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Por que a Europa Não Consegue Jogar a Carta da China?

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As Consequências da Segunda Presidência de Trump para a Europa: Desafios e Oportunidades

Os primeiros dias da segunda presidência de Donald Trump trouxeram preocupações inesperadas para a Europa. A administração atual, liderada por Trump e seu vice, JD Vance, tem demonstrado uma forte oposição aos valores liberais europeus, fazendo aumentar a sensação de incerteza. Além da inquietação sobre o apoio dos EUA à Ucrânia, os novos e elevados impostos sobre produtos europeus despertam inquietações entre as nações do velho continente. Em meio a esse cenário turbulento, alguns líderes europeus começam a olhar para a China como uma possível alternativa estratégica.

A Nova Dinâmica nas Relações Europa-China

Recentemente, Bruxelas iniciou negociações com Pequim sobre a redução das tarifas aplicáveis aos carros elétricos chineses em troca de ações similares por parte da China. Essa busca por um novo entendimento se intensificou após a recusa do líder chinês, Xi Jinping, em comparecer a um cúpula que celebraria os 50 anos de relações entre a União Europeia e a China. Como resposta, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou uma visita a Beijing programada para o final de julho.

A manobra da China para se posicionar como um parceiro mais cooperativo do que Washington tem sido notável. Longe da diplomacia agressiva da era Trump, a China se apresenta agora como defensora de um sistema multilateral de comércio. Xi Jinping refere-se à Europa e à China como "duas grandes forças que constroem um mundo multipolar". Além disso, a proposta de revitalizar o Acordo Abrangente sobre Investimento, paralisado em 2021, demonstra a intenção de retomar laços mais estreitos.

Os Riscos de um Olhar para Leste

Entretanto, ao considerar essas aproximações, é vital que a Europa não ignore a realidade. Os desafios impostos pela China enquanto concorrente econômico e como um ator que reforça as capacidades militares da Rússia não diminuíram. A China desviou suas exportações para a Europa em resposta às tarifas dos EUA, levando a um superávit comercial recorde. Os produtos chineses, geralmente subsidiados, estão competindo diretamente com setores essenciais da indústria europeia, como a fabricação de automóveis e eletrônicos.

Com essas condições, importar mais produtos chineses poderia prejudicar ainda mais a competitividade do ecossistema manufatureiro europeu. Esse fenômeno é reminiscentemente comparável ao "choque da China" que atingiu os EUA no início dos anos 2000.

O Papel de Segurança da Europa na Conjuntura Atual

Além dos perigos econômicos, a ameaça à segurança oriunda da parceria crescente entre China e Rússia também não deve ser subestimada. A Ucrânia, por exemplo, alega ter evidências de que fábricas chinesas na Rússia estão produzindo armamentos e que a China tem fornecido materiais crucial para a guerra. Com isso, o cenário para uma resolução pacífica do conflito se torna nebuloso, permeando incertezas no continente europeu.

O Que a União Europeia Pode Fazer?

Diante desse contexto, a busca por um entendimento mais amigável com a China pode se revelar arriscada. Ao invés disso, a UE deve explorar outras potenciais alianças comerciais e estratégias que possam redirecionar o apoio chinês a Putin. Uma das principais alternativas para fortalecer a posição da Europa inclui:

  • Fortalecer Parcerias Comerciais Globais: A UE deve se focar em estabelecer pactos com nações aliadas. Uma proposta viável poderia ser a adesão ao Acordo Abrangente e Progressivo de Parceria Trans-Pacífica (CPTPP), que reúne diversas economias como Japão e Canadá, para promoção de integração econômica mais robusta.

  • Expansão das Relações Comércio-Entre-Países: Estabelecer acordos bilaterais com aliados e potências emergentes, como a Índia e os países do Mercosul, permita à Europa diversificar seu comércio e garantir uma nova abordagem diante de possíveis choques comerciais.

Estas iniciativas criariam um “hedge” econômico que protegeria a Europa dos altos e baixos na relação com os Estados Unidos e com a China.

Uma Relação de Interdependência: Oportunidades e Desafios

No entanto, a Europa também deve ser realista quanto a sua dependência do mercado chinês. Em virtude das tarifas impostas, a China agora precisa ainda mais do mercado europeu para absorver sua capacidade excedente, o que poderia se transformar em uma oportunidade para a UE aumentar sua influência e negociar melhores termos comerciais.

A aplicação de sanções a bancos chineses que facilitam a evasão das normas europeias, bem como condições para negociações de acordos de investimento, é uma ação que pode ser benéfica. A Europa deve reforçar sua posição ao exigir que a China cesse a exportação de bens de dual-use para a Rússia.

Reimaginar o Papel da Europa no Cenário Global

Para alcançar uma posição mais forte, a Europa deve montar uma coalizão robusta com democracias avançadas como Japão, Canadá, Austrália e o Reino Unido para lidar com a coerção econômica da China. Iniciativas conjuntas em tecnologias críticas, como inteligência artificial e biotecnologia, são cruciais para manter a liderança global.

Além disso, o apoio à pesquisa científica deve ser priorizado, e a migração de talentos pode se tornar uma luz no fim do túnel diante do corte de verbas no setor de pesquisa nos Estados Unidos.

A Necessidade de uma Resposta Coesa

Os efeitos do apoio da China à Rússia devem ser bem avaliados pela UE. Apesar da posição cautelosa, a Europa precisa fazer mais que meras declarações. O foco deve estar em pressionar a China a reconsiderar seu papel no conflito e, simultaneamente, alavanque seus próprios interesses.

Beijing está em um ponto de inflexão; enquanto busca se afirmar como um mediador no conflito, a Europa pode aproveitar a oportunidade para enfatizar a importância de uma postura neutra, ao invés de uma aliança evidente com Moscou.

Reflexões Finais

Em suma, a configuração atual das relações entre a Europa, a China e os Estados Unidos é repleta de desafios. Contudo, ao perceber que não podem simplesmente colocar suas esperanças em Beijing e, ao mesmo tempo, garantir um futuro econômico e de segurança mais resiliente.

A Europa deve mobilizar seus recursos, modernizar seus acordos comerciais e expandir suas alianças, enquanto se mantém atenta às manobras de Pequim e Moscou. Com isso, não apenas protegerá seus interesses, mas também jogará um papel fundamental na definição da nova ordem global.

Qual a sua opinião sobre a melhor maneira de a Europa navegar por essas águas turbulentas? O que você acreditaria que poderia redefinir essa relação triângulo? Compartilhe suas ideias!

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