CIO da Gama diz que retirar dinheiro do Brasil às pressas é um erro


Ian Cao, diretor de investimentos da Gama Investimentos, recomenda que investidores não corram para comprar ativos no exterior após a turbulência provocada pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em entrevista concedida na segunda-feira (26), ele afirmou que decisões tomadas no susto tendem a ser operações de curto prazo, e não uma estratégia de investimento. Para Cao, a diversificação internacional deve ser planejada e construída aos poucos.

Reação do mercado e oscilação do dólar

No primeiro pregão após Lula derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, no domingo (25), o Ibovespa caiu quase 14%. O dólar fechou a segunda-feira a R$ 5,40, depois de terminar a sexta-feira abaixo de R$ 5. Na terça-feira (27), às 9h52, a moeda americana recuava mais de 1%, cotada a R$ 5,33, após chegar a R$ 5,60.

Para Cao, a queda da Bolsa não significava necessariamente que o mercado já estivesse incorporando um cenário econômico catastrófico. Ele comparou o movimento à devolução de parte da alta registrada com o otimismo em torno de uma possível transição para um modelo econômico mais favorável ao mercado.

Segundo o executivo, no fim de agosto o Ibovespa estava em 177 mil pontos. Com a melhora das expectativas, o índice avançou a 210 mil pontos e, após o resultado eleitoral, voltou para perto dos 177 mil. Cao também considerou que um pregão com circuit breaker — mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de quedas acentuadas — oferece pouca base para avaliar o mercado.

“Num dia como hoje, a melhor coisa que você faz é desligar a Bloomberg e o telefone. A chance de fazer besteira é de 90%”, disse. Ele afirmou que a recomendação vale também para o câmbio, cuja trajetória depende de fatores que podem se contrapor. Um deles é o fluxo de recursos: investidores estrangeiros podem buscar o chamado carry trade, estratégia de aproveitar diferenças entre taxas de juros para obter retorno.

Cao citou como exemplo a possibilidade de investidores aplicarem no Brasil diante do deslocamento da curva de juros e de taxas de 15,5%. Na avaliação dele, a direção do dólar no médio prazo dependerá das sinalizações do Banco Central e do Ministério da Fazenda nas semanas e nos meses seguintes. “Quem foi no pânico já está tomando um belo prejuízo”, afirmou.

Diversificação não é resposta ao medo

O executivo defendeu que investir fora do país seja uma decisão estrutural, e não uma reação a um dia de perdas no mercado brasileiro. Como exemplo, mencionou os Estados Unidos: mesmo com uma economia dinâmica, um mercado de capitais profundo e o índice S&P 500 em máximas históricas, mais de 20% dos investimentos estão no exterior.

Na visão de Cao, a diversificação permite combinar ativos que não se movimentam necessariamente na mesma direção. Ele observou que, no pregão citado, títulos NTN-B — papéis do Tesouro Nacional corrigidos pela inflação —, ações e o real perdiam valor, enquanto o crédito e as Bolsas no exterior não reagiam à eleição brasileira.

O risco, segundo ele, é comprar dólares no pico do pânico e depois vendê-los quando a cotação recuar. Cao mencionou como exemplo uma compra a R$ 6 e uma eventual volta a R$ 5,20, que poderia levar o investidor a vender a moeda e retornar aos ativos brasileiros. Ele chamou esse comportamento de “operação sanfona”.

“Quem está pensando em entrar hoje ou nesta semana está fazendo um trade, não investimento”, disse. A expressão se refere a uma aposta de curto prazo, neste caso baseada na expectativa de que o dólar continuará subindo. Para Cao, a diversificação deve ser feita gradualmente, com atenção ao perfil dos ativos e à tolerância do investidor a oscilações.

Alocação depende do perfil

Entre as formas de investir no exterior, Cao citou fundos locais com hedge — proteção contra variações cambiais —, envio de recursos para uma corretora fora do país e ETFs, fundos negociados em Bolsa que acompanham índices ou carteiras de ativos. Ele recomendou que o investidor estude as alternativas e aumente a exposição aos poucos, em vez de transformar o resultado eleitoral em motivo para uma mudança brusca.

O executivo disse não haver uma proporção única adequada para todos. A alocação depende da tolerância ao risco e da composição da carteira. Ainda assim, afirmou que considera menos de 20% no exterior pouco para a maioria dos casos, com base em simulações históricas. A parcela poderia aumentar para 50% ou 80%, conforme a experiência e a sofisticação do investidor.

Cao também citou crédito privado, private equity, fundos multimercado e ações com gestão ativa entre as possibilidades no exterior. A escolha, segundo ele, deve partir da classe de ativos que se encaixa na carteira e da busca por gestores com histórico de gerar alfa, termo usado para designar retornos acima de uma referência de mercado. No caso das ações, a gestão ativa pode reduzir a concentração em grandes empresas de tecnologia e inteligência artificial presente no S&P 500.

Para a Gama, recomendação de investimento no exterior motivada pelo pânico poderia levar clientes a uma exposição maior do que a empresa considera adequada. “Em algum momento, a conta chega”, afirmou Cao. Ele defendeu que os investidores conheçam os produtos e sua tolerância a risco antes de ampliar a parcela internacional.

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