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Dona Henriqueta: A Centenária que Transformou o Café e Inspirou Mulheres em Todo o Mundo

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“O verbo e a geografia moldam nossa identidade”, afirma Henriqueta Miranda Carvalho Silva, aos 103 anos, que dirige a Fazenda Prazeres em Três Pontas, Sul de Minas. Para ela, essas palavras são uma bússola que guiam sua vida e trabalho.

Crescendo em uma família dedicada ao cultivo de café e à criação de gado, Henriqueta tem lembranças vívidas de sua infância. A sua maior memória remete ao pai, que correu em sua ajuda quando ela foi mordida por um cachorro da fazenda. Contudo, o que mais domina suas lembranças é seu amor pelo café. Ela entende cada etapa do cultivo: desde o maquinário, manejo, renovação das lavouras, até a seleção dos grãos – a sua vida sempre girou em torno dessa cultura.

A educação de Henriqueta começou na Vila Prazeres, onde estudou aos 9 anos, e ela se tornou professora, além de ser a primeira mulher a comprar um Fusca na cidade. Aprendeu a dirigir aos 40 anos, mas fez questão de frisar: “Não gostei”. Henriqueta desafiou as normas de sua época, traçando um caminho surpreendente para uma mulher do seu tempo, expandindo seus negócios e colhendo até 10 mil sacas de café. Até meio século atrás, ela poderia ser vista como uma das pioneiras da Geração NOLT (Nova Idade da Vida Ativa), um termo que retrata pessoas que rompem com os estereótipos da terceira idade.

CocatrelDona Henriqueta, uma NOLT há décadas

Aos 103 anos, Dona Henriqueta se tornou ícone de um movimento feminino no sul de Minas, que começou em 2019 na Cooperativa dos Cafeicultores da Zona de Três Pontas (Cocatrel) com a criação do grupo Cafeína. Desde o início, ela tem sido a embaixadora desse projeto.

A geografia e o verbo que Henriqueta defende foram reconhecidos recentemente. No ano passado, o grupo Cafeína recebeu um toque especial: um vídeo de agradecimento de consumidores em Londres que descobriram que o café que consumiam vinha de um grupo de mulheres a impressionantes 9.200 km de distância.

Atualmente, o Cafeína Cocatrel é o maior grupo de mulheres cafeicultoras ligado a uma cooperativa no mundo, contando com 2.179 cooperadas titulares de terras, um aumento de 12,6% em comparação a 2025. Dessas mulheres, aproximadamente 850 participam ativamente do grupo, espalhadas por mais de 80 cidades, principalmente em Minas Gerais.

“São mulheres que estão à frente dos negócios”, diz Iandra Vilela, nutricionista e especialista em cafeicultura, que coordena o grupo Cafeína.

“Dona Henriqueta não é apenas uma homenagem ao passado, mas uma prova de que esse movimento sempre existiu. O que faltava era estrutura e reconhecimento.”

A ideia de formar o grupo nasceu de uma pesquisa feita em 2017 pela Aliança Internacional das Mulheres do Café (IWCA), junto ao Ministério da Agricultura e à Embrapa, que realçou o potencial das mulheres na cafeicultura do Sul de Minas. Em 2018, a Cocatrel reconheceu Dona Henriqueta como Cafeicultora Inspiração do Ano.

A formalização do grupo em 2019 trouxe a marca “Mulheres que Produzem”, registrada até 2030. Segundo Iandra, “por gerações, as mulheres estavam no terreiro, na colheita e na secagem, mas não estavam nos contratos. O grupo veio para mudar essa realidade.” Desde então, o Cafeína já realizou mais de 500 encontros, cursos e treinamentos, além de estabelecer cinco núcleos regionais.

Resultados Impressionantes: R$ 111,4 Milhões em Quatro Anos

Os números do Cafeína demonstram um crescimento notável. Entre 2022 e 2025, o valor total gerado pelas cooperadas chegou a R$ 111,4 milhões, com um aumento impressionante de 75% em 2025. Esse crescimento elevou a receita anual de aproximadamente R$ 21 milhões para R$ 37 milhões. A quantidade de sacas entregues também subiu, com um acréscimo de 16.607 unidades, totalizando cerca de 347 mil sacas.

“O Cafeína não surgiu para ensinar a mulher a plantar café. Ela já domina isso. O objetivo é mostrar a essas mulheres o verdadeiro valor do seu produto.” Em 2025, as vendas na loja da cooperativa, que fornece insumos para as propriedades, geraram R$ 6,47 milhões, um aumento de 25,1% em relação ao ano anterior, totalizando R$ 22,1 milhões entre 2022 e 2025.

CocatrelIandra Vilela e Dona Henriqueta, lideranças do Cafeína

O café especial do grupo também teve destaque, obtendo uma pontuação de 83,50 pela BSCA (Brasil Specialty Coffee Association) na safra 2025/26, e é exportado para 25 países, incluindo Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos. As parcerias com empresas internacionais como Pact Coffee e Falcon Specialty têm contribuído para o sucesso do grupo.

“Quando uma mulher percebe que seu café pode ser exportado, que seu nome pode estar na embalagem que sai para a Europa, tudo muda. A certificação não é apenas um documento ao lado da parede, mas um meio de valorizar o trabalho dessas mulheres que vem sendo feito há décadas.”

Do Invisível ao Reconhecimento: A Marca Própria

Luiza Borges Oliveira, cofundadora da Guanabara Café, é uma das produtoras ativas do grupo Cafeína. Ela cresceu em uma fazenda familiar em Carmo do Rio Claro (MG), onde a produção de café sempre foi uma tradição. Com inovações na pós-colheita, a fazenda começou a produzir cafés com notas acima de 87 pontos.

“Achávamos que aqui não tínhamos um café especial”, reflete Luiza.

Neto de produção e com a marca Guanabara, ela recebeu os terrenos da fazenda e hoje se destaca no setor. “Eu sei do meu valor e brigo pelo reconhecimento do meu café”, afirma Luiza. Para ela, a Cocatrel se destaca pela transparência na gestão e na qualificação dos produtos.

Como Funciona o Cocatrel Direct Trade (CDT)

O Cocatrel Direct Trade é o braço da cooperativa responsável pela exportação de cafés especiais, atuando como um canal direto entre as produtoras e os clientes internacionais. O café, quando separado após a colheita, é submetido a uma série de avaliações para garantir sua qualidade. As classificações variam de acordo com a nota: cafés com pontuação superior a 85 pontos têm rastreabilidade automática.

Essa estrutura inovadora coloca as produtoras em contato direto com o mercado internacional, além de oferecer uma maior valorização de seus produtos, especialmente os cafés acima de 83 pontos.

A partir de 2027, a Cocatrel, em parceria com a Plataforma Global do Café, trabalhará em um protocolo de sustentabilidade voltado para as mulheres cafeicultoras. Esse protocolo é inédito e tem como objetivo incrementar a valorização dos cafés femininos, permitindo que suas propriedades sejam reconhecidas internacionalmente.

Cultivando a Qualidade: A Busca por Valorização

Nilse Lúcia Cardoso, proprietária do Sítio Campos das Candeias, representa o perfil das pequenas produtoras que se destacam. Com experiência em mesma produção cafeeira, é um exemplo de como as mulheres estão se reapropriando de suas histórias.

CocatrelNilse Lúcia Cardoso do Sítio Campos das Candeias

“Eu sempre quis saber do meu café, mas não imaginava que poderia ser tão rápido”, diz Nilse, refletindo sobre a qualidade que pode ser alcançada em pequenas propriedades.

A avó de Claudineia Moreira, outra produtora, trabalhou sua vida toda sem saber quanto o café gerava. Agora, as novas gerações, representadas por Marianne, estão se esforçando para mudar essa situação. Marianne tem potencial para levar o Sítio Jequitibá a novos patamares.

Esse legado de mulheres, que vão de Henriqueta a Marianne, reforça a importância do conhecimento e do apoio mútuo. O Grupo Cafeína é mais do que uma cooperativa; é uma comunidade que transforma vidas e destinos no mundo do café.

A geografia sempre teve sua importância, mas agora, em cada sacaria que sai para o mundo, as palavras e a sabedoria das mulheres também ocupam seu espaço. Essas histórias de vida e de coragem são o que realmente movimentam o setor cafeeiro e merecem ser celebradas.


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