção de Lagosta
O Brasil tem experimentado uma produção de lagosta entre 4.000 e 6.000 toneladas anuais, representando uma posição significativa no mercado de lagostas tropicais (espécies vermelha e verde). No auge da produção, nas décadas de 1990 e 2000, o país chegou a capturar mais de 8.000 toneladas. Porém, a diminuição dos estoques levou à implementação de controles rigorosos.
O Papel da Fiscalização
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) estabelece as regras para o defeso, respaldado por pesquisas científicas. Segundo Angélica Valente, “a lagosta é uma das espécies mais monitoradas no Brasil”. O controle envolve:
- Tamanho mínimo legal de 13 cm de cauda.
- Proteção para fêmeas ovadas, independentemente do tamanho.
- Registro de captura e transporte em empresas licenciadas.
As empresas precisam manter um registro minucioso, e o Ibama verifica as notas fiscais e os estoques para garantir que tudo esteja conforme as normas estabelecidas.
Desafios e Oportunidades
Embora a fiscalização seja robusta na maioria das empresas, o mercado informal ainda representa um desafio significativo. Muitas comunidades costeiras ainda praticam a captura ilegal, o que pode prejudicar seriamente os esforços de conservação. “Falta orientação e presença do Estado”, diz Angélica, ressaltando o risco de a situação semelhante ao que ocorreu com a sardinha, que desapareceu em várias regiões devido à sobrepesca.
O Impacto Ambiental e Social
O defeso tem se mostrado uma ferramenta essencial para estabilizar as populações de lagosta. Dados do Ibama indicam que, embora os estoques estejam mais estáveis, eles ainda não atingiram níveis ideais. A continuidade da proibição é crucial para a saúde das populações de crustáceos no futuro.
Contudo, o defeso possui implicações sociais complexas. Ao mesmo tempo que protege os ecossistemas, ele reduz a renda imediata dos pescadores artesanais. Para amenizar esses impactos, programas de seguro-defeso tentam compensar as perdas financeiras, embora frequentemente enfrentem limitações operacionais e financeiras.
O Mercado Internacional de Lagosta
Em termos de exportação, a lagosta brasileira ocupa uma posição de prestígio. Em 2025, o Brasil enviou para o exterior 3,3 mil toneladas, resultando em US$ 82,6 milhões em receitas, uma leve diminuição em relação a 2024, quando foram exportadas 3,6 mil toneladas por US$ 92,8 milhões. Os principais destinos incluem Estados Unidos e China, que demandam volumes significativos anualmente.
Competição Global
O mercado global de lagosta é robusto, movimentando cerca de 300 mil toneladas por ano. O Canadá lidera a produção mundial, seguido pelos EUA, Indonésia e Austrália. Esse aumento demanda atenção adicional na regulação e fiscalização para prevenir irregularidades, especialmente durante o defeso.
Fatos sobre os principais países produtores de lagosta:
- Canadá: 100.000 toneladas, 97% de pesca sustentável.
- EUA: 50.000 toneladas.
- Indonésia: Avanço em aquicultura, cerca de 20.000 toneladas.
- Austrália: 10.000 toneladas.
O Que o Consumidor Pode Fazer?
Para os consumidores, o melhor conselho é estar atento: qualquer lagosta fresca oferecida durante o defeso pode indicar irregularidade. Produtos legais só poderão ser oferecidos se vierem de estoques comprovadamente declarados.
Dicas para consumidores:
- Pergunte sobre a origem da lagosta em restaurantes.
- Verifique se o produto possui nota fiscal e selo de inspeção federal.
- Lembre-se: informar-se sobre a origem é um direito do consumidor!
O defeso é uma medida essencial, mas seu impacto deve ser equilibrado com a necessidade de garantir a subsistência dos pescadores. Enquanto é fundamental preservar os recursos naturais, também é crucial promover um diálogo aberto e construtivo sobre como manter a saúde dos estoques de lagosta, garantindo um futuro próspero para todos os envolvidos.
Portanto, da próxima vez que pensar em saborear uma deliciosa lagosta, lembre-se da importância do defeso. Ele não é apenas uma pausa para o seu prato favorito, mas uma estratégia vital para preservar este crustáceo precioso e garantir que as futuras gerações possam desfrutar dele. Afinal, conservar o meio ambiente é uma responsabilidade de todos, e você, consumidor consciente, desempenha um papel fundamental nessa missão!




