Exportadoras e defensivas resistem à turbulência; ações de risco lideram queda


A correção da Bolsa brasileira após o segundo turno das eleições levou investidores a mudar rapidamente de posição em outubro, favorecendo empresas exportadoras, pagadoras de dividendos e consideradas mais defensivas. Relatório do Itaú BBA sobre 17 cestas temáticas mostra que esses grupos resistiram melhor à queda do Ibovespa, enquanto ações mais sensíveis ao risco e papéis vendidos a descoberto tiveram as maiores perdas.

Dividendos e exportação resistem melhor

O Ibovespa recuou 9,9% em outubro. No mesmo período, a cesta de ações com alto dividend yield — indicador que relaciona os dividendos pagos por uma empresa ao preço de suas ações — caiu 2,6%. As carteiras de exportadoras e de companhias beneficiadas pelo agronegócio tiveram baixas de 3,2% e 3%, respectivamente.

O desempenho relativo desses grupos contrastou com o de estratégias mais expostas à aversão ao risco. A carteira de high beta, formada por ações mais sensíveis às oscilações do mercado e ao apetite dos investidores por risco, tombou 30,6%. Já a cesta de papéis mais vendidos a descoberto recuou 21,4%. Nesse tipo de operação, investidores montam posições que podem se beneficiar da queda do preço das ações.

Segundo os estrategistas do Itaú BBA, a mudança de preferência refletiu a deterioração das perspectivas fiscais e macroeconômicas. Nesse cenário, investidores migraram para empresas vistas como mais defensivas, com geração de caixa, pagamento de dividendos ou receitas menos dependentes da atividade doméstica.

Empresas ligadas ao dólar

A busca por companhias com exposição ao dólar também aparece entre os movimentos identificados pelo banco. A cesta de exportadoras reúne empresas como Petrobras, Vale, WEG, Embraer, Suzano, PRIO, Gerdau, JBS e Klabin. Parte relevante das receitas dessas companhias é dolarizada, característica que, segundo o Itaú BBA, contribui para seu desempenho em períodos de alta dos juros reais.

Juros reais são as taxas de juros descontada a inflação. O relatório observa que, desde 2020, a carteira de exportadoras acumula valorização de cerca de 81%, acima do desempenho do Ibovespa no período. O banco também aponta que essa cesta tem menor sensibilidade às oscilações das taxas reais de juros.

O comportamento pode ajudar a explicar por que ações ligadas a receitas externas ganharam espaço em outubro, enquanto companhias mais dependentes do ciclo doméstico ficaram entre as mais pressionadas. A diferença não significa que todas as exportadoras tenham registrado alta no mês: a carteira do grupo recuou 3,2%, mas perdeu menos que o índice de referência da Bolsa.

Estatais lideram no acumulado

As ações de empresas estatais também tiveram destaque no levantamento. A cesta do grupo caiu 4,1% em outubro, mas acumulava valorização de 17,8% no ano e era o melhor tema de investimento em 2026 entre os acompanhados pelo banco.

O grupo inclui Petrobras, Banco do Brasil, BB Seguridade, Caixa Seguridade, Cemig e Sanepar. Em uma janela mais longa, desde 2020, a cesta de estatais acumulava retorno superior a 230%, o maior entre os temas monitorados pelo Itaú BBA. Na sequência, apareciam as carteiras de dividendos e de ações com baixo múltiplo de lucro.

O múltiplo preço sobre lucro (P/L) compara o valor de mercado de uma empresa com seu lucro. Ações com baixo P/L são negociadas por um valor menor em relação ao resultado apurado, embora o indicador, isoladamente, não determine o desempenho futuro de um papel.

Defesa em períodos de estresse

Para os estrategistas, outubro reforçou um padrão observado em momentos de tensão no mercado brasileiro: geração de caixa, distribuição de dividendos e exposição ao dólar tendem a se sobressair em relação a teses ligadas ao crescimento doméstico. O relatório também cita ações de baixa volatilidade entre as cestas que historicamente melhor resistem a períodos de elevação dos juros reais.

O levantamento compara o desempenho de diferentes grupos de ações e mostra como a preferência dos investidores mudou durante o mês. Enquanto o Ibovespa recuou, as carteiras de dividendos, exportadoras e beneficiárias do agronegócio tiveram perdas menores. Na outra ponta, as fortes baixas de ações de high beta e de papéis vendidos a descoberto evidenciaram a pressão sobre estratégias mais expostas à aversão ao risco.

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