Impactos do El Niño na Produção de Café no Brasil
A previsão de safra recorde de café no Brasil enfrenta um grande desafio: a ameaça do fenômeno climático El Niño. A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) alerta que o El Niño pode resultar em uma redução de até 20% na produção, devido ao calor extremo e à irregularidade das chuvas.
O Que Esperar da Safra de 2023
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projetou uma produção histórica de 66,7 milhões de sacas de café, incluindo as variedades arábica e canéfora (conilon/robusta). No entanto, as condições climáticas adversas, exacerbadas pelo ciclo do El Niño, podem muito bem frustrar essas expectativas.
Celírio Inácio da Silva, diretor executivo da Abic, explica: “Estamos diante de uma possibilidade de quebra entre 15% e 20%. Em anos normais isso seria considerado aceitável, mas neste contexto, é alarmante.”
Preparação dos Cafeicultores
Apesar das previsões preocupantes, os cafeicultores brasileiros estão mais preparados para enfrentar os desafios climáticos. Graças a inovações tecnológicas, a agricultura do café hoje é mais resiliente às variações climáticas. Silva observa: “A tecnologia nos permitiu plantar e colher com maior eficiência.”
Nos últimos anos, a rápida expansão dos sistemas de irrigação tem sido uma estratégia crucial. Os produtores investem nessa tecnologia para minimizar os efeitos das chuvas cada vez mais imprevisíveis, resultado das mudanças climáticas globais.
Ciclo Biológico em Risco
O impacto do El Niño sobre o ciclo biológico da safra é uma preocupação crescente. Especialistas destacam que o calor excessivo e a irregularidade nas chuvas podem prejudicar a floração da planta, especialmente no segundo semestre de 2026. Wellis Caixeta, gerente de compras da cooperativa Expocacer, observa que “a floração desigual resultante dessas condições pode gerar problemas de qualidade e dificultar a colheita.”
Em 2024, o El Niño já causou consequências significativas. A previsão de 58,8 milhões de sacas caiu para 54,2 milhões. Embora o arábica tenha mostrado um ciclo bienal positivo, a produção foi apenas 0,2% maior. Por outro lado, a produtividade do conilon enfrentou uma queda de 5,9%.
Anomalias Climáticas
Recentemente, chuvas atípicas no Sudeste do Brasil têm sido atribuídas ao El Niño. A Expocacer relata que, em algumas regiões produtoras de arábica, chuvas superiores a 50 milímetros nos últimos 40 dias atrasaram a colheita e levaram à queda significativa dos frutos, comprometendo a qualidade dos grãos.
Desafios no Espírito Santo
O estado do Espírito Santo, o maior produtor de café canéfora do Brasil, também lida com condições climáticas desfavoráveis. Luiz Carlos Bastianello, presidente da Cooabriel, menciona que a irregularidade das chuvas, com intervalos mais longos entre elas e episódios mais intensos, gera preocupações quanto aos impactos do El Niño.
Os produtores temem que o fenômeno prolongue períodos de seca e calor intenso até janeiro de 2027, o que pode comprometer o enchimento dos grãos. Apesar de uma previsão de queda de 15% na produção de conilon, Bastianello acredita que ainda é cedo para determinar o impacto total do El Niño no próximo ano.
A Temperatura como Ameaça
“A temperatura é o principal risco para uma quebra significativa na safra,” alerta Bastianello. Com temperaturas acima de 27°C, o metabolismo do canéfora diminui, e a 35°C, ele é praticamente interrompido. O efeito disso pode ser ainda mais prejudicial do que a falta de água.
Esperanças no Norte do Brasil
Nem tudo é sombrio. No norte do país, as condições climáticas tem se mostrado mais favoráveis. Em Rondônia, por exemplo, as temperaturas e as chuvas têm permanecido dentro das normas sazonais. Os produtores da região estão otimistas e esperam uma safra recorde de 3 milhões de sacas, superando a previsão inicial da Conab, que era de 2,77 milhões.
Juan Travain, presidente da Caferon, uma associação de cafeicultores da Amazônia, acredita que a robusta de Rondônia não deve enfrentar os mesmos desafios que o arábica diante do El Niño. “Quase 100% das áreas de cultivo de robusta estão irrigadas, ao passo que muitas plantações de arábica ainda não têm essa estrutura,” explica.
Reflexão Sobre o Futuro da Cafeicultura
Enquanto o Brasil se prepara para enfrentar a incerteza imposta pelo El Niño, resta saber como os cafeicultores se adaptarão a essas novas realidades. A resiliência dos produtores, aliada às inovações tecnológicas, oferece uma esperança de que, apesar das dificuldades, a produção de café poderá se manter estável e de qualidade.
Neste momento, é fundamental que todos os envolvidos na cadeia produtiva do café reflitam sobre as melhores práticas e estratégias a serem adotadas, para que possam não apenas sobreviver, mas prosperar mesmo diante das adversidades.
Convidamos você a compartilhar suas opiniões e experiências sobre como as mudanças climáticas têm impactado a produção de café e o que você acredita que deve ser feito para enfrentar os desafios futuros.
