Transformando a Saúde Pública no Brasil com a Inteligência Artificial
A inteligência artificial (IA) vai muito além de ser apenas uma tendência tecnológica; ela é uma ferramenta poderosa que pode redefinir a saúde pública no Brasil. No entanto, para que essa transformação realmente aconteça, é essencial contar com lideranças comprometidas com a equidade. Atualmente, o Brasil investe cerca de US$ 1.700 por pessoa anualmente em saúde, o que corresponde a menos de um terço do que os países mais desenvolvidos aplicam, mesmo com o setor consumindo quase 10% do nosso PIB. Esse descompasso gera um sistema que enfrenta múltiplos desafios, obrigando-o a fazer mais com menos recursos. Nesse contexto, a IA se apresenta como uma opção concreta para reorganizar prioridades e aumentar a capacidade de atendimento.
O Desafio da Demanda Reprimida
Temos visto algumas iniciativas, como mutirões e ações emergenciais, que ajudam a aliviar a demanda reprimida. Essas ações oferecem respostas imediatas a milhões de brasileiros, mas são solucionadoras de problemas momentâneos e não solucionam as questões estruturais subjacentes. Sem um planejamento adequado, continuamos apenas “enxugando gelo”, ou seja, lidando com filas que se renovam e desigualdades persistentes.
O Potencial da Universalidade
O Sistema Único de Saúde (SUS) tem como sua maior força a universalidade, mas enfrenta diversos obstáculos que dificultam sua implementação verdadeira. Atualmente, dispomos de tecnologias que podem e devem ser utilizadas para promover a equidade no sistema de saúde. A IA tem um papel fundamental nesse cenário:
Redução de filas: A IA pode otimizar o fluxo de exames e consultas, acelerando diagnósticos e antecipando riscos.
Vigilância epidemiológica: Sistemas inteligentes podem identificar padrões de surtos antes que se tornem crises e apoiar campanhas de vacinação.
Gestão hospitalar: A tecnologia pode melhorar a administração de estoques de medicamentos, leitos e equipamentos, integrando informações e evitando desperdícios.
Telemedicina inteligente: Com a IA, o cuidado pode alcançar áreas remotas, diminuindo as desigualdades regionais e tornando o sistema mais preventivo.
A Necessidade de Vontade Política
Todas essas possibilidades oferecidas pela tecnologia podem ser eficazes somente quando existem políticas que as sustentem. O sistema de saúde brasileiro ainda é desarticulado, com serviços que não se comunicam adequadamente, dificultando a continuidade do cuidado. Muitas decisões ainda são tomadas de forma reativa, focadas apenas em resolver problemas imediatos.
Além disso, há uma cultura que prioriza procedimentos técnicos em detrimento da experiência do paciente, o que prejudica a qualidade do atendimento. Esse cenário pode mudar, pois a IA, ao automatizar tarefas repetitivas, libera tempo para que os profissionais se concentrem na relação humana essencial na medicina.
Escolhas que Levam à Equidade
O objetivo maior é a equidade, que só é possível por meio de escolhas conscientes. Países que conseguiram promover justiça social na saúde compreendem que eficiência e humanidade são forças complementares. Sistemas de saúde que utilizam IA não apenas atendem mais, mas atendem melhor, priorizando quem realmente precisa.
Entretanto, essa nova realidade traz novos desafios. É fundamental estabelecer políticas éticas que protejam dados sensíveis e definam limites para a automação, garantindo que os objetivos humanitário e tecnológico andem juntos.
Um Futuro Promissor ou o Continuar na Crise?
O Brasil se encontra em uma encruzilhada: continuaremos apagando incêndios ou usaremos essa oportunidade para transformar o SUS em um sistema preventivo e integrado? A inteligência artificial pode não resolver todos os problemas, mas cria oportunidades para que o cuidado seja mais do que uma luta pela sobrevivência, tornando-se um símbolo de dignidade e justiça.
O futuro da saúde no Brasil não dependerá apenas da velocidade da tecnologia, mas, sobretudo, da coragem dos líderes. Inovar significa reconhecer que a saúde universal precisa ser, também, uma saúde equitativa. A IA, orientada por um propósito claro, pode ser aliada na realização da promissora missão do SUS: cuidar de todos com qualidade e justiça.
Cláudio Lottenberg é maestro e doutor em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp). Atualmente, preside o conselho do Einstein Hospital Israelita e do Instituto Coalizão Saúde.
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