As exportações brasileiras de soja devem recuar 0,8% em 2027, para 113 milhões de toneladas, mas a receita do complexo soja pode alcançar um recorde de US$ 69,3 bilhões. A estimativa foi divulgada nesta quinta-feira pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), que atribui o avanço da receita aos preços mais altos e prevê aumento do processamento da oleaginosa no país.
A projeção indica uma mudança na destinação da soja brasileira: em vez de seguir principalmente para o exterior em grão, uma parcela maior deverá ser processada no mercado interno para produzir farelo e óleo. A Abiove relaciona essa tendência à demanda nacional por esses produtos e à expectativa de aumento da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel.
Processamento deve atingir recorde
A entidade estima que o processamento, também chamado de esmagamento — etapa que transforma o grão em farelo e óleo — chegue a 66 milhões de toneladas em 2027. O volume seria 3,8% superior ao previsto para 2026 e um recorde. A Abiove reúne empresas do setor como ADM, Amaggi, Bunge, Cargill, Cofco e Louis Dreyfus Company.
Segundo a associação, a previsão de exportações menores de soja em grão está “possivelmente ligada a uma maior demanda interna”. A expectativa de aumento da mistura de biodiesel também contribui para a projeção de mais processamento. O biocombustível é produzido majoritariamente a partir do óleo de soja.
“O forte ritmo de esmagamento reflete a resposta ágil da nossa indústria à crescente demanda nacional por farelo, essencial para a produção de alimentos, e por óleo, fundamental para a fabricação de biocombustíveis e para as exportações”, afirmou Daniel Furlan Amaral, diretor de Economia e Assuntos Regulatórios da Abiove.
O executivo também disse que o avanço do processamento prepara o setor para atender o país diante da expectativa de elevação da mistura obrigatória para B16, prevista para março. A sigla indica uma proporção de 16% de biodiesel no diesel. Questionada, a Abiove afirmou que sua estimativa de processamento considera a possibilidade de aumento de um ponto percentual, para esse nível.
Safra deve crescer pouco
A previsão de maior processamento ocorre em um cenário de aumento modesto da produção. A Abiove estima uma safra brasileira de 181,6 milhões de toneladas em 2027, alta de 0,7% em relação a 2026. O cálculo usa a projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), estatal responsável por estimativas sobre a produção agrícola.
A estimativa considera efeitos climáticos associados a um ano de El Niño, fenômeno que reduz as chuvas no Norte e eleva as temperaturas, além de condições econômicas que limitam a expansão da área plantada. Como os produtores ainda estão semeando a nova safra, a oferta futura também poderá influenciar o volume disponível para exportação e processamento.
Para 2026, a Abiove reduziu em 1,1 milhão de toneladas sua projeção de exportações de soja em grão em comparação com a estimativa de setembro, para 113,9 milhões de toneladas. A entidade não detalhou o motivo da revisão. Mesmo com o corte, o volume ainda superaria as 108,18 milhões de toneladas exportadas em 2025 e seria recorde.
Farelo cresce, óleo perde espaço nas exportações
Com mais soja processada, a produção de farelo deve aumentar 3,8% em 2027, para 50,8 milhões de toneladas. O produto é usado na fabricação de ração. As exportações brasileiras de farelo, por sua vez, podem atingir 26,3 milhões de toneladas, alta de 4% ante 2026 e também um recorde.
A produção de óleo de soja está estimada em 13,27 milhões de toneladas, avanço de 3,7%. Desse total, 7,8 milhões de toneladas seriam destinadas ao biodiesel. Já as exportações do óleo devem cair 2,6%, para 1,9 milhão de toneladas. A Abiove prevê que o aumento do uso interno na produção de biocombustível reduza o volume disponível para venda ao exterior. A Índia é um dos principais destinos do óleo brasileiro.
Receita do complexo soja pode bater recorde
Apesar da ligeira queda esperada nos embarques de soja em grão, os preços mais altos devem elevar o faturamento das exportações do complexo soja, formado por grão, farelo e óleo. A Abiove projeta receita de US$ 69,3 bilhões em 2027, ante US$ 60,3 bilhões previstos para 2026.
A soja em grão responderia por US$ 56,5 bilhões do total estimado para o próximo ano. Se confirmada, a receita do complexo superará o recorde anterior, de US$ 67,3 bilhões, registrado em 2023. A projeção mostra que, para o setor, a valorização dos produtos compensaria a redução do volume exportado de grãos.