A Ascensão da Autoritarismo e o Papel das Mulheres na Democracia
Atualmente, o número de autocracias no mundo ultrapassa o de democracias, com quase três quartos da população global vivendo sob regimes autoritários. Nos últimos anos, líderes como Xi Jinping na China e Vladimir Putin na Rússia têm fortalecido suas posições, enquanto democracias frágeis, como as da Hungria e da Turquia, caem na armadilha do iliberalismo. Em diversas regiões da África, golpes de Estado têm derrubado líderes legitimamente eleitos. Até mesmo nos Estados Unidos, um país com uma longa tradição democrática, a ameaça de autoritarismo se acirrou, minando o estado de direito e deixando um sentimento de frustração a respeito do futuro da democracia.
Esses eventos não podem ser compreendidos, e muito menos revertidos, sem reconhecer um aspecto central do crescente autoritarismo: a perseguição das mulheres. Em diversas culturas, as mulheres são defensoras da democracia, e os regimes autocráticos as visam como parte de suas estratégias para acumular poder. Ignorar a repressão às mulheres como uma crise urgente garante a continuidade da erosão democrática.
O Papel Crucial das Mulheres na Luta pela Democracia
Há mais de 30 anos, durante a Quarta Conferência Mundial sobre Mulheres da ONU em Pequim, afirmei que “os direitos humanos são direitos das mulheres, e os direitos das mulheres são direitos humanos”. Essa ideia, polêmica à época, refletia a real participação das mulheres nas lutas pela democracia que caracterizaram o final do século XX.
Exemplos históricos são muitos: na Polônia, as mulheres desempenharam papéis fundamentais em greves de trabalhadores; na Argentina e em outros países da América Latina, movimentos femininos emergiram como forças transformadoras durante regimes autoritários. Na verdade, Argentina foi pioneira ao implementar uma cota eleitoral para mulheres em 1991.
Com o freio sobre a democracia nos dias atuais, é evidente que os direitos das mulheres atuam como uma “canário na mina de carvão”. Ataques a esses direitos são frequentemente negligenciados, e os desdobramentos são claros: a erosão democrática avança, instituições são esvaziadas, a dissidência é criminalizada e o poder é concentrado sem qualquer forma de prestação de contas. Essa não é uma consequência acidental, mas sim uma estratégia deliberada.
A Repressão às Mulheres: Uma Estratégia Autoritária
Os regimes autoritários atacam os direitos das mulheres de forma sistemática porque entendem que sua participação é uma força democratizadora e uma barreira à tirania. Essa repressão tem natureza tanto ideológica quanto tática. Ao silenciar as contribuições femininas que são fundamentais para uma democracia vibrante, esses regimes reforçam uma retórica patriarcal que legitima seu poder.
Um exemplo extremo da misoginia totalitária é o regime talibã no Afeganistão, que, ao retomar o controle em 2021, rapidamente excluiu as mulheres da sociedade pública, proibindo meninas de frequentarem escolas secundárias e mulheres de trabalharem em empregos fora de casa. Essa tentativa de controle não é única ao Afeganistão, mas um modelo que se repete em outras autocracias. De líderes religiosos que reprimem a liberdade das mulheres na Irã a governantes que forçam as mulheres de volta ao lar em países como a Rússia e a Hungria, o padrão é claro.
A Misoginia Como Ferramenta de Controle
A misoginia não é somente uma ideologia, mas uma ferramenta política utilizada para manter o controle autoritário. Os líderes autocráticos adotam uma visão de gênero de soma zero, como se cada conquista das mulheres fosse uma perda para os homens. Essa traição é sedutora para muitos que se sentem ameaçados por mudanças sociais e econômicas.
Pessoas que se opõem a essas normas são duplamente punidas: como dissidentes políticos e como mulheres que desafiam a docilidade esperada. O presidente russo Vladimir Putin personifica essa abordagem, promovendo políticas que não apenas limitam a igualdade de gênero, mas também reforçam um ideal de masculinidade que argumenta ser uma defesa de valores familiares “tradicionais”.
Exemplos de Repressão e Resistência
Embora regimes autoritários com frequência implementem essa repressão de maneira dissimulada, há também casos de brutalidade explícita. Durante a ditadura de Charles Taylor em Liberia, a violência sexual foi usada para intimidar as mulheres e inibir sua participação política. Mesmo em democracias, figuras como o presidente argentino Javier Milei e membros da Suprema Corte dos EUA estão atacando os direitos femininos.
Surpreendentemente, mesmo países que tradicionalmente respeitam a democracia podem ver a erosão rápida de seus direitos. Nos EUA, a revogação do Roe v. Wade é um exemplo claro de como o direito das mulheres pode ser condicionado e transformado em uma questão política.
A Luta Contínua pelas Mulheres e pela Democracia
A resistência das mulheres se manifesta em várias frentes. Movimentos em todo o mundo têm se mobilizado pela defesa dos direitos reprodutivos e da igualdade. Na América Latina, a “Onda Verde” da Argentina uniu milhões em torno da luta pelos direitos ao aborto, inspirando mudanças em outros países da região.
Mulheres têm liderado protestos significativos, como os de Woman, Life, Freedom no Irã, que foram impulsionados pela morte de Mahsa Amini. A resistência é fundamental, e as mulheres são protagonistas nessa luta pela democracia.
Um Caminho a Seguir
A defesa dos direitos das mulheres é, portanto, uma defesa da democracia. Como podemos garantir que a voz das mulheres continue a ser ouvida em tempos de crescente autoritarismo? É essencial que as democracias se mobilizem para proteger e promover a participação plena de mulheres em todos os aspectos da vida pública.
Essencialmente, quando as mulheres são silenciadas, toda a democracia é afetada. O que se espera é que, a partir da experiência e da pesquisa, compreendamos que a igualdade de gênero e a democracia não são questões separadas, mas interligadas.
Nos próximos anos, nossa capacidade de nos opor à autoritarismo dependerá de como fortalecermos a voz das mulheres e garantirmos a sua participação. A luta pela igualdade de gênero não deve ser vista apenas como uma luta feminina, mas como um pilar fundamental para a preservação e a promoção da democracia globalmente.
E assim, a pergunta que queda é: até quando permitiremos que os direitos femininos sejam uma questão secundária e não a prioridade que deveriam ser em nossas sociedades? Juntos, podemos moldar um futuro onde a voz das mulheres ressoe em cada esquina e onde a democracia prevaleça plenamente e sem concessões.
