Política dos Estados Unidos para a China não deve retroceder


O próximo Congresso dos Estados Unidos e os candidatos à Presidência em 2028 deveriam evitar responder à política de Donald Trump para a China com uma guinada automática para uma postura mais agressiva. A recomendação é priorizar uma competição disciplinada, a reconstrução da confiança com aliados e o fortalecimento da indústria americana, em vez de apostar em demonstrações de dureza que podem reduzir o espaço para a diplomacia e aumentar a instabilidade.

A avaliação é que, no segundo mandato, Trump enfraqueceu a capacidade dos Estados Unidos de defender seus interesses diante de Pequim e de atuar como provedor de segurança na Ásia. Ao privilegiar a relação pessoal com o presidente chinês, Xi Jinping, e minimizar tensões históricas entre os dois países, o governo americano teria reduzido sua influência sobre a relação bilateral. Ao mesmo tempo, os ataques do presidente a aliados e parceiros levaram esses países a proteger seus próprios interesses e a estreitar laços com a China.

Pequim também ganhou espaço para se apresentar como um contrapeso estável a Washington. Em pesquisa do Pew Research Center realizada na primavera de 2026 em 36 países, mais entrevistados tinham uma visão favorável da China do que dos Estados Unidos em 25 deles, entre os quais Austrália, Canadá, França, Alemanha e México.

Pressão por uma linha mais dura

As decisões de Trump podem estimular democratas e republicanos moderados a defenderem uma postura mais dura contra a China após as eleições legislativas de meio de mandato, em 2026, e durante a campanha presidencial de 2028. Mas uma correção excessiva pode limitar a capacidade de um futuro governo de manter canais diplomáticos com Pequim e inquietar países que não querem ser arrastados para uma disputa prolongada.

Uma mudança de tom também pode ter pouco retorno eleitoral. Pesquisas recentes em sete estados decisivos mostram que apenas uma parcela pequena dos americanos considera a China um inimigo ou uma das principais ameaças à segurança dos Estados Unidos. Em levantamento do Chicago Council on Global Affairs, de julho de 2025, 53% dos entrevistados defenderam “cooperação amistosa e engajamento com a China”. Foi a primeira vez desde 2019 que a maioria expressou essa posição.

Entre os mais jovens, a percepção é ainda menos confrontadora. Uma pesquisa do Pew de janeiro de 2026 apontou que, entre republicanos de 18 a 49 anos, 32% consideravam a China um inimigo, ante 55% entre os entrevistados com 50 anos ou mais. Entre democratas, os percentuais foram de 10% e 18%, respectivamente. Em março de 2026, levantamento do Searchlight Institute indicou que 62% dos entrevistados de 18 a 34 anos queriam que os Estados Unidos cooperassem com a China e melhorassem as relações bilaterais.

Limites da pressão econômica

O texto também questiona a tentativa de conter o avanço tecnológico chinês por meio de sanções, tarifas e controles de exportação. Após quase uma década dessas medidas, empresas chinesas encontram formas de contorná-las e avançam em inteligência artificial (IA), tecnologia que permite a sistemas executar tarefas associadas à inteligência humana. Além disso, restrições duradouras dependem da cooperação de aliados, justamente quando as relações de Washington com vários deles estão desgastadas.

A China amplia sua vantagem em áreas como veículos elétricos, robótica avançada e ciências da vida. Em vez de tentar construir uma barreira tecnológica em torno dos Estados Unidos, a recomendação é equilibrar a proteção contra riscos de segurança com oportunidades comerciais e de colaboração. O texto cita a fabricação de baterias como um setor em que empresas americanas poderiam aprender com concorrentes chineses e afirma que laboratórios dos dois países poderiam reunir capacidades para acelerar pesquisas sobre doenças como o câncer.

Há sinais de que a competição não eliminou toda a cooperação. Parlamentares republicanos e democratas retomaram gradualmente visitas bipartidárias à China. Em setembro, o secretário de Estado Marco Rubio, que adotava uma posição dura contra Pequim quando era senador, disse que seria “ultrajante” que autoridades de alto escalão dos dois países evitassem se reunir. Também há iniciativas americanas para reduzir a dependência de minerais de terras raras chineses, como o Project Vault, voltado à formação de estoques de minerais críticos.

Diplomacia e força interna

A proposta para o próximo governo é tratar a China como uma concorrente duradoura, mas com limites, e evitar tanto minimizar quanto exagerar seu poder. Os dois países dependem um do outro e não poderiam infligir danos decisivos ao rival sem sofrer prejuízos graves. Por isso, a disputa exige canais de comunicação para reduzir o risco de crises, inclusive acidentes entre aeronaves ou navios.

A coordenação também pode ser necessária para lidar com riscos de segurança ligados à IA. Na cúpula de setembro entre Trump e Xi, os dois países concordaram em criar um sistema de alerta para incidentes. A proposta é ampliar esforços bilaterais para reduzir a possibilidade de crises de segurança provocadas por essa tecnologia, sem tratar a cooperação como incompatível com a competição estratégica.

Outro eixo seria reforçar a capacidade industrial americana. O Congresso e os candidatos de 2028 poderiam apresentar planos para diminuir a dependência chinesa de ingredientes farmacêuticos ativos, terras raras e outros possíveis gargalos, além de priorizar setores como robótica com IA e construção naval. O sucessor de Trump também poderia reduzir tarifas, estabelecer prazos para seu encerramento ou revogá-las por ordem executiva, caso elevem custos de insumos e reduzam a produtividade.

A recomendação final é vincular a política externa à renovação interna dos Estados Unidos. Uma estratégia mais estável, com competição seletiva, diplomacia persistente e investimento em capacidades domésticas, poderia preservar a segurança e ampliar a margem de ação americana sem tratar aliados como instrumentos nem presumir que uma postura mais agressiva produzirá resultados melhores.

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