Toda semana, novos relatórios ressaltam o que já sabemos: a inteligência artificial (IA) está prestes a revolucionar tudo ao nosso redor. Mesmo assim, muitos executivos leem esses estudos, concordam com a urgência das mudanças, mas continuam presos nas mesmas reuniões de sempre, sem saber por onde começar. Esse enigma tem um nome e uma explicação.
De acordo com dados recentes, apenas 10% das empresas no mundo se consideram “preparadas para o futuro”, ou seja, com planos concretos para enfrentar a revolução que a IA traz. Enquanto isso, 60% dos líderes acreditam que seus colaboradores precisarão aprimorar suas habilidades em IA, mas 34% das empresas não possuem qualquer política de uso dessa tecnologia, conforme apontado pelo The Adecco Group. Há uma grande quantidade de boa intenção, mas escassez de direções claras.
No Brasil, a situação é igualmente desanimadora. Somente 27% das empresas têm grupos focados no desenvolvimento de IA, e apenas 23% já capacitaram seus profissionais para utilizar essa tecnologia. Contudo, 67% das organizações brasileiras a classificam como uma das cinco prioridades estratégicas até 2025, segundo uma pesquisa da Bain & Company. Esse descompasso entre o que se deseja e o que se realiza é onde muitos negócios falham.
O desafio não é a tecnologia, mas a execução.
Uma pesquisa realizada pela Your AI Dept com 164 CEOs em 2025 revelou uma lacuna preocupante: 40% desses executivos ainda estavam nos primeiros passos da adoção da IA, mesmo cientes do potencial transformador dessa tecnologia.
Mas qual é o principal entrave? O estudo aponta que, ao contrário do que muitos pensam, não se tratam de questões de segurança, custos ou infraestrutura. O maior problema é a dificuldade em separar o que é realidade do que é mera especulação, mencionado por 46% dos executivos como um dos principais obstáculos. Portanto, podemos concluir que a questão não é a falta de ambição, mas sim a ausência de um método eficiente.
Embora os líderes reconheçam a urgência de uma transformação por meio da IA, apenas 45% se sentem confiantes na capacidade de suas organizações para efetivar essa mudança. Este número, assim como a confiança nas estratégias relacionadas à IA, caiu 11 pontos percentuais entre 2024 e 2025, segundo um artigo do Harvard Law Forum on Corporate Governance. À medida que o tema ganha mais destaque, a insegurança também parece aumentar.
Os líderes estão à frente.
De acordo com a BCG, executivos de alto escalão que se envolvem profundamente com IA têm 12 vezes mais chances de estar entre as 5% de empresas que mais inovam utilizando essa tecnologia, conforme dados do World Economic Forum de 2026. A disparidade entre quem avança e quem estagna não é questão de meses, mas sim de anos-luz em termos de competitividade. O CEO do Adecco Group, Denis Machuel, foi claro: “A IA está evoluindo mais rapidamente do que a maioria das empresas consegue se adaptar. A transformação precisa ser centrada no ser humano e exige uma estratégia coesa.”
Portanto, a pergunta que devemos nos fazer não é se a sua empresa implementará IA, mas sim quando, de que forma e se isso não será tarde demais.
O verdadeiro ponto de partida
Após uma década imersa no Vale do Silício, envolvida em inovações, comportamento humano e liderança, percebi que a implementação da IA não deve ser feita de fora para dentro. Cursos sobre prompt não mudam a cultura organizacional. Hackathons não reorganizam decisões-chave. A transformação verdadeira se inicia quando a liderança para de encarar a IA apenas como um projeto tecnológico e a vê como uma reestruturação organizacional. O conceito que desenvolvi, chamado de Infraestrutura Cultural Estratégica, não é apenas uma resposta à IA, mas uma condição fundamental para qualquer inovação duradoura. Hoje, a IA se torna seu teste mais urgente.
Abaixo, apresento três movimentos essenciais que podem fazer a diferença:
- Diagnóstico antes da ferramenta
Antes de escolher uma plataforma de IA, é preciso mapear os processos que consomem tempo e decisões em sua operação. A IA deve solucionar problemas concretos, não genéricos. - Cultura antes da tecnologia
Apenas 48% dos projetos de IA alcançam a fase produtiva. Segundo a MIT Sloan Management Review, a principal razão para a falha dos outros 52% raramente é técnica; a resistência cultural, a falta de apoio executivo e a ausência de diretrizes claras são os principais obstáculos. - Liderança focada em IA antes de formar uma equipe de IA
A transformação deve começar com os tomadores de decisão, e não só com a equipe de dados, como muitos acreditam. Líderes que compreendem a IA fazem perguntas diferentes, e isso altera todo o cenário.
Se você se sente perdido nesse processo, não encare isso como sinal de lentidão. Muitas vezes, a falta de um mapa claro é a grande responsável por essa sensação. A boa notícia é que esse mapa já existe, e tudo começa com as perguntas certas.
*Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, uma plataforma de educação corporativa que utiliza Inteligência Artificial para oferecer experiências de aprendizagem personalizadas. Com mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford, Iona fez parte da equipe responsável pela primeira plataforma de educação online da instituição. Atuou durante oito anos no setor de SaaS de edtechs no Vale do Silício e é cofundadora da Brazil at Silicon Valley, fellow da Fundação Lemann, mentora de mulheres e investidora-anjo.
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