Direita quer expor votos para derrotar Alcolumbre no Senado


Rogério Marinho (PL-RN) oficializou nesta quarta-feira (4) sua candidatura à Presidência do Senado, cuja eleição está prevista para fevereiro de 2027. A estratégia da direita é obter compromissos públicos dos senadores e pressionar para que eles revelem seus votos, numa tentativa de evitar deserções em favor de Davi Alcolumbre (União-AP), que busca a reeleição.

Marinho é apontado como o nome mais forte da direita na disputa. O PL, o Novo e aliados de centro-direita tentam ampliar o apoio para além do núcleo conservador e superar a articulação de Alcolumbre, que conta com o respaldo de partidos como União Brasil e Progressistas. Tereza Cristina (PP-MS), também cotada como alternativa, é um dos nomes que a campanha de Marinho pretende incorporar ao projeto.

Compromissos públicos para conter deserções

A campanha quer tornar visíveis as escolhas dos senadores antes da votação e expor as cédulas no dia da eleição. O objetivo é elevar o custo político de parlamentares que defendam publicamente processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e, depois, apoiem a recondução de Alcolumbre.

O cientista político Ismael Almeida relaciona a iniciativa a uma promessa feita pelo próprio Alcolumbre em 2019. “A oposição evocará a promessa do próprio presidente do Senado em 2019, de pôr fim ao secretismo”, afirmou. Segundo Almeida, a pressão já levou senadores a se posicionar, rejeitar acordos partidários e reafirmar apoio ao impeachment de ministros, com Alexandre de Moraes entre os principais alvos. Para o especialista, essas manifestações podem se transformar em movimento social.

José Medeiros (PL-MT), senador eleito, está entre os primeiros a declarar apoio a Marinho. “Vamos de Rogério Marinho, para iniciar processos de impeachment, a começar de Alexandre de Moraes”, disse. Medeiros também defende que os votos sejam revelados.

A disputa ocorre em meio a divergências sobre o papel de Alcolumbre e sua relação com o governo federal e o Judiciário. A esquerda apoia a reeleição do presidente do Senado, que, segundo a notícia, resiste a abrir processos de impeachment contra ministros. Já aliados de Marinho apresentam a eleição como uma forma de contestar o que consideram perda de prerrogativas do Legislativo.

Antecedente de 2019 e contas divergentes

Alcolumbre usou a bandeira da transparência em 2019, quando disputou a presidência da Casa contra Renan Calheiros (MDB-AL). Na ocasião, o STF determinou, em decisão liminar, a abertura do painel de votação. A medida foi derrubada por outro ministro no dia da sessão, mas, sob pressão nas redes sociais, senadores exibiram seus votos. Renan desistiu da disputa.

Agora, a oposição tenta recorrer ao mesmo argumento contra o antigo beneficiário da mobilização. Tereza Cristina e Guilherme Derrite (PP-SP), senador eleito, rejeitaram o apoio a Alcolumbre, contrariando a orientação da federação União-PP. Derrite defendeu que a direita tenha um candidato único. União Brasil e Progressistas, por sua vez, anunciaram apoio à reeleição do atual presidente do Senado.

Os números das eleições anteriores e as projeções atuais mostram a distância entre os dois campos. Em 2023, Marinho recebeu 32 votos, contra 49 de Rodrigo Pacheco, então filiado ao PSD. Aliados de Marinho dizem projetar maioria para 2027, enquanto Alcolumbre afirma contar com 48 apoios. A divergência torna incerto o resultado e aumenta a importância dos compromissos públicos que a campanha tenta consolidar.

Marcus Deois, diretor da consultoria política Ética, avalia que o tamanho das bancadas do PL na Câmara e no Senado não garante o comando das Casas. “Nem a força das redes sociais serve nessa hora”, afirmou, ao apontar que a disputa interna tem dinâmica diferente da eleitoral.

Negociação por cargos e resistência à pressão

A eleição também envolve negociações por postos na Mesa Diretora, gabinetes maiores e viagens internacionais. O PL destaca sua bancada de 28 senadores, enquanto o Novo questiona pedidos de impeachment de ministros e apresenta questionamentos sobre a suspeição de Alcolumbre.

Eduardo Girão (Novo-CE), que não estará na próxima legislatura, afirma que cobranças feitas durante seu mandato contra Alcolumbre — por omissão ou por suposta proteção a pessoas acusadas de abusos e escândalos — podem se refletir em votos de oposição. Ele compara a disputa à narrativa bíblica de Davi e Golias: “Davi [Alcolumbre] agora é o novo Golias a ser derrotado pela transparência”, disse. Girão também avaliou que a indignação, por si só, não será suficiente para superar a influência do presidente do Senado sobre os colegas.

Entre os opositores, há desconfiança sobre os acenos de Alcolumbre a um possível perdão para Jair Bolsonaro (PL). Carlos Jordy (PL-RJ), deputado federal e senador eleito pelo Rio de Janeiro, e Jorge Seif (PL-SC) rejeitam trocar o comando do Senado por concessões e apontam promessas anteriores. Nesse grupo, a ideia de “pacificação” é vista como uma tentativa de proteger Moraes, interpretação que não é apresentada como consenso entre os envolvidos na disputa.

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