Os Desafios do Poder Americano no Cenário Mundial
Nos anos que se seguiram ao colapso da União Soviética, os Estados Unidos desfrutaram de um período de supremacia em um mundo unipolar. O poder econômico e militar norte-americano era amplamente reconhecido, e a busca por objetivos globais apresentava-se como uma tarefa relativamente fácil. No entanto, mesmo nesse cenário favorável, a política externa americana frequentemente enfrentou deslizes, levando à frustração de muitos ao perceber que, apesar do poderio, os resultados nem sempre correspondiam às expectativas.
A Nova Era de Rivalidade
Nos dias atuais, o panorama global mudou significativamente. A China, por exemplo, emergiu como um competidor de peso, tanto militar quanto economicamente. Rússia e China têm se posicionado como forças contrárias à ordem internacional dominada pelos EUA, criando um contexto em que Washington não é mais a única superpotência. Esse cenário resulta em um declínio gradual da vantagem americana, reforçando a necessidade de introspecção e adaptação na sua abordagem de política externa.
Ademais, é importante destacar que a sociedade americana também passou por transformações. Não existe mais um consenso domestic sobre a necessidade de os EUA atuarem como líderes globais. Isso pode ser perigoso, pois a estabilidade mundial tende a ser maior quando os EUA assumem um papel preponderante. Assim, os líderes americanos precisam aprender com os erros do passado; uma política falha frequentemente decorre de uma desconexão entre objetivos e meios disponíveis.
A Necessidade de Clareza e Realismo nos Objetivos
Para o presidente Donald Trump obter êxito em sua administração, ele deve compreender esta verdade fundamental: a definição de metas claramente alinhadas com a capacidade de implementá-las é crucial. Algumas de suas aspirações, como a resolução dos conflitos em Gaza e na Ucrânia, embora sejam válidas, exigem um comprometimento de recursos que o país não pode desperdiçar.
Além disso, a colaboração com aliados será essencial. A percepção de Trump sobre os aliados como "caronas" pode se revelar um estorvo, especialmente para encerrar o conflito em Gaza sem o apoio dos países árabes ou para exercer pressão sobre o Irã sem o suporte das sanções atribuídas por parceiros tradicionais.
Exemplos de Objetivos Mal Estruturados
Frequentemente, iniciativas da política externa americana fracassam devido à definição de objetivos inadequados. Por exemplo, a administração de George W. Bush acreditou que poderia instaurar democracia no Oriente Médio apenas com a remoção de Saddam Hussein do poder no Iraque. O conceito de um Iraque livre como modelo para a região era uma visão grandiosa, mas acabou criando um vácuo seguido de uma guerra sectária, devido à falta de segurança e estabilidade no país.
Outro exemplo é o papel do presidente Barack Obama na Síria. Depois que o regime de Bashar al-Assad violentamente reprimiu protestos, Obama, sob pressão, exigiu que o presidente sírio “deixasse o cargo”. Contudo, ele não estava preparado para intervir, resultando em uma guerra devastadora que causou centenas de milhares de mortes e milhões de deslocados.
Esses episódios demonstram que a falta de um entendimento profundo da situação e a pressão política podem levar à adoção de objetivos não viáveis.
A Importância da Diplomacia
A história também mostra que a diplomacia bem-sucedida pode abrir portas para realizações significativas. A unificação da Alemanha após a Guerra Fria é um exemplo paradigmático. George H. W. Bush e seu secretário de Estado, James Baker, adotaram uma abordagem diplomática intensa, assegurando que a Alemanha unificada não se tornasse um vetor de potência autônoma no continente europeu. Por meio de um trabalho cuidadoso com aliados e a União Soviética, conseguiram integrar a Alemanha na OTAN, evitando um colapso da ordem europeia.
O Poder das Relações e da Persuasão
No entanto, a diplomacia não se limita simplesmente a planejar reuniões e acordos. É necessário cultivar relacionamentos e apresentar questões de forma que a posição dos EUA atraia e envolva outras nações. O uso efetivo do “poder brando” pode ser complementado, mas não substituído, por ações militares. Por outro lado, a abordagem de Trump tende a despriorizar o engajamento diplomático em favor do uso de força e pressão, o que pode comprometer as relações com aliados.
Caminhos para a Paz em Conflitos Atuais
A habilidade de Trump em usar a alavancagem pode, de fato, ser a chave para resolver conflitos, se aplicada de forma sábia. No conflito em Gaza, a primeira fase de um cessar-fogo entre Israel e Hamas está em andamento, mas a recusa do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em avançar nas negociações da segunda fase está estagnando o processo. Os desafios são muitos e envolvem a necessidade de um plano robusto que contemple a transição do poder em Gaza, exigindo a colaboração dos países árabes.
Recentemente, o Egito propôs um plano para a formação de uma administração tecnocrática para Gaza, mas esta proposta não aborda o papel da Hamas, o que impede a viabilidade da reconstrução da região. Um plano eficaz deve garantir que Hamas não possa se reabastecer e criar novas tensões.
Outro aspecto crucial envolve o Irã. As sanções e as retóricas agressivas do governo Trump não são suficientes. Uma abordagem mais integrada deve destacar maneiras de isolar politicamente o Irã e construir uma coalizão que pressione o país a interromper seu programa nuclear. A colaboração com aliados é vital, e a administração deve articular com clareza os riscos associados ao enriquecimento de urânio por Teerã.
A Relevância do Colaborativismo
É vital que o governo Trump utilize sua influência não apenas contra o Irã, mas também com países que podem influenciar Teerã. A China, por exemplo, não deseja que uma ação militar contra o Irã cause uma alta nos preços do petróleo. Uma comunicação eficaz entre Washington e Pequim pode resultar em uma pressão concertada sobre o Irã, trazendo benefícios para ambas as partes.
Em negociações com o Irã, a combinação de pressões com ofertas de ajuda, especialmente em áreas como a segurança hídrica e alimentar, pode ser um motivador significativo para um acordo. Oferecer tecnologias para melhorar a gestão de recursos hídricos, por exemplo, poderia abrir espaço para iniciar um diálogo mais construtivo.
Redescobrindo o Poder da Diplomacia
A boa política externa requer objetivos realistas e a dedicação de recursos adequados para alcançá-los. Embora Trump reconheça a importância da alavancagem, ele não deve esquecer que a história americana está repleta de momentos em que a colaboração internacional foi o que realmente multiplicou a eficácia de suas ações.
Integrar o “poder brando” com o “poder duro” e estabelecer um diálogo contínuo com aliados não só aumenta a influência dos EUA, mas também facilita a construção de um mundo mais estável. À medida que o cenário global evolui, será crucial que Washington ajuste sua estratégia para reafirmar sua posição, aprendendo com o passado e inovando nas práticas de diplomacia.
Fica a reflexão: como os Estados Unidos podem burrifar sua abordagem de política externa para lidar com os desafios contemporâneos e, ao mesmo tempo, manter a cooperação internacional? O futuro depende não apenas do poder militar ou econômico, mas também da capacidade de envolver parceiros e construir consensos.