O economista André Lara Resende reacendeu o debate sobre uma redução forçada da taxa Selic, por decisão política, ao atribuir aos juros elevados o desequilíbrio das contas públicas brasileiras. A proposta, que circula entre alas do governo, prevê a criação de um conselho para definir uma meta de juros. Especialistas e pesquisadores alertam que uma intervenção direta pode pressionar o câmbio e a inflação, além de elevar o custo do crédito de longo prazo.
A proposta de André Lara Resende
Resende argumenta que o principal motor da crise fiscal não é o excesso de gastos do governo, mas o custo de pagar os juros da dívida pública. Na avaliação do economista, a Selic elevada pesa sobre o orçamento e contribui para o desequilíbrio das contas.
A ideia apresentada por ele é criar um novo conselho para estabelecer a meta de juros com base na meta de inflação e no crescimento potencial da economia. A partir desse parâmetro, o Banco Central poderia anunciar uma redução gradual da taxa até cerca de 7,5% ao ano. Resende também afirma que o déficit do governo brasileiro é baixo em comparação com o de países como Estados Unidos e China.
A proposta coloca em discussão quem deve definir o nível dos juros e quais fatores precisam orientar essa decisão. De um lado, a tese de Resende trata o custo da dívida como elemento central do problema fiscal. De outro, especialistas consultados e pesquisadores da FGV IBRE contestam a ideia de reduzir a taxa por imposição política e apontam possíveis efeitos sobre a moeda, os preços e o crédito.
Riscos para o câmbio, os preços e o crédito
Segundo especialistas do mercado e pesquisadores da FGV IBRE, impor um teto artificial para os juros pode levar investidores a retirar recursos do país e buscar moedas estrangeiras consideradas mais seguras. Esse movimento pressionaria o dólar para cima e desvalorizaria a moeda brasileira.
Outro risco apontado é o aumento rápido do consumo após uma queda forçada dos juros. Se a demanda cresce mais depressa do que a capacidade de produção das fábricas e a infraestrutura do país, a oferta não acompanha o ritmo, o que pode pressionar os preços. Assim, uma medida destinada a baratear o crédito poderia, segundo os especialistas, resultar em inflação mais alta.
A percepção de risco também pode afetar os juros de longo prazo. Conforme os alertas citados, investidores podem exigir retornos maiores para emprestar por períodos mais extensos caso desconfiem da condução da política econômica. Nesse cenário, uma redução determinada pelo governo não garantiria crédito mais barato para famílias e empresas e poderia elevar o custo de financiamentos de prazo maior.
O alerta da experiência turca
A Turquia é citada como exemplo dos riscos de uma intervenção política na taxa básica. Em 2021, o presidente Recep Tayyip Erdogan forçou cortes nos juros, que caíram de 19% para 14% em poucos meses. Depois da redução, a lira turca sofreu forte desvalorização, o dólar dobrou de valor e a inflação passou de 19% para mais de 85% em um ano.
O governo turco usou reservas bilionárias de dólares para tentar conter a queda da moeda, mas a estratégia não teve sucesso. Atualmente, o país mantém juros de 50% ao ano na tentativa de recuperar a credibilidade e conter os efeitos da intervenção, segundo o relato apresentado. A trajetória é apontada como advertência por quem rejeita uma redução forçada no Brasil, embora os dados citados descrevam a experiência turca.
Gastos, produtividade e dívida
Pesquisadores que questionam a proposta de Resende atribuem os juros elevados também a fatores ligados à evolução dos gastos e da produtividade. Entre 1995 e 2025, o salário mínimo subiu 195% acima da inflação, enquanto a produtividade do trabalhador avançou 22%. Para esses pesquisadores, o descompasso entre os dois indicadores gera pressão inflacionária.
Outro ponto levantado é a reindexação de benefícios e dos pisos de saúde e educação. Essa mudança teria acrescentado R$ 520 bilhões em despesas durante o mandato atual e respondido por 40% do aumento da dívida, conforme os números citados pelos técnicos. Na avaliação deles, os juros altos refletem a desconfiança do mercado sobre a trajetória futura das contas públicas.
As explicações em disputa levam a diagnósticos diferentes para o desequilíbrio fiscal. Resende destaca o peso dos juros pagos sobre a dívida e propõe uma nova forma de definir a taxa. Os pesquisadores, por sua vez, relacionam a pressão sobre os preços e a dívida ao descompasso entre salários e produtividade, ao avanço de despesas e à percepção de risco sobre as contas do governo.

