Eleição no Brasil afeta fluxo global de soja, florestas, combustíveis e terras raras


A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve influenciar o comércio internacional de commodities brasileiras, com efeitos sobre soja, carne bovina, algodão, biocombustíveis e minerais. Analistas avaliam que a continuidade do governo tende a manter os laços comerciais com a China, enquanto a desvalorização do real pode aumentar a competitividade das exportações. O resultado também deve dificultar o acesso dos Estados Unidos às reservas brasileiras de terras raras.

O adversário de Lula, Flávio Bolsonaro, que era favorito nas pesquisas, foi para os Estados Unidos na quarta-feira (28). Aliado do presidente Donald Trump, ele havia prometido estreitar as relações com os americanos, em meio a ameaças de Washington de prejudicar os crescentes vínculos comerciais do Brasil com a China.

China segue como principal destino

A permanência de Lula no cargo deve sustentar o fluxo de soja brasileira para a China, além de favorecer as exportações de algodão e carne bovina. Segundo analistas, um real mais fraco torna os produtos agrícolas brasileiros mais competitivos no mercado externo.

Bruno Binetti, pesquisador associado do instituto de políticas Chatham House, afirmou que a China mantém um parceiro próximo na maior economia da América Latina, enquanto a maioria dos países da região se aproximou do governo Trump. O Brasil deve continuar estreitamente ligado a Pequim, que comprou US$ 100 bilhões em produtos brasileiros no ano passado. As compras dos Estados Unidos somaram US$ 38 bilhões.

Nos primeiros nove meses do ano, o Brasil respondeu por 75% das importações chinesas de soja. Em contrapartida, Lula concedeu amplo acesso ao mercado brasileiro a produtos chineses, incluindo veículos elétricos, que se tornaram os mais vendidos no país.

O real caiu até 13% no dia seguinte à vitória de Lula. Ole Hansen, chefe de estratégia de commodities do Saxo Bank, disse que uma moeda mais fraca eleva, em reais, o valor das receitas de exportação recebidas em dólares e pode levar produtores a acelerar as vendas. Cafeicultores, usinas de açúcar e exportadores de grãos protegeram suas vendas no exterior nesta semana por meio de contratos futuros.

Clima, etanol e preços dos combustíveis

A eleição foi comemorada por grupos ambientalistas, que apontaram a redução de cerca de 40% no desmatamento desde que Jair Bolsonaro, pai de Flávio, deixou a Presidência. O governo Lula apoia políticas climáticas e energia limpa; no ano passado, o Brasil sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.

Neste ano, o governo elevou a mistura obrigatória de etanol na gasolina a 32%, nível recorde, com o objetivo de reduzir a demanda pelo combustível fóssil e conter os preços. Flávio Bolsonaro criticou a medida durante a campanha. Representantes do setor de etanol, por sua vez, afirmam que Lula poderia ter ampliado o espaço dos biocombustíveis no mercado ao reduzir os subsídios aos combustíveis fósseis. Eles não esperam que esses subsídios sejam eliminados em breve.

A consultoria Datagro estima que a gasolina vendida no Brasil esteja cerca de 35% abaixo dos preços internacionais. Essa diferença pressiona os preços do etanol e pode incentivar usinas a produzir mais açúcar do que biocombustível. O governo diz que busca evitar que oscilações globais de energia afetem a economia local e que leva tempo para ajustar os preços internos aos parâmetros internacionais. Também argumenta que, como o país produz a maior parte do petróleo que consome, os preços locais deveriam ser menores.

Custos e dívidas preocupam o campo

A desvalorização do real pode beneficiar as exportações, mas produtores enfrentam custos elevados e preços baixos para soja e milho. O setor também teme que a manutenção de gastos públicos altos pressione a inflação e os juros. A dívida pública chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto, ante 82,6% em julho, maior nível desde março de 2021. O aumento ocorreu enquanto avançavam gastos com subsídios aos combustíveis e programas sociais antes da eleição.

Lula prometeu perdoar dívidas de pequenas empresas, medida que poderia elevar ainda mais o endividamento público. Os juros estão em 13,75% ao ano, entre os níveis mais altos do mundo, encarecendo o pagamento de dívidas rurais. Produtores de soja e milho também lidam com custos altos de fertilizantes e diesel, em meio ao conflito militar no Oriente Médio.

Disputa por terras raras

O Brasil tem a segunda maior reserva de óxidos de terras raras, atrás apenas da China. Esses minerais são usados em setores como automóveis, defesa e tecnologia. O acesso às reservas brasileiras estava nas negociações comerciais entre Brasília e Washington antes do avanço da campanha eleitoral. Analistas avaliam que uma vitória de Bolsonaro teria facilitado e acelerado a exploração desses recursos pelos Estados Unidos.

Lula também pretende desenvolver o setor, segundo Ronaldo Felix, consultor de mineração e diretor de operações da consultoria de comércio exterior Saygo Group. A expectativa de Felix é que o governo abra oportunidades a diferentes países e investidores e exija mais beneficiamento dentro do Brasil, em vez da simples exportação de minerais brutos.

O único projeto brasileiro de terras raras em grande escala até agora, Serra Verde, foi adquirido pela USA Rare Earth em um negócio concluído no mês passado. A companhia obteve US$ 1,6 bilhão em financiamento do governo americano, que ficou com participação de 10% na empresa. Os minerais críticos também foram discutidos por Lula e Trump durante uma visita do presidente brasileiro à Casa Branca, em maio. Na ocasião, Lula disse que os investimentos para explorar esses recursos estavam abertos aos Estados Unidos e a outros países.

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