Após oito meses de guerra, Estados Unidos, Israel e Irã não alcançaram seus principais objetivos militares e estratégicos, enquanto o conflito ameaça ampliar os danos à economia global. Uma proposta de saída é um cessar-fogo mediado pelos países árabes do Golfo, com alívio econômico ao Irã em troca da liberação do tráfego pelo Estreito de Ormuz e da suspensão do bloqueio americano.
A iniciativa permitiria que Washington e Teerã interrompessem os combates sem fazer concessões diretas um ao outro. Os países do Golfo também atuariam para reduzir o risco de novos ataques dos Estados Unidos ao Irã. A proposta não resolveria as disputas sobre o programa nuclear iraniano nem sobre o apoio de Teerã a grupos armados, mas poderia conter a escalada e os efeitos sobre o mercado de energia.
Impasse entre Washington e Teerã
Os Estados Unidos e Israel demonstraram capacidade para atingir objetivos militares específicos, como afundar a Marinha iraniana. Mas, segundo a análise, não conseguiram impor uma mudança de regime, destruir o programa nuclear do Irã ou reabrir o Estreito de Ormuz, rota que não estava fechada quando a guerra começou.
O Irã, por sua vez, resistiu a bombardeios intensos, mas não rompeu o bloqueio econômico e militar americano. Também não alcançou seu objetivo de encerrar as ameaças de guerra contra o país. Apesar do impasse, os dois lados não estariam dispostos a fazer as concessões necessárias para um acordo e voltaram a ameaçar a retomada dos ataques.
Um entendimento direto teria precedentes, como os Acordos de Argel, de 1981, e o acordo nuclear de 2015. Nessas negociações, Teerã aceitou limitar ações ou programas em troca de benefícios econômicos e políticos. No cenário atual, porém, o presidente americano Donald Trump quer concessões abrangentes do Irã, enquanto Teerã rejeita abrir mão de seu programa nuclear sem receber benefícios financeiros antecipados e difíceis de reverter.
A proposta de mediação contornaria esse impasse. Países do Golfo poderiam oferecer ajuda humanitária e recursos para reconstrução. Em troca, o Irã interromperia as restrições ao tráfego marítimo e os ataques a embarcações e a esses países. Com a interrupção das ações contra o comércio, os Estados Unidos suspenderiam o próprio bloqueio.
O papel dos países do Golfo
O acordo também prevê um mecanismo temporário de coordenação para a navegação, destinado a evitar incidentes. As embarcações poderiam seguir um padrão de tráfego preferido pelo Irã, sem que isso formalizasse o controle iraniano sobre a passagem. Os países do Golfo usariam sua influência sobre Washington para tentar impedir novos ataques americanos.
Essa atuação teria custos e riscos. As economias do Golfo dependem das exportações de petróleo e gás, que não podem contornar completamente o Estreito de Ormuz. Os esforços para diversificar a atividade econômica também poderiam ser prejudicados por novos ataques iranianos. Ao mesmo tempo, um conflito prolongado ameaça os modelos econômicos e políticos da região.
Há um exemplo recente do peso que os países do Golfo podem exercer: em maio, Kuwait e Arábia Saudita suspenderam temporariamente o acesso dos Estados Unidos a bases e ao espaço aéreo, em meio a preocupações com planos americanos de escoltar navios no estreito. A operação foi interrompida pelos Estados Unidos.
Para que a mediação funcione, os governos do Golfo teriam de superar divergências internas, inclusive tensões entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Também precisariam definir limites para o comportamento iraniano e combinar como reagiriam a violações, por exemplo, suspendendo ajuda ou cooperação econômica.
Limites e riscos da proposta
O conflito no Iêmen é outro obstáculo. A Arábia Saudita responsabiliza o Irã por ataques dos houthis, grupo que recebeu apoio técnico e material de Teerã. Mas o Irã não controla diretamente os houthis, o que torna incerto que consiga interromper as ações do grupo. Como gesto para Riade, poderia se comprometer a limitar seu envolvimento nos ataques atuais e garantir que milícias iraquianas apoiadas por Teerã parem de atacar o reino.
A proposta não eliminaria o risco de retomada das hostilidades, e Estados Unidos e Irã poderiam rejeitá-la. Teerã pode considerar que a capacidade de controlar o estreito é sua principal garantia de segurança; Washington, por sua vez, pode não querer admitir que a guerra não alcançará os resultados anunciados por seus líderes.
Mesmo com um cessar-fogo, permaneceriam sem solução as divergências sobre o programa nuclear iraniano e o apoio do país a grupos armados, além das tensões com os vizinhos. O arranjo também poderia ampliar a influência iraniana sobre a navegação e enfraquecer as relações entre os Estados Unidos e seus parceiros no Golfo.
Ainda assim, a mediação regional é apresentada como uma alternativa possível ao impasse. Os efeitos econômicos podem piorar a partir de 2027, à medida que países consumam reservas estratégicas, a demanda chinesa aumente e rotas alternativas de abastecimento do Golfo sejam alvo de ataques iranianos. Sem um acordo, a pressão sobre os mercados de energia e a estabilidade dos países mais vulneráveis da região pode crescer.

