
REUTERS/Daniel Muñoz
Leilão de Energia: O Conflito entre Carvão, Biodiesel e a Transição Energética
O leilão promovido pelo governo para a contratação de nova potência elétrica está no centro de um debate acalorado. De um lado, o setor de biodiesel clama pela reintegração de suas fontes na disputa, enquanto do outro, diversas partes do setor elétrico exigem a exclusão do carvão ou pelo menos mudanças em sua forma de contratação. A intenção é priorizar fontes de energia mais flexíveis e menos poluentes.
Apetites e Desafios
A Petrobras, a principal geradora de energia térmica do Brasil e um dos personagens-chave nesse leilão, argumenta que o carvão deveria competir separadamente das usinas a gás natural. Eles desejam que essa fonte seja incluída apenas na concorrência destinada às usinas a óleo combustível. O que está em jogo são não apenas contratos, mas também a estabilidade do sistema elétrico nacional.
Infelizmente, as mudanças que podem ocorrer ainda estão cercadas de incertezas devido ao curto prazo até o leilão, que foi posposto para 2026. O governo enfrenta uma pressão significativa para realizar essa contratação, especialmente em face das preocupações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) sobre riscos crescentes de apagões e déficits de geração futura.
Por que a Flexibilidade é Fundamental?
Este leilão é crucial para a estrutura do setor elétrico. O seu objetivo principal é contratar usinas com maior flexibilidade, capazes de lidar com a intermitência das fontes solar e eólica. Essas características permitem que o ONS gerencie melhor a diversidade de recursos energéticos disponíveis.
Durante a consulta pública que encerrou na última semana, a voz predominante foi a do setor de biocombustíveis, que propôs a reinclusão do biodiesel e de outras biomassas. Eles argumentam que isso se alinha perfeitamente aos objetivos de transição energética do Brasil e poderia aumentar a confiabilidade da operação elétrica.
Problemas de Capacidade e Logística
No entanto, a inclusão dos biocombustíveis no leilão ainda enfrenta desafios. O governo, em uma decisão anterior, optou por não incluí-los novamente, levantando preocupações em relação à capacidade logística, altos custos e a dificuldade de adaptação dos geradores a diesel para o uso de biocombustível.
Esses argumentos, no entanto, foram contestados por diversas entidades do segmento, como as produtoras de biodiesel Cofco, Oleoplan e Binatural. Elas apresentaram dados que comprovam a viabilidade do uso de 100% de biodiesel em motores de grande porte, citando exemplos de empresas renomadas, como MAN e Caterpillar.
A união do setor, representada por associações como a União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), enfatizou que a sinalização anterior do governo levou ao início de vários projetos e investimentos que agora estão suspensos.
O Que Está em Jogo para o Setor Térmico?
O grupo Delta Energia, por exemplo, já havia inscrito dois empreendimentos de geração térmica movidos a biocombustível antes do leilão cancelado. Eles fizeram investimentos em estudos, aquisição de terrenos e licenças ambientais, o que demonstra um comprometimento com a diversidade energética do país.
Outro exemplo é a Binatural, que suspendeu um projeto de R$500 milhões em um complexo termelétrico sustentável. Até mesmo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) entrou na discussão, pedindo que se outras fontes de biomassa, como etanol e biogás, sejam permitidas caso o governo decida excluir o biodiesel.
Desafios do Carvão e as Contestações
A polêmica se aprofunda com a inclusão do carvão no leilão. Vários agentes do setor elétrico contestam essa decisão, alegando que as usinas de carvão não possuem a flexibilidade necessária para atender às exigências do ONS. A Petrobras, em suas contribuições, apontou que essas usinas podem distorcer a verdadeira função do leilão.
Assim, a proposta da Petrobras é que o carvão participe em um “produto específico”, separado das usinas a gás natural. Isso mostra uma estratégia clara de recontratação das usinas descontratadas, que somam incríveis 2,9 gigawatts.
A Associação Brasileira do Cobre (ABCS) também levantou preocupações sobre o cronograma de suprimento, sugerindo que o início previsto seja alterado para permitir a participação de usinas já conectadas, como a Pecém I, no Ceará, uma das poucas usinas a carvão do país, que depende de combustível importado.
Condições Desfavoráveis
Além disso, a ABCS destacou que as condições estabelecidas para o funcionamento das usinas a carvão no leilão podem não ser viáveis para algumas usinas com contratos mínimos garantidos de suprimento, como Candiota, no Rio Grande do Sul, da Âmbar Energia.
A Âmbar já declarou que a participação de Candiota no leilão, nas condições atuais, é “economicamente inviável”. Essa perspectiva sombria levanta questões sobre a efetividade das decisões do governo.
Um Olhar Para o Futuro
O debate em torno do leilão de energia revela a complexidade das questões energéticas no Brasil. Entre a busca por uma matriz mais limpa, a pressão por biocombustíveis e os desafios do carvão, há um caminho repleto de nuances e interesses conflitantes.
Convidamos você a refletir sobre esses assuntos e a compartilhar sua opinião. O futuro energético do Brasil depende de escolhas conscientes e de um diálogo aberto entre os diversos setores envolvidos.
Em um momento tão crítico, cada voz conta. Junte-se à conversa e ajude a moldar o amanhã energético do nosso país!




