Uma análise de dados recuperados do celular de Daniel Vorcaro identificou 316 registros de interações com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), entre setembro e novembro de 2025. O material, localizado pela Polícia Federal (PF) após a apreensão do aparelho, inclui mensagens, fotos e chamadas e aponta conversas sobre temas pessoais e preocupações relacionadas ao Banco Master. Moraes contesta a autenticidade dos diálogos, enquanto a defesa do ex-banqueiro questiona a integridade das provas.
Registros foram recuperados do celular
O aparelho de Vorcaro foi apreendido no fim de 2025, quando o empresário foi preso em novembro. Segundo o levantamento, parte das comunicações pôde ser recuperada apesar de o WhatsApp estar configurado para apagar mensagens após 24 horas. Os dados teriam sido encontrados em bancos de dados secundários armazenados no próprio celular.
Do total de 316 registros, 187 correspondem a mensagens enviadas por Vorcaro. Outros 129 incluem respostas atribuídas a Moraes e notificações do sistema. A contagem considera diferentes tipos de comunicação, entre eles textos, fotos e ligações telefônicas. Os registros abrangem os dois meses anteriores à prisão do ex-banqueiro.
A quantidade identificada sugere uma frequência de contato maior do que a admitida anteriormente, segundo a análise dos dados. O material, porém, é objeto de contestação: Moraes nega que os diálogos apresentados sejam verdadeiros, e os advogados de Vorcaro afirmam que é preciso verificar como os arquivos foram preservados e acessados.
Conversas misturavam assuntos pessoais e do banco
O conteúdo atribuído às conversas inclui interações pessoais. Em alguns trechos, Vorcaro elogiava Moraes como pai, e o ministro respondia de forma cordial. As mensagens também teriam tratado de preocupações profissionais do empresário, especialmente de possíveis investigações contra o Banco Master.
De acordo com os registros descritos, Vorcaro sugeriu que Moraes conversasse com integrantes da cúpula da segurança e do Judiciário. Entre os nomes citados estavam Paulo Gonet, então procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, diretor da Polícia Federal. O ex-banqueiro também teria pedido o adiamento de medidas contra o banco, sob a justificativa de evitar uma possível falência da instituição.
A existência dessas mensagens não comprova, por si só, que as conversas ocorreram nos termos apresentados ou que pedidos tenham sido atendidos. Moraes afirma que parte do material foi interpretada a partir de anotações feitas no celular de Vorcaro, e não de mensagens efetivamente trocadas entre os dois.
Contrato com escritório da esposa de Moraes
Outro ponto relacionado à investigação é um contrato entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O acordo previa pagamentos mensais de R$ 3 milhões e tinha valor aproximado de R$ 130 milhões. A contratação começou em janeiro de 2024 e se estendeu até a liquidação do banco, em 2025.
Análises da Polícia Federal indicaram que Moraes teria editado versões da minuta do contrato. O escritório de advocacia sustenta que a relação foi legal e afirma que o ministro nunca julgou processos diretamente relacionados ao banco de Vorcaro. Esses pontos fazem parte do contexto examinado pelas autoridades, mas a existência do contrato não demonstra, isoladamente, irregularidade.
Moraes e defesa contestam o material
Em manifestação enviada ao STF, Moraes classificou os diálogos como falsos e mentirosos. O ministro argumentou que a maior parte dos registros seria formada por inferências baseadas em notas encontradas no celular do empresário, sem correspondência em conversas reais entre os dois.
A defesa de Vorcaro concentra seus questionamentos na cadeia de custódia, isto é, no histórico de preservação e manuseio das provas. Os advogados apontam alterações em arquivos e atividades que consideram suspeitas depois que a Polícia Federal assumiu a posse do aparelho. Por isso, pedem acesso aos dados originais para examinar a integridade do material.
As versões divergentes deixam em discussão tanto o conteúdo das interações quanto a forma como os registros foram recuperados. De um lado, a análise dos dados aponta centenas de contatos; de outro, Moraes nega a autenticidade das conversas e a defesa do ex-banqueiro questiona a confiabilidade dos arquivos apresentados.

