Empresas de origem espanhola venceram sete dos oito projetos do leilão de transmissão de energia realizado pelo governo brasileiro nesta sexta-feira (30). Os empreendimentos, destinados a ampliar e reforçar a rede elétrica nacional, devem receber R$ 8,9 bilhões em investimentos estimados.
As unidades brasileiras dos grupos Celeo, Cymi, Cox e Iberdrola somaram compromissos de R$ 8,56 bilhões. A disputa entre os participantes levou a um desconto de 50,10% em relação à receita anual permitida (RAP) máxima estabelecida para os ativos, segundo cálculos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A RAP é a remuneração anual prevista para a operação dos empreendimentos; o desconto obtido no leilão representa economia para os consumidores, de acordo com a agência.
Grupos espanhóis lideram as disputas
A Celeo Redes Brasil arrematou o maior empreendimento do leilão, com previsão de R$ 4,1 bilhões em investimentos em obras que devem melhorar o atendimento elétrico a consumidores de Mato Grosso do Sul. A companhia também venceu um projeto em Rondônia, que prevê aportes de R$ 753,2 milhões. De origem espanhola, a Celeo integra atualmente o grupo Cobra IS, da francesa Vinci.
A Cymi conquistou dois projetos: um em São Paulo, com R$ 1,07 bilhão em investimentos, e outro no Paraná, com previsão de R$ 982,5 milhões. A empresa participa com frequência de leilões brasileiros de transmissão e foi um dos destaques do certame realizado em março deste ano.
A Neoenergia, controlada pela espanhola Iberdrola, garantiu projetos na Bahia e na Paraíba, que somam R$ 1,16 bilhão em investimentos. Um dos lotes já era operado pela companhia, que disputou a manutenção da concessão em uma rodada viva-voz com 150 lances. A empresa também tem uma parceria com o fundo soberano GIC, de Cingapura.
Após o leilão, o CEO da Neoenergia, Eduardo Capelastegui, afirmou que a companhia pretende investir em infraestrutura elétrica no Brasil, tanto em distribuição quanto em transmissão. Ele disse que a empresa continuará avaliando futuras disputas e também analisará o projeto de um novo bipolo. Capelastegui ponderou, porém, que ativos de grande porte não são tão compatíveis com o perfil da companhia, por envolverem mais riscos.
A Cox venceu um lote no Paraná, com R$ 480,25 milhões previstos para obras de transmissão. A portuguesa EDP completou a lista de vencedoras, com um projeto entre Goiás e Bahia e aportes estimados em R$ 317 milhões. João Brito, CEO da EDP na América do Sul, disse que o ativo está dentro da expectativa de rentabilidade da companhia e que a empresa continuará buscando oportunidades no segmento.
Projetos atendem a diferentes regiões
Os lotes têm objetivos distintos. No Norte, há obras voltadas a reforçar a resiliência do sistema diante de eventos climáticos. No Nordeste, os projetos devem ampliar a capacidade de escoamento e integrar fontes de energia renovável. Já no Sudeste, os empreendimentos incluem conexões para grandes cargas, como data centers. Um dos projetos também faz parte de uma solução mais ampla de interconexão energética entre Brasil e Bolívia.
Enquanto Celeo, Cymi e Neoenergia asseguraram projetos, outros competidores frequentes adotaram uma postura mais conservadora nas disputas, entre eles Axia, Engie e o consórcio Olympus, da Alupar. As transmissoras ISA Energia e Taesa não participaram do leilão.
Governo prevê novos leilões em 2027
O Ministério de Minas e Energia deve ofertar mais R$ 50 bilhões em projetos de transmissão em 2027, distribuídos em três leilões. Desse total, cerca de R$ 30 bilhões em investimentos devem ser destinados a um novo bipolo de transmissão em corrente contínua.
Com os projetos previstos para o próximo ano, os leilões de transmissão realizados pelo governo desde 2023 devem viabilizar quase R$ 120 bilhões em novos investimentos no país, segundo Thiago Prado, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Ele afirmou que a eletrificação da indústria e da frota, a expansão de data centers e o desenvolvimento do hidrogênio associado à descarbonização ampliam a importância da transmissão como elo de integração e apoio à transição energética brasileira.

