Quando o tema é agronegócio no Brasil, muitos que vivem nas cidades imaginam números impressionantes, exportações altíssimas e até mesmo desmatamento. Porém, a origem de alimentos como a manteiga que vai no pão ou a suculenta picanha do churrasco de domingo raramente é debatida. Existe uma grande distância entre a visão urbana e a realidade do que ocorre nas fazendas.
O Agronegócio: Uma Base Sólida da Economia Brasileira
O agronegócio se destaca como um dos principais pilares da economia do Brasil. Em 2025, esse setor foi responsável por 32,8% do PIB, de acordo com o IBGE, além de contribuir com quase a metade das exportações brasileiras.
A importância do agronegócio é evidente, pois atua como um sustentáculo direto para a estabilidade da moeda, ajudando a controlar a inflação e gerando empregos, tanto nas áreas rurais quanto urbanas. Essa força é refletida não só na disponibilidade de alimentos em mercados e supermercados, mas também nos seus preços.
Embora a abundância nos supermercados possa parecer garantida, essa segurança alimentar resulta de anos de investimentos em tecnologia, produtividade e gestão. Mesmo em tempos de pandemias, conflitos e desastres climáticos em outras partes do mundo, o Brasil conseguiu garantir o abastecimento interno e expandir suas exportações. Contudo, essa estabilidade muitas vezes passa despercebida pelos consumidores finais.
Os Desafios do Produtor Rural
Por mais relevante que seja, a atuação no agronegócio não é sinônimo de facilidade. O produtor rural enfrenta riscos que poucos setores experienciam, e se você já tentou vender algo sem saber o preço que receberia, pode imaginar como é essa realidade.
Ao contrário de outros negócios, o produtor não define seus preços com base nos custos ou na margem de lucro desejada. Fatores como a taxa de câmbio, estoques globais e custos de transporte influenciam diretamente sua receita, enquanto os custos podem flutuar em resposta a circunstâncias externas. Em suma: a produção agrícola é um campo de alta volatilidade e incertezas.
Para mitigar esses riscos, o produtor não apenas colhe e entrega a mercadoria ao melhor preço. É necessário tomar decisões estratégicas sobre quando fixar custos e preços, equilibrando a venda de forma imediata e contratos futuros, sempre mantendo em mente as necessidades de caixa. Em muitos casos, essas escolhas ainda são feitas com base na intuição, em vez de modelos de gestão bem estruturados.
Profissionalização: Um Caminho Necessário
Por conta desse cenário, tratar propriedades rurais como empresas deixou de ser uma escolha e se tornou uma necessidade. Planejamento estratégico, controle de custos, gestão de riscos e governança são agora questões cruciais para a sobrevivência do produtor.
Tomar decisões fundamentadas em dados se tornou essencial. Diante de margens de lucro muitas vezes estreitas, uma administração profissional não apenas melhora a competitividade, mas também facilita o acesso a crédito e a capacidade de negociar e enfrentar crises.
Contudo, os obstáculos relacionados ao crédito rural ainda persistem. Produzir em grande escala requer capital, e mesmo com iniciativas como o Plano Safra, muitos produtores ainda enfrentam burocracias, altas taxas de juros e prazos impróprios para suas necessidades produtivas.
Atualmente, com a aproximação da Agrishow 2026, a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, muitos produtores estão segurando seus investimentos, refletindo a pressão dos fatores de crédito e margens de lucro em seus negócios.
Quando os números não fecham, não é apenas o produtor que sai perdendo; a capacidade do país de manter e expandir sua produção agrícola também é afetada, com resultados diretos nas prateleiras dos mercados.
Sucessão Familiar e Tecnologia: Os Novos Desafios
O agronegócio é amplamente composto por empresas familiares, e um risco muitas vezes ignorado é a sucessão. Em diversas propriedades, a gestão ainda se concentra em uma única pessoa, sem um plano para a sucessão ou formação de novas lideranças.
Negócios sólidos podem perder competitividade, serem fragmentados ou até desaparecer, como já ocorreu em alguns casos nos Estados Unidos.
Nesse contexto, a tecnologia se apresenta como um aliado fundamental. Inovações como a agricultura de precisão, uso de sensores, monitoramento via satélites e inteligência artificial podem fazer a diferença, permitindo que os produtores aumentem sua produtividade enquanto minimizam desperdícios e impactos ambientais. Essa modernização também torna o campo um ambiente mais atraente para a nova geração.
Convivência entre Campo e Cidade
Todo esse cenário existe dentro de um dos marcos legais ambientais mais rigorosos do mundo. O Código Florestal Brasileiro exige que milhões de hectares sejam preservados em cada propriedade, colocando a responsabilidade sobre o produtor.
Embora seja necessário combater o desmatamento ilegal com rigor, essa questão não deve ofuscar o trabalho da maioria dos produtores que respeitam a lei e investem em boas práticas de preservação.
Não existe um antagonismo entre campo e cidade. O que move o agronegócio é um amor pela terra, pelo trabalho e pela missão de alimentar as pessoas. Quando os produtores têm oportunidade de planejar e investir focando no longo prazo, todos ganham: o produtor, o consumidor, os investidores e, por consequência, o país.
*Jaqueline Casale é zootecnista, conselheira da Casale, que é referência em máquinas para pecuária, e tem uma vida ligada ao campo como filha e esposa de produtores rurais. Com experiência em grandes corporações como JBS Australia, PwC Brasil e BRF, integra o Forbes Mulher Agro (FMA).
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