Como os Estados Unidos podem conter a coerção chinesa


Uma aliança de segurança econômica entre Estados Unidos, União Europeia (UE) e Japão, com compromissos de defesa mútua contra coerção comercial, é a proposta apresentada para responder à pressão chinesa sobre governos e empresas. A iniciativa buscaria coordenar sanções, tarifas, controles de exportação e apoio a países atingidos por restrições de Pequim. A avaliação é que a falta de ação conjunta permite à China negociar com cada parceiro separadamente e ampliar sua influência.

Pequim pressiona parceiros separadamente

O texto aponta três episódios recentes como sinais da estratégia chinesa. Em abril de 2025, depois que os Estados Unidos impuseram tarifas, Pequim respondeu com cobranças generalizadas sobre produtos americanos e controles de exportação de terras raras, minerais usados em diversas cadeias industriais. A reação afetou os mercados de títulos e o fornecimento para montadoras, levando Washington a buscar uma trégua comercial que, segundo a análise, continua em vigor.

Em novembro de 2025, a China restringiu exportações de terras raras ao Japão, após a premiê Sanae Takaichi afirmar que um eventual bloqueio naval chinês a Taiwan poderia ameaçar a sobrevivência japonesa e justificar o envio das Forças de Autodefesa. Tóquio manteve a posição, enquanto os estoques de minerais diminuíam. O apoio dos Estados Unidos foi descrito como limitado.

A UE também enfrentou pressão. Em maio, o bloco começou a estudar novas tarifas para responder ao excesso de capacidade industrial chinesa, que ocorre quando a produção supera a demanda e pode levar a uma oferta elevada de produtos no exterior. O déficit comercial europeu com a China havia chegado a US$ 1,1 bilhão por dia. Após ameaças de retaliação de Pequim e conversas entre o presidente francês, Emmanuel Macron, e o presidente americano, Donald Trump, no encontro do G7 em junho, a Europa optou por negociar. Bruxelas estabeleceu outubro como prazo para medidas concretas de redução do superávit chinês e passou a discutir limites às exportações de veículos híbridos, produtos químicos e máquinas.

Para a análise, esses casos ilustram uma estratégia de “dividir para conquistar”: a China usa seu peso de mercado e o controle de minerais essenciais para tratar cada governo isoladamente. O número de empresas ocidentais incluídas na Lista de Entidades Não Confiáveis de Pequim, sujeitas a penalidades financeiras e jurídicas, passou de cinco em 2023 e 2024 para 76 somente em 2025.

Dependência e poder de negociação

O texto afirma que Pequim subsidia a produção doméstica além da demanda local, mantém a moeda chinesa subvalorizada entre 20% e 30% e usa controles de exportação e sanções para obter influência. O resultado, segundo a análise, é uma expansão das exportações e da capacidade industrial, com efeitos sobre a competitividade e os empregos nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. O superávit comercial chinês atingiu o recorde de US$ 1,2 trilhão no ano passado.

Individualmente, os parceiros ocidentais podem ter dificuldade para contrapor o poder econômico chinês, sobretudo no mercado de terras raras. Em conjunto, porém, Estados Unidos, Europa e Japão produzem cerca de três vezes o volume econômico da China e abrigam a maioria das empresas mais sofisticadas do mundo. Também controlam insumos de que a indústria chinesa depende, como máquinas de litografia, equipamentos industriais especializados, produtos químicos e motores de avião.

A China também continua exposta a sanções financeiras americanas: apenas cerca de 30% do comércio do país é liquidado em renminbi, a moeda chinesa, enquanto a maior parte do restante é paga em dólares. Os pesquisadores Stephen Brooks e Ben Vagle estimaram que um rompimento completo dos laços econômicos entre a China e os aliados dos Estados Unidos causaria, no curto prazo, um impacto sobre o Produto Interno Bruto (PIB) chinês de cinco a 11 vezes maior que o efeito sobre o PIB americano.

Há ainda vulnerabilidades internas. Embora o crescimento oficial chinês tenha sido de 5% no ano passado, a consultoria Rhodium Group estimou a expansão real entre 2,5% e 3%. O país enfrenta uma crise imobiliária prolongada, excesso de investimento estatal e demanda doméstica fraca. Conforme a Rhodium, as exportações respondem por mais da metade do crescimento, o que torna o acesso aos mercados ocidentais relevante para Pequim.

Uma aliança com regras duradouras

A proposta prevê um pacto inspirado no artigo 5 da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), segundo o qual um ataque a um integrante é tratado como ataque a todos. No campo econômico, os membros ofereceriam ajuda financeira, acesso preferencial a mercados e estoques de produtos essenciais a países atingidos por coerção. Também poderiam impor conjuntamente sanções, tarifas ou controles de exportação. Estados Unidos, UE e Japão formariam o núcleo, com possibilidade de entrada de Austrália, Canadá e Reino Unido.

Para tornar o compromisso confiável, o texto defende que Washington retire as tarifas impostas a aliados durante o segundo mandato de Trump e aprove legislação que limite a capacidade de futuros presidentes de restabelecê-las. Uma proposta seria fazer com que novas tarifas contra membros da aliança expirassem após 60 dias, a menos que o Congresso votasse pela manutenção. O pacto também poderia autorizar ajuda rápida a um aliado sob pressão chinesa.

A análise considera que acordos anteriores de coordenação econômica ocidental tiveram resultados limitados. O Conselho de Comércio e Tecnologia entre Estados Unidos e UE, criado em 2021, teria se concentrado em conversas, enquanto o Instrumento Anticoerção europeu, estabelecido em 2023, ainda não foi usado. A plataforma do G7 contra coerção econômica, anunciada no mesmo ano, não criou obrigações vinculantes.

Os laços comerciais transatlânticos, porém, continuam relevantes. O comércio de bens e serviços entre Estados Unidos e UE cresceu quase 6% ao longo de 2025. Ao mesmo tempo, as exportações chinesas de automóveis para a Europa aumentaram 29% naquele ano e mais de 60% em termos anuais em 2026. A indústria automobilística alemã perdeu 50 mil empregos em 2025, e a Alemanha eliminou outros 74 mil postos industriais fora do setor automotivo. Para o texto, a pressão sobre a indústria europeia pode aumentar o interesse em coordenar medidas com Washington.

Uma aliança econômica também poderia avançar para tarifas coordenadas contra práticas que distorcem o comércio, controles comuns de exportação e investimentos em minerais críticos. O desafio, segundo a proposta, é criar compromissos que sobrevivam a mudanças de governo. Para isso, os Estados Unidos teriam de aceitar limites à ação unilateral, enquanto os parceiros precisariam confiar que a cooperação permanecerá em vigor mesmo após uma troca de presidente.

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