Salesforce vendeu software na nuvem antes de o mercado reconhecer a demanda


Ricardo Brandão, cofundador da Skyone, vê na inteligência artificial uma oportunidade semelhante à que identificou na computação em nuvem antes de criar a empresa, em 2013. Em entrevista ao podcast Do Zero ao Topo, ele afirmou que muitas companhias demonstram interesse pela IA, mas ainda precisam organizar e conectar sistemas e dados para usar a tecnologia.

A trajetória de Brandão começou cedo: aos 16 anos, ele vendia software para lojas de shopping, com o telefone de casa como contato comercial e o pai ajudando a apresentar o produto. Anos depois, a experiência como programador e sócio de uma empresa de software o levou a mudar de área e aprender sobre vendas, antes de empreender na Skyone.

Da programação às vendas

Uma consultora sugeriu que Brandão deixasse a área técnica para trabalhar com vendas. A proposta contrariava a visão que ele tinha como programador. “Como programador, eu tinha um preconceito enorme com essa área”, admitiu no podcast, apresentado por Mariana Amaro.

Ele aceitou a mudança e passou a encarar vendas como uma atividade baseada em encontrar a pessoa certa, oferecer o produto adequado e abordar o cliente no momento oportuno. “É falar com a pessoa certa, sobre o produto certo, no momento certo”, afirmou.

A experiência também mostrou o que ele não queria repetir em um negócio próprio: crescimento limitado, ambições pequenas e projetos internos que perdiam força por falta de dedicação. Nesse período, Brandão e o sócio Rennan Sanchez identificaram uma oportunidade na computação em nuvem. A tecnologia já tinha espaço nos Estados Unidos, mas ainda era pouco conhecida no Brasil.

Os dois propuseram criar uma nova área na empresa em que trabalhavam, mas os outros sócios recusaram. Brandão e Sanchez saíram, desfizeram a sociedade e fundaram a Skyone em 2013. A empresa começou ajudando companhias a transferir sistemas mantidos em servidores próprios para a nuvem.

Educar o mercado antes de vender

Naquele momento, muitas empresas brasileiras ainda não entendiam o que era computação em nuvem nem por que deveriam adotá-la. “Nuvem, em 2013, 2014, era muito pouco comum. As pessoas não sabiam exatamente o que era”, disse Brandão. A Skyone precisava, portanto, explicar a tecnologia ao mercado antes de vender sua solução.

O primeiro cliente pagante chegou sete meses depois da fundação. A empresa encontrou um encaixe entre sua solução e a demanda do mercado por volta de 2015 e 2016, quando alcançou R$ 300 mil em receita recorrente mensal e já atendia clientes em diferentes estados.

A proposta não se limitava a migrar sistemas. Por ter origem na indústria de software, a Skyone também analisava como os programas funcionavam e como poderiam ser otimizados na nuvem. “O nosso papel não era só levar as empresas para a nuvem”, afirmou Brandão. “Era entender os softwares, como funcionam, como otimizá-los para se apropriar de todos os benefícios.”

Outro componente do modelo era a venda por meio de canais e parceiros, em vez de conquistar cada cliente diretamente. Segundo o relato de Brandão, essa estratégia permitia combinar baixo custo de aquisição de clientes com maior alcance. Em 2018, a companhia recebeu seu primeiro fundo externo.

Pandemia acelerou a migração para a nuvem

Em 2020, a Skyone tinha um acordo assinado com um fundo de investimentos, mas a pandemia começou e o investidor recuou. Ao mesmo tempo, o isolamento acelerou a adoção da nuvem: empresas precisaram transferir sistemas para permitir o trabalho remoto. A companhia seguiu avançando com capital próprio e, em 2021, captou recursos para internacionalizar a operação.

A Skyone está presente em 35 países, e quase 20% de sua receita vem do exterior. Para Brandão, a confiança na nuvem cresceu desde os primeiros anos do negócio, embora parte do público ainda não compreenda exatamente como a tecnologia funciona. Ele vê uma situação parecida agora, com a inteligência artificial.

“A gente está vivendo de novo o mesmo filme, dez anos depois”, disse. O cofundador afirmou que 60% dos clientes da Skyone ainda mantêm seus sistemas dentro de casa, apesar do interesse em modelos de linguagem de grande escala, conhecidos pela sigla em inglês LLMs. Para usar agentes de inteligência artificial com eficiência, segundo ele, as empresas precisam ter dados organizados e sistemas conectados.

Aquisição amplia a base para novos produtos

Para avançar nessa frente, a Skyone adquiriu a ADD IT, empresa de nuvens privadas. Foi a maior aquisição da companhia e a quinta de sua história. A expectativa é usar a base ampliada de clientes para ganhar eficiência, aumentar margens e oferecer novos produtos a empresas que já atendem — uma estratégia conhecida como venda cruzada.

Brandão relaciona essa iniciativa à oportunidade que deu origem à Skyone: identificar empresas com sistemas e dados que ainda não estão preparados para aproveitar uma nova tecnologia. Em 2013, o desafio era ajudar companhias a migrar para a nuvem. Agora, a empresa aposta em organizar a infraestrutura necessária para que os clientes possam avançar no uso da inteligência artificial.

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