A Diplomacia da Índia: Novos Caminhos em Tempos de Mudança
O último ano tem sido desafiador para a Índia no cenário diplomático global. Após décadas de aproximação com os Estados Unidos, a estratégia de Nova Déli foi abalada pelas políticas da administração Trump, que impôs altas tarifas ao país. Inicialmente, muitos na Índia acreditavam que os EUA priorizariam sua parceria como parte de uma estratégia mais ampla para competir com a China. No entanto, essa expectativa se mostrava infundada. Embora a Índia tenha recentemente assinado um novo acordo comercial com os americanos, agora busca diversificar suas parcerias e reduzir a dependência de Washington.
Reforçando Laços com a Europa
O acordo comercial assinado em janeiro com a União Europeia marca uma mudança significativa na estratégia geoeconômica da Índia. O que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chamou de “mãe de todos os acordos” promete ganhos de exportação de cerca de 30 bilhões de euros para ambos os lados. Além do acordo comercial, foram firmados novos pactos de defesa e várias outras colaborações. Parcerias bilaterais, como as firmadas com a UE, Austrália, Emirados Árabes Unidos, entre outros, têm o potencial de fortalecer a economia indiana e diminuir a dependência de uma única potência.
Contudo, a Índia enfrenta desafios profundos. O mercado interno ainda luta para proporcionar empregos adequados para sua juventude, e o país não atrai um número suficiente de fabricantes de classe mundial. Para escapar da armadilha da renda média — um período prolongado de transição econômica que aflige muitos países em desenvolvimento — e competir de igual para igual com a China, a Índia precisa reformular sua orientação econômica, tanto em âmbito regional quanto global. Uma alternativa essencial seria a adesão ao Acordo Abrangente e Progressivo de Parceria Transpacífico (CPTPP).
O CPTPP: Uma Oportunidade de Transformação
Lançado em 2018, o CPTPP surgiu após a retirada dos EUA de um acordo anterior que visava criar uma área de comércio de alta qualidade no Pacífico. Este pacto elimina ou reduz tarifas sobre uma vasta gama de produtos e serviços, além de impor padrões comuns em áreas como direitos trabalhistas e propriedade intelectual. A experiência mostra que tais padrões podem impulsionar reformas estruturais reais nas economias dos países membros.
Atualmente, o CPTPP conta com 12 países que representam cerca de 15% da economia global, incluindo Austrália, Canadá, Japão e Vietnã. O interesse de novos membros, como Camboja e Coreia do Sul, demonstra a relevância do bloco. No entanto, tanto a China quanto Taiwan formalmente solicitaram adesão em 2021, mas a probabilidade de uma entrada efetiva é baixa, devido às objeções de membros ocidentais.
Desafios para a Índia
A adesão da Índia ao CPTPP enfrenta obstáculos significativos. As exigências rigorosas do acordo necessitam de mudanças profundas na economia indiana. Nova Déli deve estar ciente de que seu tamanho não lhe permitirá redigir as regras. Isso significa comprometer-se a mercados quase totalmente abertos, reduzir tarifas agrícolas e aceitar períodos de transição de cerca de dez anos, após os quais a Índia teria que implementar as normas do bloco.
Por outro lado, os benefícios de se juntar ao CPTPP são notáveis. As economias do bloco ganharão acesso preferencial a um mercado indiano potencialmente extenso, e a Índia poderá acelerar sua integração nas cadeias de suprimentos regionais, especialmente em setores como eletrônicos e manufatura precisa, que atualmente são dominados pela China. A entrada no CPTPP também ajudaria a aumentar as exportações indianas, colmatando a falta de acordos preferenciais que beneficiem os exportadores do país.
Navegando em um Cenário Geopolítico Desafiador
A Índia enfrenta condições muito distintas das que a China encontrou durante sua ascensão nas últimas três décadas. Enquanto a China cresceu em um período de hegemonia americana e hiper-globalização, Nova Déli agora deve navegar por um ambiente mais hostil e competitivo. Os Estados Unidos mudaram seu foco de apoio a uma postura de competição estratégica, dificultando o caminho para a Índia no cenário econômico global.
Além disso, a China continua sendo o principal desafio geopolítico da Índia, especialmente ao longo de sua fronteira himalaíca. Esse contexto de tensão exige investimento militar significativo, que, por sua vez, precisa de um crescimento econômico robusto para sustentar o aumento do poder nacional. Recentemente, a Índia registrou um crescimento notável, acima de 8% em alguns trimestres, mas enfrenta obstáculos de desenvolvimento duradouros e a urgência de criar mais empregos.
Reformas Estruturais e Atração de Investimentos
Para competir com a China a longo prazo, a Índia precisa implementar reformas que melhorem o ambiente de negócios, agilizem regulamentações e atraiam investimentos. A abertura ao comércio pode desempenhar um papel crucial nesse processo. As empresas indianas necessitam de exposição à competição global para se tornarem mais produtivas.
A Economia do Bloco
O CPTPP, assinado em março de 2018 no Chile, abrange países que representam aproximadamente 500 bilhões de dólares em fluxo comercial anual. O acordo oferece acesso preferencial a economias em crescimento para países desenvolvidos, ao mesmo tempo que garante padrões mais rígidos nas áreas de direitos trabalhistas e proteção ambiental. Para os emergentes, a adesão significa acesso garantido a mercados consumidores ricos e justificativa para reformas internas, como demonstrado pelo sucesso do Vietnã após ingressar no pacto.
Potencial Transformador para a Índia
Para a Índia, a participação no CPTPP facilitaria sua integração nas redes de produção regionais e contribuiria para as reformas necessárias. Estudos indicam que a adesão ao CPTPP poderia oferecer um impulso significativo ao PIB indiano, além de fortalecer setores chave, como têxteis e tecnologia da informação.
Possíveis Barreiras e Caminhos para a Adesão
Apesar das vantagens, encontrar o apoio para a adesão ao CPTPP pode ser um desafio. Muitos membros do bloco lembram-se das longas negociações que a Índia travou sobre outro acordo comercial, o Parceria Econômica Abrangente Regional (RCEP), do qual se retirou em 2019. Essa experiência evidenciou a dificuldade de Nova Déli em negociar, levantando dúvidas sobre seu comprometimento.
Entretanto, o recente acordo comercial com a União Europeia demonstra que a Índia está se tornando um parceiro mais atraente e disposto a fazer concessões. A rapidez com que o pacto foi firmado é um indicativo de que o país está pronto para enfrentar novos desafios.
Estratégias para a Adesão
Para facilitar esse processo, a Índia deve começar com etapas de construção de confiança, conduzindo um “gap analysis” (análise de lacunas) para compreender as medidas necessárias para se alinhar aos padrões do CPTPP. Essa etapa inicial pode incluir a atribuição de status de observador e compromissos em áreas menos controversas, como normas digitais e inteligência artificial, preparando o terreno para a adesão completa.
Adicionalmente, a Índia pode negociar termos favoráveis, como períodos de transição mais longos e isenções parciais para setores sensíveis. A experiência do Vietnã na obtenção de prazos de adaptação pode servir de modelo. Com o tempo, a Índia poderá implementar as reformas agrícolas necessárias, enquanto garante suporte aos agricultores afetados.
Oportunidades para o Futuro
A entrada da Índia no CPTPP poderia não apenas fortalecer a posição do país no comércio regional, mas também transformá-lo em um ator essencial no novo cenário econômico global. O bloco, ampliando-se para incluir a Índia, poderia criar uma aliança poderosa que transcende a influência da China e dos Estados Unidos.
A convergência entre Índia, UE e outros membros do CPTPP poderia formar uma coalizão robusta de economias de mercado abertas, fornecendo uma alternativa aos países que buscam reduzir sua dependência de Pequim sem se tornarem totalmente dependentes de Washington.
Nesse contexto, a Índia possui uma oportunidade única para reforçar sua posição no mundo. A reforma interna é crucial para construir a força econômica necessária para competir com a China. Ao buscar a adesão ao CPTPP, Nova Déli estaria não apenas investindo em seu futuro econômico, mas também afirmando sua independência em um mundo em constante mudança.
Ao avançar nesse caminho, a Índia pode encontrar um novo nível de cooperação e influência, moldando não apenas sua própria trajetória, mas também o futuro do comércio global. Para o país, essa é a hora de agir.




