A vitória democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), tirou dos republicanos o controle da Câmara dos Representantes e do Senado e reduziu o poder do presidente Donald Trump no Congresso. O novo equilíbrio pode abrir espaço para investimentos no Brasil e para negociações comerciais, embora não elimine a possibilidade de novas tarifas americanas.
O resultado também foi associado à insatisfação de eleitores com a economia e com os efeitos da guerra contra o Irã, que elevou os preços dos combustíveis e o custo de vida nos Estados Unidos. Segundo o BNP Paribas, os preços no país acumularam alta de 28% em cinco anos, enquanto os juros imobiliários ultrapassaram 7% ao ano.
Energia e tecnologia atraem atenção
Para o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, a aceitação do resultado por Trump reduz o risco de uma crise institucional. Ele também avalia que o equilíbrio maior entre os poderes pode favorecer os mercados. A mudança política, porém, não representa uma alteração radical de rumo, segundo Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV). Para ele, o resultado funciona como um freio à atuação do governo americano.
O novo cenário pode beneficiar o Brasil na disputa por investimentos em infraestrutura tecnológica, especialmente em centros de processamento de dados, conhecidos como data centers. Estados que passarão a ser governados por democratas concentram 45% da nova capacidade projetada dessas instalações nos Estados Unidos. A expectativa é de regras ambientais mais exigentes, custos maiores de eletricidade e revisão de incentivos fiscais nessas localidades.
Esse conjunto de fatores pode tornar o Brasil mais atraente para projetos ligados à inteligência artificial. O país tem excedente de energia solar e aprovou a regulamentação do programa Redata, voltado a investimentos no setor. O economista-chefe da EQI Investimentos, Stephan Kautz, apontou a oferta de energia como uma vantagem brasileira. Analistas da corretora Avenue também afirmam que os democratas querem conter o impacto do consumo de eletricidade dos centros de dados sobre as contas das famílias americanas.
Há oportunidades potenciais também na cadeia de minerais críticos usados na transição energética. O Departamento de Energia dos Estados Unidos liberou US$ 500 milhões para projetos de processamento, fabricação de baterias e reciclagem. Para a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), o movimento pode ampliar as possibilidades de parceria para além da exportação de minério, incluindo processamento, tecnologia e investimentos industriais.
Dólar e títulos entram no radar
A maioria democrata no Congresso pode favorecer políticas de sustentabilidade e ampliar o interesse global por ativos de energia limpa. O Brasil, com excedente de geração solar e eólica, pode atrair recursos para empreendimentos industriais e digitais. A valorização de empresas de energia renovável também pode direcionar capitais para cadeias de suprimento consideradas estratégicas.
Nos investimentos financeiros, a vitória democrata pode pressionar para baixo os rendimentos dos títulos do Tesouro americano, conhecidos como Treasuries. Após a eleição, a taxa dos papéis de dez anos recuou de 5,05% para 4,92%, enquanto o dólar perdeu força globalmente. A combinação de moeda americana mais fraca e diferencial de juros favorável pode direcionar parte dos recursos ao Brasil.
Alex Kuptsikevich, analista-chefe de mercado da FxPro, relacionou a mudança política à perspectiva fiscal dos Estados Unidos. Segundo ele, os democratas devem se opor aos planos de Trump de reduzir impostos e elevar gastos públicos, o que pode diminuir a emissão de títulos do Tesouro e enfraquecer a vantagem recente do dólar. Economistas, no entanto, avaliam que a desvalorização da moeda pode ser temporária. Uma eventual retomada da alta do dólar pressionaria o real e criaria desafios para a política monetária do Banco Central.
Congresso amplia canais de negociação
O controle democrata do Legislativo americano abre novos canais de interlocução para o governo brasileiro, além do diálogo entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Para Kautz, Lula passa a ter mais espaço no Congresso para negociar e tentar reverter medidas do governo americano. Auxiliares do presidente brasileiro veem a mudança como uma oportunidade para uma relação menos assimétrica e esperam que o novo equilíbrio dificulte medidas hostis, como tarifas e pressões diplomáticas.
O alcance desse contrapeso, porém, é limitado. Trump mantém prerrogativas na política externa e instrumentos para impor barreiras comerciais. Em 15 de julho de 2026, a Representação de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) concluiu uma investigação com base na Section 301 e aplicou tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. A medida citou divergências sobre comércio digital, pagamentos eletrônicos, taxas preferenciais, etanol e desmatamento.
Embora o Congresso tenha autoridade para regular tarifas de comércio exterior, a Casa Branca e a USTR podem usar poderes delegados para aplicar barreiras sem consulta prévia aos parlamentares. Por isso, a vitória democrata não reverte automaticamente as regras comerciais. O especialista em renda variável da Davos Investimentos, Marcelo Boragini, afirmou que a mudança aumenta a necessidade de negociação entre o governo Trump e a oposição, mas não altera de imediato as condições comerciais.
Polarização pode elevar a volatilidade
A divisão de poder em Washington também pode aumentar os atritos entre Executivo e Legislativo. Entre os riscos citados estão impasses sobre o teto da dívida pública, paralisação do governo e um processo de impeachment contra Trump. Kuptsikevich, da FxPro, estimou em 70% a probabilidade de impeachment, cenário que poderia ampliar a volatilidade nos mercados globais.
O Congresso de oposição pode impor restrições orçamentárias mais rigorosas, ampliar a fiscalização e abrir espaço para investigações, segundo Alexandre Coelho, professor e coordenador de pós-graduação em Relações Internacionais da FESPSP. No comércio, a mudança também pode estimular empresas brasileiras a buscar apoio de parlamentares e importadores americanos. Ainda assim, o poder presidencial sobre tarifas e política externa mantém incerto o efeito do novo mapa político sobre as relações econômicas entre os dois países.