A Revolução do Sítio Esperança: Uma História de Resiliência e Tradição
A Conexão entre Porto Alegre e Barão de Cotegipe
Na estrada que liga Porto Alegre a Barão de Cotegipe, uma pequena cidade gaúcha com aproximadamente 7 mil habitantes, encontramos a BR-386. Essa rodovia, conhecida como a “Rodovia da Produção”, é um importante eixo que atravessa uma região rica em produtos como soja, milho, trigo, carne e madeira. Aqui, a vida rural e as tradições se entrelaçam em cada canto. E é em uma das propriedades dessa região, o Sítio Esperança, que a história de Laércio Carlos Lerin e Sandra Piovesan se destaca, mostrando como o amor pelo campo pode moldar um futuro.
A Decisão de Permanecer no Campo
Laércio e Sandra, um jovem casal de agricultores, desafiaram as expectativas de tornar sua pequena agroindústria em um negócio de grande escala. “Somos apenas dois colonos do interior”, comenta Laércio, 33 anos, refletindo sobre a vida simples que escolheram ao lado de sua filha e do futuro nascimento de sua segunda filha. Desde o início, o casal teve a missão de restaurar um rebanho que havia sido severamente afetado pela tuberculose bovina. O seu sonho não era apenas produzir queijo, mas fazer isso com integridade e respeito às tradições familiares, que datam gerações.
A Cultura do Queijo e a Luta por Sustento
A produção de queijo sempre fez parte da vida das famílias da comunidade onde os Lerin vivem, que são descendentes de italianos, poloneses e alemães. Histórias de épocas em que a fabricação de laticínios era uma questão de sobrevivência ecoam no passado das famílias. Laércio comenta: “Antigamente, como não havia mercado por perto, o queijo colonial era uma reserva alimentar, principalmente no inverno.” Essa prática de produzir queijo caseiro continuou nas famílias de Laércio e Sandra, refletindo uma rica herança cultural que eles decidiram preservar.
O Retorno ao Campo e os Desafios Enfrentados
Após um período vivendo na cidade de Erechim, o casal decidiu retornar ao campo em 2017. “É aquela história: vamos para a cidade em busca de melhores condições de vida, mas perdemos a conexão com a natureza e com a nossa essência”, diz Laércio. Porém, o retorno trouxe desafios inesperados. Em 2019, uma crise atingiu a propriedade ao diagnosticarem tuberculose em seu rebanho, resultando no abate de nove vacas leiteiras. “Nossa propriedade enfrentou um grande desafio, e não sabemos como sobrevivemos aquele ano”, desabafa Laércio.
A Superação da Crise e o Novo Começo
Diante da adversidade, Laércio e Sandra se sentaram e decidiram que não iriam desistir. “Choramos, mas percebemos que estávamos determinados a recomeçar.” Assim, o casal buscou um financiamento e introduziu novilhas holandesas na propriedade. O leite voltou a fluir, mas eles se questionavam: “Por que depender apenas da venda do leite, se podíamos criar algo mais?”
A Revolução na Agroindústria: Do Leite ao Queijo
Em 2022, inspirados pela necessidade de diversificação, Laércio e Sandra decidiram transformar sua propriedade em uma agroindústria. Começaram a fabricar queijos, resgatando as tradições familiares e explorando novos sabores. A produção do queijo colonial, que já era tradicional na região, ganhou novos ares quando decidiram diversificar o portfólio com queijos autorais.
Hoje, eles têm 35 bovinos, dos quais 20 a 22 estão em lactação, produzindo entre 10 mil e 12 mil litros de leite por mês. A produção de queijo varia de 400 a 500 quilos e o restante é enviado para a Cooperativa Santa Clara. As vacas têm acesso a pastagens de estrela-africana, enquanto períodos de baixa na pastagem são compensados com silagem de milho.
O Acesso a Novos Mercados e a Legalização
A trajetória do Sítio Esperança ganhou um novo capítulo em 2023, quando Sandra, recém-formada em medicina veterinária, assumiu a responsabilidade técnica da queijaria. O casal buscou a certificação para expandir as vendas além das fronteiras do município. Depois de enfrentar resistências, conseguiram o registro no Sistema Unificado Federal, se tornando a primeira agroindústria familiar do Rio Grande do Sul a ser inspecionada pelo sistema federal.
Esse passo foi crucial para o crescimento do negócio. A partir de então, os queijos produzidos pelo Sítio Esperança podiam ser comercializados em qualquer lugar do Brasil, rompendo as limitações impostas anteriormente. A mudança trouxe novas oportunidades, especialmente em eventos e feiras onde o contato direto com os consumidores se tornou um aspecto central da estratégia de vendas.
A Ascensão no Mundo dos Queijos
O portfólio de queijos do Sítio Esperança enriqueceu com a inclusão de variedade e inovação, mantendo sempre um legado de qualidade. Sandra participou de competições e começou a criar queijos com características únicas, como o “Bendito”, um queijo que conquistou medalha de ouro em um concurso nacional. A busca por qualidade e autenticidade se tornou uma marca registrada do casal.
As Feiras e o Relacionamento com o Público
Embora tenham conquistado autorização para vender a nível nacional, Laércio e Sandra decidiram continuar focados nas feiras locais, onde 80% de suas vendas ocorrem. “Nós gostamos desse contato direto com as pessoas”, diz Laércio. Para participar dos grandes eventos, o casal planeja sua produção com antecedência, garantindo que possam oferecer queijos maduros e de sabor refinado.
Preservando a Essência e Olhando para o Futuro
A história do Sítio Esperança é sobre mais do que apenas a produção de queijo. É um testemunho de como a paixão, a resiliência e a conexão com as tradições familiares podem moldar um negócio sustentável, mesmo em um mundo onde a tendência é maximizar a produção. “Não estamos interessados em escalar para grandes dimensões”, afirma Laércio. “Queremos manter a essência dos nossos produtos, sem corantes ou conservantes.”
O futuro do Sítio Esperança inclui planos de turismo rural, permitindo que visitantes experimentem a vida no campo e compreendam o processo de produção dos queijos. “Queremos abrir as portas da nossa propriedade para que mais pessoas conheçam nosso trabalho e possam vivenciar essa experiência.”
Um Legado em Construção
Aos 33 anos, Laércio abraça o legado de seu pai e vislumbra um futuro onde suas filhas possam continuar essa história de amor pela agricultura e pela produção de alimentos. Com desafios à frente e a experiência acumulada ao longo dos anos, o casal se sente motivado a criar uma nova geração de agricultores.
Esta é a história do Sítio Esperança, onde a luta pela sobrevivência se transformou em uma celebração da herança e da inovação. A jornada de Laércio e Sandra é um convite para todos nós refletirmos sobre a conexão com a terra e a importância de valores familiares. Afinal, em cada pedaço de queijo, existe um pedaço do seu coração e da sua história. É essa autenticidade que faz toda a diferença e que poderá, sem dúvida, inspirar outros a seguir o mesmo caminho. Aventure-se nesse mundo saboroso das tradições e da produção rural, e deixe-se encantar pelas histórias que cada queijaria tem a contar. Siga acompanhando o canal da Forbes e descubra mais sobre empreendedorismo, tecnologia e a vida no campo!


