A disparada do dólar, que avançou mais de 8% na segunda-feira após as eleições presidenciais, e a alta dos juros levaram bancos e corretoras a rever suas recomendações para ações. Relatórios de Bradesco BBI, Citi, JPMorgan, Morgan Stanley, BTG Pactual e XP Investimentos passaram a favorecer exportadoras e empresas com receitas em moeda forte, vistas como mais protegidas diante de um real fraco e de uma economia doméstica mais lenta.
A avaliação das instituições considera um cenário de juros elevados por mais tempo e maior cautela com ativos brasileiros. Para a XP, a queda da Bolsa depois do segundo turno refletiu a expectativa de desvalorização cambial, aumento dos juros reais de longo prazo e maior prêmio de risco — retorno adicional exigido para investir em ativos considerados mais arriscados no país.
Nesse contexto, Suzano, Gerdau, Aura Minerals e Vale aparecem entre as empresas que, segundo a XP, estão mais bem posicionadas. A Suzano se destaca pelo benefício direto da alta do dólar. Gerdau e Vale, por sua vez, combinam receitas internacionais com menor exposição às condições da economia brasileira. Em sentido oposto, companhias mais ligadas ao mercado doméstico e com maior endividamento, como CSN, Usiminas e Irani, podem ser mais pressionadas por juros altos e atividade fraca.
Embraer e WEG ganham espaço
A Embraer continua entre as principais apostas dos analistas. O Bradesco BBI reiterou a fabricante de aeronaves como sua principal recomendação no setor de transportes, citando receitas em dólar, uma carteira robusta de pedidos e crescimento dos resultados. O banco estima que o lucro operacional da companhia cresça, em média, cerca de 20% ao ano entre 2026 e 2028.
A carteira de encomendas equivale a aproximadamente cinco anos de produção na aviação comercial e três anos na aviação executiva, segundo o relatório. Entre os possíveis catalisadores para a empresa, o Bradesco BBI cita novos contratos para jatos comerciais, campanhas de venda do cargueiro KC-390 e a evolução da Eve.
A XP também considera que a tese da Embraer tem pouca exposição à piora da economia brasileira. A parcela relevante de receitas vinculada ao dólar e a baixa dependência da atividade doméstica ajudam a sustentar essa avaliação.
Outra empresa que recebeu atenção positiva nas análises recentes é a WEG. A XP avalia que a correção recente das ações tornou o perfil da companhia mais interessante e a descreve como um “hedge cambial natural” — uma proteção contra oscilações do câmbio — por causa da exposição internacional e da baixa dependência do ciclo econômico brasileiro. A corretora também aponta a atuação da WEG em áreas como eletrificação, automação industrial e infraestrutura energética.
Suzano concentra apostas ligadas ao dólar
No setor de papel e celulose, a preferência dos analistas permanece concentrada na Suzano. O Citi manteve recomendação de compra e a classificou como uma escolha defensiva após as eleições. Em uma simulação do banco, se o dólar médio de 2027 ficar em R$ 5,50, o EBITDA projetado da empresa poderá ser cerca de 5% maior que o previsto atualmente. EBITDA é a sigla em inglês para o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
O Bradesco BBI estima que cada variação de R$ 0,10 na taxa de câmbio tenha impacto de aproximadamente 3% no EBITDA anual da Suzano. Já a XP calcula que uma desvalorização de 10% do real poderia elevar em cerca de 27% o fluxo de caixa livre terminal da companhia, indicador usado para estimar a geração de caixa em períodos futuros. A XP aponta esse como o maior impacto positivo entre as empresas que acompanha.
A Tupy também aparece entre as preferidas da XP: aproximadamente 60% de sua receita vem do exterior, sobretudo do mercado norte-americano de veículos pesados. A Marcopolo reúne valuation considerado descontado — uma avaliação baixa em relação a parâmetros usados pelo mercado —, presença internacional e dividend yield próximo de 10%, proporção entre dividendos pagos e preço da ação. A corretora, porém, mantém cautela por causa das incertezas sobre a demanda por ônibus em uma economia mais fraca.
Para a Gerdau, a XP destaca a exposição aos Estados Unidos, a geração de caixa em dólar e a menor dependência do mercado brasileiro. O BTG Pactual estima que cerca de três quartos do EBITDA da companhia sejam gerados em dólar. O banco também vê a Suzano entre as beneficiadas pelo câmbio: em seus cálculos, uma desvalorização de 10% do real pode elevar o EBITDA da produtora em aproximadamente 16% e fortalecer a geração de caixa.
Carteiras deixam empresas domésticas
Após as eleições, o Morgan Stanley promoveu uma rotação em sua carteira para favorecer exportadoras, em uma estratégia chamada “Brazil with a Z”. O banco incluiu ou privilegiou Petrobras, Embraer, Suzano, PRIO, WEG, Vale e JBS, enquanto reduziu a participação em companhias mais dependentes de juros baixos e da atividade econômica brasileira.
O JPMorgan também avalia que empresas com receitas em dólar e balanços mais resilientes tendem a se destacar com o real fraco, crescimento lento e juros elevados por mais tempo. O banco cita Suzano, Vale, Gerdau e Embraer. O BTG afirma que a combinação de desvalorização cambial, incertezas fiscais e juros altos voltou a aumentar a busca por proteção cambial.
Além de Suzano e Gerdau, o BTG mantém uma visão construtiva para Vale, apesar das preocupações com o mercado de minério de ferro, e destaca a Aura Minerals entre as ações mais sensíveis ao câmbio. Na avaliação do banco, empresas ligadas à atividade doméstica e dependentes da queda dos juros podem sofrer revisões negativas de lucro se as taxas permanecerem altas por mais tempo. Com isso, exportadoras e companhias que geram caixa em moeda forte concentram as recomendações de proteção contra os riscos do cenário brasileiro.