A liderança chinesa reconhece que o país depende demais de investimentos e exportações e que o consumo fraco das famílias ameaça o crescimento, mas mantém uma estratégia centrada na indústria e na tecnologia. A aposta de Pequim é que o controle de setores avançados elevará a produtividade e, mais adiante, os salários e a demanda interna. O risco, segundo a análise, é que essa transição prolongue a deflação e amplie as tensões comerciais sem resolver o desequilíbrio entre produção e consumo.
Investimento como motor do crescimento
O governo anunciou medidas limitadas para estimular o consumo e a demanda doméstica, enquanto preserva o foco em investimentos industriais, sobretudo em tecnologias avançadas e setores considerados estratégicos. A opção reflete a visão de que a acumulação de capital e o domínio tecnológico formam a base do desenvolvimento, e que serviços, salários mais altos e consumo ampliado virão depois.
Nessa lógica, cabe ao Estado direcionar recursos para áreas prioritárias, em vez de deixar a alocação depender principalmente de juros e câmbio. A poupança das famílias e os lucros das empresas são canalizados, por meio de bancos estatais e fundos orientados pelo governo, para investimentos industriais. O desequilíbrio resultante — com renda familiar e serviços relativamente fracos — é tratado como um custo temporário em nome do crescimento futuro.
O modelo também interpreta a economia como uma rede de setores interdependentes. Se a oferta de determinado produto supera a demanda, o governo pode estimular investimentos em outras áreas para tentar equilibrar a produção. Quando há excesso de capacidade, campanhas como a chamada “anti-involução” buscam conter novos investimentos, sustentar preços ou restringir a entrada de empresas, até que a demanda acompanhe a oferta.
Depois do colapso imobiliário de 2022, que atingiu um setor que chegou a representar cerca de um quarto do produto interno bruto (PIB), Pequim ampliou a intervenção na distribuição de crédito e no financiamento industrial. Linhas do banco central direcionam empréstimos de baixo custo a setores prioritários, enquanto fundos públicos de participação acionária financiam empresas ligadas a estratégias industriais e tecnológicas.
O limite da aposta industrial
A estratégia parte da expectativa de que investimentos em tecnologia elevem a produtividade e, por consequência, a renda e o consumo. Mas a análise aponta que essa relação não é automática. Uma tecnologia só aumenta a eficiência da economia quando é usada de forma ampla e gera ganhos superiores aos custos. A expansão de uma empresa de robótica, por exemplo, não basta: os equipamentos precisam reduzir custos ou aumentar a produção em outras empresas, e o benefício deve superar o investimento feito.
Quando decisões de investimento seguem prioridades políticas, e não a expectativa de retorno, o capital pode ser direcionado a projetos pouco eficientes. A proteção de empresas e a redução de falências também podem limitar a inovação e manter recursos em atividades improdutivas. Além disso, a busca por autossuficiência pode incentivar a duplicação de investimentos, sem necessariamente melhorar a eficiência.
O sucesso internacional de empresas como BYD, CATL e Li Auto, nos setores de veículos elétricos e baterias, convive com empresas que fracassaram e deixaram empréstimos problemáticos e subsídios sem retorno. O Fundo Monetário Internacional estima que os gastos com política industrial podem chegar a 4% do PIB. Ainda assim, não está claro se o retorno total desses investimentos é positivo, quando se incluem subsídios, dívidas ruins e lucros que deixaram de ser obtidos.
Há também um efeito potencial sobre o emprego. A indústria avançada pode ampliar a produção com menos trabalhadores, enquanto o aumento da renda das famílias depende de oportunidades de trabalho e salários. Assim, mesmo que fábricas e setores estratégicos se tornem mais eficientes, a demanda doméstica pode continuar fraca se o emprego e os rendimentos não acompanharem esse avanço.
Deflação e tensões comerciais
A combinação de produção crescente e consumo doméstico insuficiente contribuiu para a queda do índice de preços ao produtor, que mede os preços recebidos pelas empresas, durante mais tempo do que para sua alta na última década. A deflação reduz a procura por crédito privado, desestimula novos investimentos e pressiona emprego, salários e confiança dos consumidores. Também pode diminuir a arrecadação do governo e prejudicar instituições financeiras.
O excedente de produção precisa encontrar compradores no exterior, muitas vezes com preços menores. Isso aumenta a dependência da demanda estrangeira e alimenta atritos comerciais. A análise observa que as exportações chinesas pouco desaceleraram mesmo após tarifas abrangentes impostas pelo governo Trump e medidas da União Europeia contra alguns setores, como o de veículos elétricos. Pequim tem tratado as disputas individualmente, por meio de negociações e ameaças, para preservar mercados.
Embora o desemprego, o subemprego e a baixa renda já pressionem as famílias, a resposta chinesa tem incluído apenas subsídios modestos e avanços graduais nos serviços sociais. A liderança considera que os custos fazem parte de uma transição para um modelo de crescimento baseado em tecnologia. Essa confiança pode adiar mudanças, enquanto a deflação e a fragilidade das empresas reduzem a margem de ação do governo.
As receitas fiscais estão praticamente estáveis em termos nominais desde 2019, segundo a análise. A deflação e o aumento da dívida também pressionam o sistema financeiro. Uma recapitalização bancária de US$ 54 bilhões ocorreu dois meses antes da publicação da análise, mas teve pouco efeito sobre os empréstimos. Se a política atual persistir, a China poderá enfrentar consumo mais fraco, crescimento mais lento da renda e maior tensão comercial, além de ter menos espaço fiscal e financeiro para reequilibrar a economia.