Desafios e Oportunidades do Agro Brasileiro em 2026
O ano de 2026 vem apresentando uma série de desafios para a geopolítica e o comércio internacional, impactando diretamente o setor agropecuário do Brasil. Entre os eventos mais significativos, destacam-se a continuidade da Guerra na Ucrânia, o fechamento do Estreito de Ormuz no Irã, os novos regulamentos chineses sobre a carne bovina, o tarifário imposto pelos Estados Unidos e o embargo da União Europeia em algumas cadeias produtivas. Além disso, o fenômeno do Super El Niño e a crise global de fertilizantes e energia têm contribuído para um cenário instável.
Esses desafios exigem uma resposta estratégica do Brasil. Para enfrentar as adversidades presentes e futuras, é fundamental que o país diversifique suas exportações, adicione valor a seus produtos e amplie suas relações comerciais. Um planejamento bem elaborado para o médio e longo prazo permitirá que o Brasil alcance seus objetivos de maneira sustentável.
Enfrentando o Novo Cenário Global
A política internacional tem se tornado cada vez mais complexa, marcada pelo declínio das instituições multilaterais e pelo aumento do protecionismo e das guerras comerciais. Esses fatores dificultam o comércio global e demandam um olhar atento sobre como essas dinâmicas podem influenciar as exportações brasileiras.
Para minimizar os impactos negativos, a melhor saída é buscar a celebração de mais acordos de livre comércio. Isso permite a abertura de mercados, promove o acesso facilitado e proporciona tarifas preferenciais para produtos brasileiros.
Um exemplo positivo nesse sentido é a recente entrada em vigor de dois importantes acordos do Mercosul: com a União Europeia e com a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA). Essas parcerias não só abrem novas possibilidades comerciais, mas também servem como um modelo para negociações futuras.
Oportunidades no Mercado Europeu e EFTA
O acordo com a União Europeia é de grande relevância, pois introduz inovações significativas e implementa medidas do Pacote de Brasília. Essas medidas incluem mecanismos de reequilíbrio que garantem um acompanhamento contínuo e resolução de conflitos que possam afetar o comércio bilateral.
Com uma população de cerca de 452 milhões de pessoas e um PIB per capita médio de US$ 62.930, o mercado europeu se destaca como um grande consumidor com elevado poder de compra. Por outro lado, o acordo com a EFTA, embora envolva um mercado menor de 15,18 milhões de pessoas, abrange países que possuem um PIB per capita médio de US$ 106.786, demonstrando assim um potencial de compra significativo.
Esses blocos abrem um mundo de oportunidades para produtos com valor agregado, com um mercado europeu que oferece a chance de ganhos em escala. Assim, é essencial que o Brasil aumente sua presença nesses mercados, promova produtos agropecuários de alto valor e amplie a exportação de itens mais processados.
Navegando Novas Frentes de Negociação na Ásia e América
Paralelamente, ainda há muitos acordos em negociação que podem ser aproveitados, especialmente diante do atual cenário de tarifas e guerras comerciais. O Brasil está em conversações com países como Japão e Coreia do Sul, que podem se tornar alternativas viáveis, especialmente para a carne bovina, numa época em que as medidas de salvaguardas chinesas estão em vigor. Outras oportunidades incluem o etanol, frutas, produtos industrializados e combustível sustentável de aviação (SAF).
O Brasil também está em negociação com a Índia e o Vietnã, dois países com grandes populações, além do Canadá, que pode oferecer maior segurança no fornecimento de fertilizantes. Mais ainda, as tratativas com a Indonésia, país que envolve a recente disputa na OMC sobre carne de frango, são relevantes. Embora o Brasil tenha se saído vitorioso, novos desafios surgiram, complicando a situação.
A Indonésia, com uma população superior à do Brasil, demonstra uma complementaridade nas pautas de exportação. O Brasil exporta produtos como farelos, açúcares e petróleo, enquanto importa óleos vegetais e outros produtos. Para finalizar, os Emirados Árabes Unidos representam um destino estratégico para produtos de alto valor agregado, visando à segurança alimentar do país, onde o Brasil pode contribuir de maneira significativa.
Da Produção ao Comércio Global
Neste cenário desafiador, é vital que o Brasil adote uma estratégia clara e estabeleça metas bem definidas para os próximos 5, 10 ou 15 anos. Essa visão deve envolver a diversificação de destinos de exportação, a adição de valor à pauta agropecuária e a celebração de acordos comerciais com países-chave, tudo isso através de uma política de comércio exterior pragmática.
Não podemos nos contentar em ser apenas o celeiro do mundo, mas sim aspiremos a nos tornar o supermercado em diversos produtos. O Brasil, juntamente com seus produtores, possui todo o potencial necessário para alcançar essa meta.
*Cláudia Costa é advogada, com LL.M. em direito internacional e produtora rural. Atualmente atua como coordenadora do Comitê de Relações Internacionais e diretora da Sociedade Rural Brasileira. Possui vasta experiência em comércio internacional e nas dinâmicas dos órgãos multilaterais.
Os artigos assinados representam a opinião exclusiva dos autores e não necessariamente refletem a posição da Forbes Brasil e de seu time editorial.