Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset, defende que o Brasil aproveite o período depois das eleições para discutir um ajuste fiscal e conter o avanço da dívida pública. Segundo ele, a incerteza sobre o controle das despesas mantém elevado o custo de financiamento do país, pressiona os juros e reduz o espaço para investimentos e serviços públicos.
O impacto também chega às empresas: juros altos por muito tempo consomem caixa, encarecem projetos e elevam o risco de dificuldades financeiras. Funchal avalia que uma mudança capaz de convencer investidores de que a dívida será controlada poderia reduzir o prêmio exigido para financiar o Brasil e abrir espaço para aliviar os juros domésticos.
Orçamento tem pouca margem de escolha
Na proposta de Orçamento para 2027, as despesas obrigatórias representam 91,7% das despesas primárias totais. Os 8,3% restantes são gastos discricionários, que incluem investimentos e o custeio da máquina pública. A proporção limita a capacidade do governo de decidir como distribuir recursos.
As despesas obrigatórias seguem regras definidas por leis e pela Constituição. Entre os temas que Funchal considera necessário discutir estão os pisos de saúde e educação e os gastos vinculados ao salário mínimo. Alterar o ritmo de crescimento dessas despesas exige negociação com o Congresso.
O executivo afirma que a proposta não é simplesmente reduzir recursos para áreas como saúde e educação, mas desacelerar o avanço dos gastos obrigatórios para ampliar, ao longo do tempo, a margem para outras prioridades. “Só que a gente precisa ter espaço para alocar dinheiro da forma melhor possível. Nós não temos esse espaço hoje, porque já está tudo carimbado”, disse.
Uma revisão das regras teria efeitos concretos sobre serviços, benefícios e investimentos. Funchal cita, por exemplo, a possibilidade de ampliar verbas de saúde para atender a uma população que envelhece. Também defende investimentos em inteligência artificial para acompanhar a competição tecnológica global.
Juros internacionais elevam o custo
O endividamento elevado não é uma questão restrita ao Brasil, na avaliação de Funchal. Despesas ampliadas durante a pandemia não foram totalmente revertidas, enquanto os gastos com defesa cresceram. Na Europa, o fraco crescimento econômico também dificulta a organização das contas públicas.
Esse quadro reduz a perspectiva de uma queda generalizada dos juros no exterior. Para o Brasil, isso significa que o custo de carregar o próprio risco fiscal se soma a taxas internacionais já elevadas. O prêmio de risco é a remuneração adicional que investidores exigem para financiar um país em razão dos riscos percebidos.
Um ajuste fiscal que gere confiança na capacidade de controlar a dívida poderia diminuir esse prêmio e favorecer a entrada de capital estrangeiro, segundo o executivo. Para que a confiança apareça, ele aponta a necessidade de sinais concretos: uma equipe comprometida com a agenda, articulação entre os poderes e propostas encaminhadas ao Congresso.
Regras fiscais e confiança dos investidores
Funchal relaciona a rigidez das despesas ao funcionamento do arcabouço fiscal, conjunto de regras que busca dar previsibilidade aos gastos e contribuir para o controle do endividamento. Quando há exceções sucessivas, afirma, a regra perde força. “A culpa é da gente que está colocando exceção em cima da regra. Está usando mal a regra”, disse.
Na avaliação do executivo, o crescimento das despesas obrigatórias pode comprimir os recursos disponíveis para manter serviços e financiar investimentos. Se o mercado espera que o governo amplie os limites de gasto para acomodar essas pressões, a promessa de controle da dívida perde credibilidade.
Os juros elevados também pesam sobre o crédito privado. Funchal associa a permanência das taxas altas ao aumento das recuperações judiciais. Embora haja mais recursos no mercado de capitais e os spreads — diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada em uma operação — tenham diminuído, as empresas ainda enfrentam uma taxa básica elevada.
Ele não identifica, por enquanto, um problema sistêmico, mas prevê que as dificuldades podem aumentar se os juros continuarem nesse patamar. Para investidores, defende que os riscos estejam bem precificados e sejam apresentados com transparência nos produtos de crédito.
Janela política após as eleições
Funchal considera que o período posterior às eleições pode facilitar a discussão porque o presidente eleito recebeu das urnas a responsabilidade de conduzir o país pelos quatro anos seguintes. Ele defende que essa força política seja usada para construir uma agenda e negociar mudanças com o Congresso e a sociedade.
O executivo afirma que as equipes técnicas conhecem os problemas e as ferramentas disponíveis, mas que a aprovação depende de liderança política. “A liderança tem o papel de conversar com a sociedade e com o Congresso, para poder avançar”, disse. Antes de assumir a Bradesco Asset, Funchal foi secretário do Tesouro Nacional e secretário da Fazenda do Espírito Santo.
O ritmo do ajuste também depende das condições políticas e do apoio da população. Uma mudança gradual pode distribuir o esforço ao longo dos anos, mas corre o risco de gerar cansaço. Um ajuste mais rápido enfrenta outras dificuldades. Para Funchal, explicar como as decisões afetam serviços, juros e investimentos é parte do processo.