O aumento do custo de capital no Brasil após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve tornar mais seletiva a escolha de ações na Bolsa. Em relatório divulgado nesta sexta-feira, o Morgan Stanley estima que menos de 30% das empresas acompanhadas pelo banco terão, em 2027, retorno sobre patrimônio líquido (ROE) acima do custo de capital próprio (Ke), cenário que favorece principalmente os setores financeiro e de petróleo e gás.
Os estrategistas Nikolaj Lippmann, Julia Nogueira e Marcos Rios calculam que o custo de capital em moeda local chegou a 20,1%, perto dos níveis registrados nos momentos de maior estresse de 2025. Já o ROE mediano projetado para as empresas brasileiras em 2027 é de 17,3%. Como o retorno esperado fica abaixo do custo exigido, o banco recomenda priorizar companhias específicas, em vez de apostar de forma ampla no índice da Bolsa.
“O ambiente é de juros mais altos por mais tempo”, afirmam os estrategistas. Na avaliação do banco, a continuidade das políticas econômicas elevou a percepção de risco do mercado. Nesse contexto, a capacidade de uma empresa de gerar retorno superior ao custo de capital passa a ser um critério central para a seleção de ações.
Financeiras e petróleo se destacam
Entre os grandes setores da Bolsa, apenas o financeiro e o de petróleo apresentam retorno médio suficiente para superar o custo de capital projetado para 2027. O Morgan Stanley estima ROE mediano de 25,1% para instituições financeiras e de 21,1% para empresas de energia, ambos acima dos 20,1% calculados para o custo de capital local.
O ROE relaciona o retorno gerado por uma companhia ao patrimônio líquido. Na comparação do relatório, um retorno superior ao Ke indica que a empresa pode remunerar o capital próprio acima do nível exigido pelos investidores. Setores como consumo básico, materiais, imobiliário e serviços públicos, conhecidos como utilities — que incluem energia e saneamento — aparecem abaixo desse patamar.
O banco também avaliou um cenário mais adverso, em que o custo de capital chegaria a 23%. Mesmo nesse caso, cerca de dois terços das empresas financeiras continuariam gerando retorno acima do exigido. Segundo o relatório, essa resistência seria superior à observada nos demais segmentos.
Exportadoras têm custo menor em dólar
Os estrategistas mantêm preferência por exportadoras e companhias com receitas em dólar, estratégia chamada no relatório de “Brazil com Z”. A expressão contrapõe essas empresas às mais dependentes da economia doméstica, classificadas como “Brasil com S”.
A justificativa é que exportadoras podem acessar um custo de capital em dólar estimado em 12,3%, abaixo do custo em moeda local. Além disso, tendem a se beneficiar de um real mais depreciado. O banco cita petróleo e gás, papel e celulose, mineração e siderurgia entre os setores com essa exposição.
Entre as ações preferidas estão Petrobras (PETR4), PRIO (PRIO3), Nu Holdings (BDR ROXO34), WEG (WEGE3) e Embraer (EMBJ3). A seleção reúne companhias de diferentes setores, mas, segundo a tese apresentada, com potencial de combinar receitas ligadas ao exterior e retornos capazes de enfrentar o custo de capital mais elevado.
O relatório também aponta petróleo e mineração como setores baratos na Bolsa, além de rentáveis. Empresas de petróleo e gás têm ROE de aproximadamente 28% e são negociadas a 1,3 vez o valor patrimonial. Na mineração, o múltiplo também está em torno de 1,3 vez o valor patrimonial, enquanto o ROE fica próximo de 19%.
O múltiplo de valor patrimonial compara o valor de mercado das empresas com o patrimônio registrado. Para o Morgan Stanley, a combinação de rentabilidade elevada e valuation descontado — isto é, negociação a múltiplos considerados baixos — pode favorecer esses segmentos em um ambiente de juros altos e crescimento econômico menor.
Empresas domésticas enfrentam pressão
As companhias mais ligadas ao mercado interno devem ter mais dificuldade para entregar retornos compatíveis com o novo custo de capital, afirma o relatório. Consumo, mercado imobiliário e parte das utilities estão entre os setores mais pressionados.
Empresas com alto nível de endividamento também podem enfrentar aumento das despesas financeiras se os juros permanecerem elevados por mais tempo. A análise reforça, assim, a distinção entre negócios capazes de gerar retorno acima do custo de capital e companhias mais expostas à demanda doméstica ou ao peso do financiamento.

