A Argentina deve produzir cerca de 23,5 milhões de toneladas de trigo na safra 2026/27, abaixo do recorde da temporada anterior, mas com potencial para ser a segunda maior colheita da história. Às vésperas de a colheita ganhar ritmo, produtores e exportadores acompanham a demanda brasileira, que pode aumentar após as chuvas prejudicarem o volume e a qualidade do cereal no país.
O avanço da colheita chegou a 6,7% da área nacional, segundo o levantamento mais recente da Bolsa de Cereais de Buenos Aires (BdeC). O ritmo está ligeiramente atrasado em relação ao de safras anteriores nesta mesma fase, por causa das chuvas intensas dos últimos dias.
Chuvas e frio marcam o início da colheita
O volume de precipitações elevou a umidade do solo em outubro, especialmente no sul do Brasil, no nordeste argentino e na Mesopotâmia argentina. Em algumas áreas, houve excesso de água no primeiro metro de profundidade, segundo Eugenio Irazuegui, analista de mercados agrícolas da corretora de grãos Zeni, em Rosário.
As chuvas atrasaram os trabalhos no campo por alguns dias, mas não devem comprometer o ciclo da cultura. Irazuegui afirma que o trigo apresenta boas condições. A expectativa de um mês quente e úmido sob influência do El Niño, porém, não se confirmou por completo na Argentina.
Cristian Russo, especialista em clima e diretor do Guia Estratégico para o Agronegócio (GEA) da Bolsa de Comércio de Rosário, relatou temperaturas mínimas entre 4 °C e 6 °C e ocorrência de geadas até 20 de outubro. Segundo ele, o fenômeno continua atuando com intensidade no sudeste do Brasil, mas o clima argentino tem sido diferente do esperado.
Russo avalia que as temperaturas baixas favoreceram a cultura, embora o trigo tenha recebido menos sol. Para a região núcleo, a projeção é de produtividade de 4,3 toneladas por hectare. A colheita deve ganhar velocidade a partir de meados de dezembro, quando as máquinas avançarem pela região núcleo e pelas áreas tritícolas de maior produtividade, no sudoeste e sudeste de Buenos Aires e no sul de La Pampa.
Preços recuam com cenário no Mar Negro
Além do clima e da demanda brasileira, o mercado argentino acompanha a queda das cotações internacionais. Em meados de outubro, notícias sobre uma possível redução das tensões no Mar Negro levaram operadores a considerar a retomada de embarques de trigo russo e ucraniano por portos como Odessa, na Ucrânia, e Novorossiysk, Rostov do Don e Azov, na Rússia.
O trigo argentino com entrega em dezembro era negociado a US$ 207 por tonelada na última semana de outubro. Em setembro, o preço havia chegado a US$ 243. Entre agosto e o início de outubro, o maior volume de negócios ocorreu na faixa de US$ 225 a US$ 230 por tonelada, segundo Irazuegui.
A mudança nas cotações tem impacto para um setor relevante nas exportações argentinas. O complexo tritícola ocupa a sétima posição entre os principais segmentos exportadores do país, atrás dos complexos de soja, petróleo e petroquímica, milho, automóveis, ouro e prata, e carne e couro bovinos. Em 2025, as exportações de trigo somaram US$ 3,649 bilhões. Nos primeiros seis meses de 2026, chegaram a US$ 2,540 bilhões, resultado que aponta para um total anual superior ao do ano passado.
Brasil pode ampliar compras
A demanda brasileira é um fator importante para os exportadores argentinos. Embora o Brasil também produza trigo, as chuvas associadas ao El Niño atingiram áreas produtoras de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul e do Paraná. Os efeitos podem reduzir a oferta e prejudicar a qualidade do cereal brasileiro.
“As fortes chuvas afetaram o volume e, principalmente, a qualidade do trigo brasileiro”, afirmou Irazuegui. Os Estados Unidos poderiam fornecer parte do produto necessário, mas, segundo a análise citada, não dispõem de grande excedente exportável. A Argentina aparece, assim, como uma fornecedora natural para o mercado brasileiro.
Lorena D’Angelo, analista de mercados do AZ Group, estima que o Brasil pode importar quase 9 milhões de toneladas de trigo, acima dos cerca de 6 milhões de toneladas registrados nos anos anteriores. A possibilidade de aumento das compras brasileiras pode ajudar a sustentar as exportações argentinas em uma temporada de produção menor que a anterior.
Para a safra 2026/27, o AZ Group calcula uma oferta total argentina de 27,57 milhões de toneladas: 23,40 milhões de toneladas de produção e 4,17 milhões de toneladas de estoques remanescentes da temporada passada. Desse total, 7 milhões de toneladas devem atender à indústria moageira e 1 milhão será destinado a sementes e outros usos.
Com essa distribuição, o excedente exportável deve alcançar 16 milhões de toneladas. A projeção também prevê estoque final de 3,57 milhões de toneladas, que será comercializado ao longo do próximo ano. A combinação entre a oferta argentina, as condições da safra brasileira e o comportamento dos preços internacionais será acompanhada pelo setor nos próximos meses.

