Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente no domingo, ao derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL), e os mercados financeiros reagiram à perspectiva de reversão das apostas recentes em uma mudança de governo. No pregão asiático, os contratos futuros de novembro do real chegaram a cair 10%, enquanto um fundo negociado em bolsa ligado ao Ibovespa, listado em Tóquio, recuou 15%. Investidores se preparam para uma semana volátil, marcada por ajustes nos preços de ativos.
Mercado havia apostado em guinada à direita
As oscilações nos mercados se intensificaram depois que Bolsonaro ficou inesperadamente em primeiro lugar no primeiro turno, realizado três semanas antes. Desde então, investidores passaram a considerar a possibilidade de uma mudança de governo, e os preços de ações, câmbio e juros refletiram essas expectativas.
Na sexta-feira, antes da votação, as ações brasileiras haviam encerrado o pregão quase 7% acima do nível registrado antes do primeiro turno. No mesmo período, o real se valorizou quase 5% em relação ao dólar. O resultado eleitoral contrariou as apostas em uma guinada à direita e levantou a possibilidade de que parte desses movimentos recentes seja revertida.
Os contratos futuros são acordos negociados no mercado para compra ou venda de ativos em uma data futura. Os investidores usam esses contratos para se proteger de oscilações ou para apostar na direção dos preços. A queda de 10% registrada pelos contratos futuros de novembro do real durante o pregão asiático sinalizou uma mudança rápida nas expectativas após a eleição.
O Nomura NF Ibovespa Link ETF, fundo negociado em bolsa (ETF, na sigla em inglês) listado em Tóquio e vinculado ao Ibovespa, caiu 15%. ETFs são fundos cujas cotas são negociadas em bolsa. O desempenho do produto japonês mostrou a reação dos investidores fora do Brasil, ainda durante o pregão asiático.
Juros também podem passar por ajustes
Antes da eleição, os contratos futuros de taxas de juros indicavam expectativa de que um aperto nas finanças públicas permitiria reduzir os custos dos empréstimos. Com a vitória de Lula, investidores agora avaliam como o próximo governo conduzirá as contas públicas e se essa expectativa continuará refletida nos preços.
Luis Felipe Vital, chefe de estratégia macro da Warren Investimentos, projetou uma reação intensa na abertura dos mercados brasileiros. “Esperamos uma reação acentuada do mercado na segunda-feira, com reajustes agressivos nos preços, uma onda de vendas de ativos e os futuros de taxas de juros provavelmente atingindo seu limite máximo logo após a abertura”, disse.
Os contratos futuros de juros permitem negociar hoje expectativas sobre as taxas em períodos posteriores. Quando esses contratos sobem, o movimento pode indicar que investidores esperam juros mais altos. A previsão de Vital é que a reavaliação das apostas políticas provoque vendas de ativos e uma alta rápida desses contratos, embora a dimensão do ajuste dependa dos preços praticados na abertura.
Desafio fiscal envolve dívida e programas sociais
Nos próximos quatro anos, Lula deverá desacelerar o crescimento da dívida brasileira sem deixar de proteger os programas sociais e os investimentos. Para os investidores, a questão central é se uma abordagem gradual para reorganizar as finanças públicas será suficiente para reduzir os custos dos empréstimos.
A confiança dos credores nessa estratégia pode influenciar quanto o governo paga para obter recursos. Se eles não acreditarem que o presidente conseguirá cumprir o que prometeu, poderão exigir taxas de juros mais altas. Isso elevaria o custo de financiamento da dívida pública e poderia tornar o crédito mais caro para empresas e famílias.
O movimento dos mercados, portanto, reúne duas avaliações: a reação imediata à derrota de Flávio Bolsonaro e a expectativa sobre as decisões fiscais do novo mandato. A queda do real e do ETF, somada à possibilidade de alta nos contratos de juros, indica que investidores estão revendo posições montadas antes do resultado. A trajetória dos preços dependerá, entre outros fatores, da confiança na capacidade do governo de conter o avanço da dívida enquanto mantém programas sociais e investimentos.