### A Nova Era das Eleições: Tecnologias que Impactam o Voto
Três dias antes das eleições de 2024, o clima estava quente em Caxias (MA). O prefeito da cidade, a 372 quilômetros de São Luís, fez uma aparição em um comício em apoio ao filho, que estava concorrendo ao cargo. Armado com um celular, ele decidiu expor um áudio que prometia fazer barulho nas redes sociais. No alto-falante, uma voz masculina afirmava que “Paulinho terá que demitir todos os contratados da prefeitura”. O autor da fala? O ex-deputado Paulo Marinho, segundo a acusação. A diferença nas urnas? Apenas 565 votos em um total de mais de 111 mil.
### Acusações e Reviravoltas Judiciais
Paulinho, o candidato derrotado, não ficou calado. Ele recorreu à Justiça Eleitoral, alegando que seu oponente usou uma tecnologia chamada “deepfake” para simular a voz de seu pai. A Justiça, entretanto, se deparou com um obstáculo: a perícia realizada pela Polícia Federal resultou em uma conclusão “inconclusiva”. Era impossível afirmar com certeza se a voz tinha sido manipulada ou não. Para a defesa, não havia provas robustas que comprovassem a suposta fraude.
### Desafios no Combate ao Deepfake
Esse incidente expõe um problema crescente para a Justiça Eleitoral: a dificuldade em regular o uso de deepfakes durante as campanhas. Um levantamento chocante revelou que apenas 20% dos casos em 2024 resultaram em condenações. Segundo a pesquisadora Jhennifer Macedo, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), dos 591 casos analisados, apenas 118 foram considerados como conteúdos manipulados.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está ciente do desafio e tomou medidas para evitar abusos. Uma nova resolução proíbe a publicação de conteúdos gerados por IA nas 72 horas que antecedem as eleições, e exige que qualquer material manipulado seja claramente rotulado como tal. Contudo, a verdadeira mudança pode estar na possibilidade de inversão do ônus da prova, permitindo que o acusado prove a legitimidade de seu conteúdo.
### A Revolução na Prova Digital
Para especialistas, essa nova abordagem pode ser um divisor de águas. Em vez de exigir que a parte acusadora prove a manipulação, o Judiciário poderá exigir que o acusado demonstre a autenticidade de suas publicações. A dificuldade, ainda assim, persiste: sem suporte técnico adequado, como garantir que a Justiça consiga responder de forma eficaz a essas complexas questões?
A falta de uniformidade nos julgamentos sobre deepfake revela outro desafio. Um estudo de Macedo identificou que juízes eleitorais tomaram decisões diferentes quanto ao uso de IA: alguns permitiram, outros proibiram, e alguns avaliaram o grau de manipulação.
### A Necessidade de Diretrizes Claras
Nesse contexto, a aplicação dessas regras ainda parece “dúbia”, segundo a coordenadora do Aláfia Lab, Liz Nóbrega. Para que a Justiça Eleitoral funcione eficientemente, é urgente que haja uma interpretação unificada das normas. Nos últimos pleitos, 62% dos casos de deepfake não foram considerados ilícitos por serem vistos como expressões de liberdade de expressão, como sátiras ou críticas.
Um exemplo prático ocorreu em Pescaria Brava (SC), onde um vídeo de deepfake circulou entre eleitores. Embora o conteúdo tenha sido retirado das redes por ordem da Justiça, a medida foi considerada ineficaz, uma vez que a viralização já tinha ocorrido.
Outro fator complicador é a dificuldade em rastrear a autoria do conteúdo. Em Goiânia, um vídeo comprometedores sobre um governador foi amplamente divulgado, mas a Justiça não conseguiu localizar os responsáveis. Isso ilustra as barreiras que a Justiça enfrenta ao tentar punir responsáveis por deepfakes.
### A Força das Plataformas
Uma saída para esse impasse pode estar na autorregulação das plataformas digitais. Recentemente, o YouTube disponibilizou uma ferramenta para detectar conteúdos falsos gerados por IA, especialmente voltada a políticos e candidatos. Essa mudança é crucial, especialmente com a nova resolução do TSE em vigor, que responsabiliza as plataformas pela remoção de material gerado por IA.
O advogado especialista em Direito Eleitoral Diogo Rais enfatiza que a real dificuldade não é a falta de regras, mas a sua aplicação. “A Justiça Eleitoral não tem o suporte técnico necessário para lidar com essa questão na velocidade que a tecnologia avança”, afirma.
### Uma Questão de Legislação
Por outro lado, Heloísa Massaro, da InternetLab, aponta que, apesar do TSE estar na vanguarda da regulação do uso de IA, falta uma legislação robusta que aborde essa temática. “Esses esforços de controle podem ser vistos como medidas insuficientes, uma vez que uma regulação mais abrangente sobre IA no Brasil ainda está estagnada no Congresso”, completa.
### O Cenário Global e as Respostas à Deepfake
O fenômeno das deepfakes não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, um consultor político foi multado em US$ 6 milhões por utilizar essa tecnologia de forma enganosa durante as eleições. Propostas de leis estão sendo discutidas para coibir a circulação desse tipo de conteúdo manipulativo.
Na Argentina, um caso recente de deepfake resultou na remoção imediata de um vídeo que simulava a voz e a imagem de um ex-presidente, demostrando que a judicialização pode gerar respostas rápidas, ao menos em alguns contextos.
### A Necessidade de Estruturas de Governança
A professora Yasmin Curzi, da FGV Direito Rio, ressalta que uma das principais diferenças entre o Brasil e várias nações desenvolvidas é a falta de uma agência reguladora especificamente voltada para estabelecer padrões de governança nas plataformas digitais. Enquanto isso, mesmo em países com regulação, como a União Europeia, as críticas sobre ineficácia e falta de proatividade nas respostas a casos de deepfake são recorrentes.
### Reflexões Finais
No final das contas, à medida que novas tecnologias, como o deepfake, entram na esfera pública, a Justiça Eleitoral e as plataformas digitais terão que evoluir e se adaptar. A necessidade de um diálogo contínuo e de uma abordagem abrangente é mais clara do que nunca.
Essas questões colocarão não apenas a integridade das eleições em jogo, mas também a confiança do público no sistema democrático. Vamos ficar atentos a essa evolução e refletir sobre como cada um de nós pode contribuir para um ambiente eleitoral mais saudável.
Você já se deparou com conteúdos manipulados nas redes sociais? Quais são suas opiniões sobre a discussão em torno das deepfakes? Não hesite em compartilhar seus sentimentos e pensamentos!


