Agro brasileiro registra 1 bilhão de tentativas de ataques cibernéticos em 2026


O agronegócio brasileiro registrou 1 bilhão de tentativas de ataques cibernéticos entre janeiro e setembro de 2026, segundo levantamento da FortiGuard Labs, divisão de inteligência da Fortinet. No mundo, foram identificadas 8,3 bilhões de atividades maliciosas contra o setor, alta de 638,49% ante o mesmo período de 2025. A expansão de equipamentos conectados em fazendas e agroindústrias aumenta a exposição a sequestros de dados, alterações em máquinas e interrupções da produção.

Os números contabilizam tentativas e atividades detectadas, não necessariamente invasões bem-sucedidas. Ainda assim, o levantamento e relatos de operações paralisadas mostram como a segurança digital pode afetar etapas que vão do trabalho no campo ao processamento e à distribuição de alimentos.

Equipamentos conectados ampliam os riscos

Alexandre Bonatti, vice-presidente de engenharia da Fortinet no Brasil, afirma que a adoção de tecnologia no agronegócio avança mais rápido que os investimentos em proteção. “A tecnologia está funcionando para o agro, mas ele ainda não tem uma retaguarda robusta de proteção em cibersegurança”, diz. Para o executivo, a dependência de sistemas conectados transformou a segurança digital em uma questão operacional para produtores, cooperativas e agroindústrias.

Tratores autônomos, drones de pulverização, sensores de solo e sistemas de alimentação animal podem ser monitorados ou operados à distância. A conexão por satélite também levou à internet equipamentos que antes funcionavam em redes locais ou sem comunicação externa contínua. “Hoje um empresário do agro consegue abrir o celular e operar ou verificar o GPS de um trator pelo celular. Isso está na internet”, afirma Bonatti.

O executivo cita drones agrícolas como exemplo de equipamento cujo funcionamento pode ser afetado se criminosos explorarem falhas de segurança. Uma alteração nos comandos poderia interferir na aplicação de defensivos. “Aquele drone, se um invasor muda uma configuração para soltar 1 ml a mais de inseticida, isso pode acabar com aquela plantação”, afirma.

O levantamento identificou 1,6 milhão de atividades relacionadas a botnets, redes de dispositivos comprometidos que podem ser controlados remotamente. Desse total, 19 mil registros estavam associados à família IoT-Mirai, conhecida por explorar vulnerabilidades em aparelhos conectados à internet. Também foram contabilizadas 1 bilhão de detecções de tentativas de negação de serviço, que buscam interromper sistemas, e 133,4 milhões de tentativas de exploração de falhas em softwares. Essas categorias não indicam que todas as tentativas tenham resultado em invasões.

Ataques podem interromper operações

O impacto sobre equipamentos conectados apareceu em outubro na França, quando criminosos assumiram remotamente o controle de sistemas de refrigeração de supermercados. O ataque ocorreu na noite de 11 para 12 de outubro e atingiu cerca de 300 estabelecimentos das redes Intermarché e Netto, do grupo Les Mousquetaires. Também foram afetadas aproximadamente 80 lojas Carrefour, unidades da Coopérative U, cerca de 30 lojas Monoprix e estabelecimentos da E.Leclerc.

Os invasores exploraram vulnerabilidades em sistemas associados à fabricante dinamarquesa Danfoss, usados para monitorar e ajustar a temperatura de câmaras frias e freezers. A ofensiva levou ao descarte de perecíveis e à interrupção de operações comerciais. Segundo Bonatti, os criminosos também exigiram pagamento para não comprometer os equipamentos. Em 2 de novembro, outra onda de ataques a sistemas de refrigeração atingiu estabelecimentos em países europeus, incluindo Suécia, Bélgica e Alemanha.

No Brasil, Bonatti relata casos de granjas que ficaram mais de 14 dias com as operações interrompidas após ataques cibernéticos. Ele não identificou as empresas, citando confidencialidade e a relutância de companhias em se expor. “As operações foram totalmente paralisadas”, afirma.

Para dimensionar o impacto potencial, o executivo usa como exemplo uma operação avícola com capacidade de abater 600 mil frangos por dia. Se uma unidade dessa dimensão ficasse parada por 14 dias, 8,4 milhões de aves deixariam de ser processadas. Bonatti ressalva que o cálculo é ilustrativo e não corresponde a perdas comprovadas nos casos mencionados. Uma interrupção também pode afetar o recebimento de animais, o transporte, a armazenagem refrigerada e o fornecimento aos compradores.

Prevenção e recuperação das empresas

O bloqueio de sistemas ou arquivos acompanhado de uma exigência de pagamento é chamado de ransomware. Bonatti afirma que criminosos buscam empresas nas quais a urgência para retomar a operação aumente a pressão financeira. “O atacante não quer especificamente o agro; ele quer aonde ele vai ter um retorno financeiro com menor trabalho”, diz.

Dispositivos da Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês) nem sempre permitem instalar ferramentas tradicionais, como antivírus. Nesses casos, a proteção depende de medidas como controles de rede, restrição de acessos, atualização de sistemas e monitoramento de atividades suspeitas. O executivo diz que empresas preparadas, com equipes de segurança e mecanismos de recuperação, podem restabelecer sistemas sem pagar aos criminosos. “Existem soluções que restabelecem o ambiente sem que haja esse pagamento. Agora, é preciso de maturidade em cibersegurança”, afirma.

O levantamento da FortiGuard Labs foi feito com informações de mais de 1 milhão de sensores de monitoramento espalhados pelo mundo. A América do Norte concentrou 81,2% das atividades maliciosas detectadas contra o agronegócio, seguida pela América Latina, com 12,6%, e pela região da Ásia-Pacífico, com 3,6%. Bonatti ressalta que o volume de tentativas não equivale ao de ataques bem-sucedidos.

A mensuração das perdas econômicas causadas pelo cibercrime ainda depende de estimativas e modelos de risco, segundo relatório do Fórum Econômico Mundial publicado em janeiro de 2026. O documento informou que o fórum e o Global Cybersecurity Forum começaram a estruturar o Centre for Cyber Economics, iniciativa voltada a medir com mais precisão os efeitos macroeconômicos dos ataques. Bonatti também aponta a falta de regras específicas para a comunicação de incidentes no agronegócio como um obstáculo para conhecer a quantidade de ocorrências efetivas no país.

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