As taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) subiram na manhã de sexta-feira, 30 de outubro, enquanto investidores avaliavam a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dados de desemprego mais baixo no Brasil. O movimento ocorreu apesar da queda dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os Treasuries, e refletiu a preocupação do mercado com a condução das contas públicas e os próximos passos da taxa Selic.
Juros futuros avançam
Às 10h45, a taxa do DI com vencimento em janeiro de 2028 estava em 14,435% ao ano, ante 14,366% no ajuste da sessão anterior. No contrato para janeiro de 2035, o juro alcançava 15,3%, depois de fechar a sessão anterior em 15,234%.
As variações foram de 7 pontos-base nos dois vencimentos. Um ponto-base corresponde a 0,01 ponto percentual. Os contratos de DI são negociados no mercado e refletem as expectativas dos investidores para os juros ao longo do tempo.
A vitória de Lula no segundo turno, no domingo anterior, surpreendeu o mercado e continuava influenciando as negociações. Investidores aguardavam indicações sobre quem ocupará, em 2027, cargos importantes, entre eles o Ministério da Fazenda, além de informações sobre a política fiscal do novo governo.
A preocupação com o equilíbrio das contas públicas tem relação com as perspectivas para a inflação e os juros. No mercado, a avaliação é de que o ajuste fiscal é necessário para ajudar a controlar a alta de preços e permitir uma redução sustentável das taxas de juros.
Déficit público mantém pressão
Dados divulgados pelo Banco Central na quinta-feira mostraram que o setor público consolidado registrou déficit nominal de R$ 113 bilhões em setembro. Esse indicador inclui o pagamento dos juros da dívida pública. No acumulado de 12 meses até setembro, o saldo negativo chegou a R$ 1,275 trilhão, equivalente a 9,51% do Produto Interno Bruto (PIB), medida do valor dos bens e serviços produzidos no país.
José Faria Júnior, diretor da consultoria Wagner Investimentos, classificou o problema fiscal como grave e afirmou que o governo precisa enfrentá-lo para evitar um “grande desarranjo macroeconômico”. Em relatório, ele também apontou o endividamento de famílias e empresas como motivo de preocupação, além da dívida do governo.
O quadro fiscal entrou nas expectativas para a política monetária. A próxima decisão do Banco Central sobre a Selic, a taxa básica de juros da economia, será anunciada na quarta-feira seguinte. As preocupações com as contas públicas levaram investidores a aumentar as apostas de que a taxa será mantida em 13,75% ao ano.
Apostas para a Selic mudam
Rafael Sueishi, responsável pela área de renda fixa da Manchester Investimentos, afirmou que antes da eleição os preços indicavam maior probabilidade de continuidade do ciclo de cortes de juros. Depois do segundo turno e da reeleição de Lula, segundo ele, aumentou a chance atribuída pelo mercado à manutenção da Selic na reunião seguinte.
“Não foi a eleição que mudou os fundamentos de inflação ou a atividade de um dia para o outro”, disse Sueishi. Para o executivo, o que mudou foi a percepção de risco sobre a trajetória futura das contas públicas e a continuidade da política fiscal. Essa avaliação pode influenciar o câmbio, os juros e as expectativas de inflação, acrescentou.
Na atualização mais recente, feita na quarta-feira, as opções de Copom negociadas na B3 apontavam 66,5% de probabilidade de manutenção da Selic na semana seguinte e 32% de chance de um corte de 0,25 ponto percentual. Antes do segundo turno, em 23 de outubro, as probabilidades eram diferentes: 17,5% para manutenção e 76% para redução de 0,25 ponto.
Desemprego cai e Treasuries recuam
Na sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que a taxa de desemprego recuou para 5,2% no terceiro trimestre. Foi o menor nível para esse período desde o início da série histórica, em 2012. O resultado ficou em linha com as expectativas dos economistas.
O rendimento real habitual dos trabalhadores ficou estável em relação ao trimestre imediatamente anterior, em R$ 3.790. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, houve alta de 3,6%.
No exterior, o rendimento do Treasury de dez anos caía 6 pontos-base às 10h45, para 4,931%. Esse título do governo americano é acompanhado por investidores como referência para decisões de investimento. A queda dos rendimentos no exterior contrastou com a alta dos juros futuros brasileiros na manhã de sexta-feira.