A combinação de dívida pública em alta, juros elevados e endividamento de famílias e empresas aumenta o risco de uma crise de crédito no quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Economistas apontam que, sem medidas para conter os gastos e recuperar a confiança dos investidores, bancos podem restringir empréstimos e tornar mais difícil a renovação de dívidas.
O aperto teria efeitos sobre consumidores e negócios: financiamentos de imóveis e veículos poderiam ficar mais caros, enquanto empresas teriam menos recursos para manter operações e investir. O quadro já inclui forte comprometimento da renda familiar e dificuldades de acesso a crédito pelas companhias.
Endividamento pressiona famílias e empresas
Dados do Banco Central (BC) mostram que, em agosto, metade da renda anual das famílias estava comprometida com dívidas bancárias. Quase um terço dos rendimentos era destinado ao pagamento de parcelas e juros, o que reduz a margem disponível para outras despesas e para novas operações de crédito.
Para o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, a reeleição representa a continuidade de uma política que, nos últimos quatro anos, elevou a dívida pública, o déficit fiscal e o endividamento das famílias e do governo. Na avaliação dele, esse desequilíbrio pode levar os bancos a selecionar com mais rigor quem recebe empréstimos, sobretudo se os juros continuarem altos.
As empresas também enfrentam custos financeiros elevados e uma economia em desaceleração. A dificuldade para obter crédito contribuiu para recordes de pedidos de recuperação judicial e falências. A Allianz Trade, empresa de seguro de crédito, projeta que as insolvências de companhias brasileiras devem crescer até 2027. “As empresas estão enforcadas nas suas respectivas dívidas”, afirma Camargo.
Mercado cobra compromisso com as contas públicas
Depois do resultado eleitoral, investidores passaram a cobrar medidas para recuperar a confiança. Entre as demandas estão um ajuste fiscal imediato, autonomia para a equipe econômica conduzir as contas públicas e um acordo de governabilidade com o Congresso Nacional, descrito na notícia como de perfil conservador.
No primeiro pregão após a eleição, na segunda-feira (26), a Bolsa brasileira acionou o circuit breaker pela primeira vez em seis anos. O mecanismo interrompe temporariamente as negociações durante quedas acentuadas. Na mesma sessão, o dólar comercial chegou a R$ 5,60 e os juros futuros para janeiro de 2029 atingiram 15,25% ao ano.
“Desta vez, Lula vai ter que contratar credibilidade”, afirma Roberto Motta, estrategista macro da Genial Investimentos. Segundo ele, o presidente não terá a mesma tolerância que recebeu no início do mandato anterior, em 2022.
A Genial projeta que, sem ajuste fiscal, o Ibovespa pode cair cerca de 20% até o fim de 2026. Já a Oby Capital estima que o dólar chegue a R$ 5,85 em 2027 e a R$ 6,85 até 2030. As projeções estão associadas a um cenário sem uma âncora fiscal considerada confiável.
Escolha da equipe econômica será observada
Analistas apontam a formação da equipe econômica como um dos primeiros testes do novo governo. Thomas Haugaard, gerente de portfólio da Janus Henderson, diz que investidores observarão se os nomes escolhidos são respeitados pelo mercado, se o ministro da Fazenda terá autonomia política e se haverá um plano de ajuste focado no controle de gastos e apoiado pelo Legislativo.
Entre os nomes cotados para o núcleo econômico estão o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT). Outra possibilidade mencionada é a permanência de Dario Durigan no comando do Ministério da Fazenda.
Dívida e despesas obrigatórias limitam ajuste
A dívida pública bruta chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), indicador que mede o tamanho da economia, em agosto de 2026. A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado estima que ela alcance 86,4% do PIB no fim de 2027. Sem mudanças na política fiscal, a dívida pode superar 100% do PIB até 2030.
Mais de 90% das despesas da União são obrigatórias, o que restringe a capacidade do governo de reduzir gastos. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) enviado ao Congresso prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões em 2027, equivalente a 0,13% do PIB. A IFI calcula, em vez disso, déficit de R$ 86,1 bilhões, ou 0,7% do PIB. A diferença de R$ 104,7 bilhões decorre principalmente de premissas mais conservadoras para a arrecadação.
O novo governo também terá de lidar com compromissos de campanha estimados entre R$ 70 bilhões e R$ 90 bilhões em novos gastos e desonerações. Para estabilizar a dívida, cálculos de analistas indicam a necessidade de superávits primários — saldo das contas públicas antes do pagamento de juros — entre 1% e 2,5% do PIB. Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria, afirma que, com juros reais de 5%, seria necessário um superávit de 2,5% do PIB.
Cássio Viana de Jesus, diretor de investimentos da Pilar Capital, afirma que, sem um compromisso convincente com a sustentabilidade fiscal, investidores podem exigir prêmios de risco maiores. Isso pressionaria os juros e encareceria o financiamento. Entre as medidas defendidas por analistas estão mudanças na regra de reajuste do salário mínimo, que vincula o aumento real ao crescimento da economia. Cada R$ 1 de aumento gera R$ 413,2 milhões em despesas. Também são citadas limitações às emendas parlamentares impositivas e mudanças nos pisos constitucionais de saúde e educação, que, em conjunto, poderiam economizar de R$ 40 bilhões a R$ 53,6 bilhões até 2030. Durante a campanha, Lula se posicionou contra alterações na regra do salário mínimo e nos pisos sociais.