A Rússia começou a usar uma rota marítima pelo Ártico para exportar grãos, em meio à paralisação do comércio no Mar Negro e a alertas de autoridades russas sobre riscos no Mar Báltico. O Porto Comercial de Murmansk e a Demetra Holding informaram nesta quarta-feira que um primeiro carregamento de 3.400 toneladas métricas está sendo embarcado. A iniciativa busca manter o acesso aos mercados externos, especialmente no Oriente Médio e na Ásia, diante das restrições às rotas tradicionais.
Porto no Ártico como alternativa
Murmansk fica a quase 2.000 quilômetros ao norte de Moscou, perto da fronteira com a Noruega, e pode ser acessada por águas neutras. O porto já teve importância logística durante a Segunda Guerra Mundial, quando comboios aliados o utilizaram para levar mercadorias à União Soviética.
Agora, a Rússia recorre à região para ampliar as opções de transporte de grãos. O primeiro carregamento anunciado reúne produtos de “importantes regiões agrícolas”, segundo as empresas envolvidas. O porto afirmou que está abrindo rapidamente uma alternativa para que agricultores russos cheguem aos mercados externos enquanto as rotas tradicionais enfrentam restrições.
Dados de transporte marítimo e uma fonte do mercado indicam que cerca de 28 mil toneladas métricas de trigo devem ser carregadas em Murmansk em um navio com destino a Casablanca, no Marrocos. O volume informado para essa viagem é diferente das 3.400 toneladas citadas no anúncio do primeiro carregamento. As informações disponíveis não detalham a relação entre as duas quantidades.
A Rússia é a maior exportadora mundial de trigo e tem buscado preservar os embarques para clientes no Oriente Médio e na Ásia. Além da nova opção no Ártico, o país direcionou parte do comércio para portos do Mar Báltico e subsidiou o transporte ferroviário desde as férteis regiões do sul até esses terminais.
Dependência do Báltico e alertas
Os portos russos do Báltico movimentaram 1,2 milhão de toneladas de grãos em setembro, mais de 60% do total das exportações marítimas russas do produto naquele mês. Para ampliar a capacidade, empresas adaptaram terminais antes usados para fertilizantes e carvão, que passaram a movimentar grãos.
Essa concentração aumentou a atenção sobre a segurança da rota. Autoridades do Kremlin alertaram para possíveis ações hostis de países europeus membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Todos os países com acesso ao Mar Báltico, exceto a Rússia, pertencem à aliança militar.
As relações entre Moscou e governos europeus se deterioraram nos últimos meses. O Kremlin acusou países da Europa de envolvimento militar direto na guerra na Ucrânia. Os governos europeus rejeitaram a acusação e afirmaram que o apoio militar e financeiro a Kiev tem como objetivo ajudar o país a se defender.
Comércio no Mar Negro paralisado
A busca por rotas alternativas ocorre após ataques russos e ucranianos a portos e navios desde o início da nova safra de grãos, em julho. As ações interromperam o comércio agrícola no Mar Negro, que antes estava em expansão. O conflito também reduziu a possibilidade de a região funcionar como corredor para exportações.
A Turquia, que importa grãos russos, liderou esforços para estabelecer um cessar-fogo e retomar os embarques pelo Mar Negro. A Rússia, porém, afirmou que não está mais interessada em um novo acordo para o comércio de grãos na região.
Em julho de 2022, Turquia e Nações Unidas ajudaram a mediar a Iniciativa dos Grãos do Mar Negro, acordo que permitiu a exportação segura de grãos ucranianos pela rota marítima. Moscou deixou o entendimento em 2023, alegando que suas próprias exportações de alimentos e fertilizantes enfrentavam obstáculos.
Com os embarques pelo Mar Negro comprometidos e as preocupações sobre o Báltico, a rota de Murmansk oferece à Rússia outra possibilidade de escoar a produção. O primeiro carregamento anunciado marca o início dessa operação, enquanto os dados de transporte apontam para uma remessa de trigo com destino ao Marrocos.